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[música] [música] [música] Olá, ouvintes. Sejam bem-vindas, sejam bem-vindos. Está no ar mais um episódio do Vozes Negras de Campinas, o podcast que celebra trajetórias, ideias e experiências de quem constrói uma cidade mais justa, plural e representativa. Eu sou o Daniel Carlos Estevão e este é um projeto da Prefeitura de Campinas por meio da Secretaria Municipal de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas, do Programa de Desenvolvimento de Lideranças Negras na Gestão, em parceria com a Câmara Municipal. de Campinas, a Casa do Povo. Um esforço conjunto para dar visibilidade às lideranças negras e promover o diálogo sobre equidade racial no serviço público. Bom, antes de nós prosseguirmos, eu farei a minha audiodescrição. Eu sou um homem de pele preta, uso o cabelo raspado, tenho 1,76 m e hoje eu estou vestindo uma camisa social branca. com detalhes em laranja e uma calça jeans azul. No episódio de hoje, conversaremos com um educador, gestor, que simboliza o poder transformador da educação quando aliada à determinação e à consciência da identidade. Nosso convidado de hoje é Luís Roberto Mariguete, secretário adjunto da Secretaria Municipal de Educação de Campinas, um dos nomes de maior destaque na gestão pública educacional da cidade, com uma trajetória que começa como alfabetizador de adultos. e chega ao alto escalão da Prefeitura de Campinas, ele representa uma geração de profissionais negros que conquistaram espaços nas estruturas de poder por meio da competência, da sensibilidade e do compromisso com o coletivo. Luí, seja muito bem-vindo ao Vozes Negras de Campinas. Boa tarde, Danel. Obrigado. Queria começar parabenizando a Secretaria Municipal de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas e a Câmara Municipal também pela iniciativa. E bom, enfim, espero que quem tá nos assistindo goste do episódio. Muito bom, uma alegria receber você aqui, né? a gente conhece um pouco da sua trajetória e sabemos o quanto você faz a diferença. Mas antes de nós falarmos sobre gestão, sobre políticas públicas, eu quero voltar um pouquinho no tema, né? Você nasceu em Ribeirão Preto, filho de uma mãe negra descendente de escravos da fazenda Boa Vista e um pai descendente de imigrantes. Eh, me diga uma coisa, essa mistura de histórias e raízes certamente te moldou como pessoa e como educador. É isso mesmo? É isso. Eh, antes, Daniel, queria pedir desculpa, né, que eu não fiz a minha audiodescrição. Sim. Então, eu sou um homem, isso de 53 anos, eh, de cor parda, eh, 1,90 m, bastante acima do peso, como é possível perceber, e tenho cabelos, eh, grisalhos, mais ou menos longo. Tô vestindo uma calça preta e uma uma camisa jeans. Muito bem. É, de fato, eu venho de uma família eh que acho que simboliza um pouco essa coisa da missigenação que a gente vive no Brasil, né? A minha mãe, sobrenome Silvério, né? Minha mãe, ela descende, descendia, melhor dizendo, de escravos que eh atuaram nessa fazenda produtora de café, que foi uma das maiores fazendas do estado de São Paulo na produção do café. eh atuaram no século XIX e depois eh digamos que a família da minha mãe encontra com a família do meu pai que também veio para para trabalhar no café. Eram imigrantes italianos que vieram ali por volta dos anos 30, né? Então eu acho que eu sou um, eu e minhas irmãs, quer dizer, a gente é um pouco fruto disso e marcou sim a minha trajetória profissional como a vida mesmo, porque ã para nós era interessante perceber que como é que se dava essa essa coisa da relação entre uma família de pretos e eh pardos com uma família de de pessoas brancas, né? E muitas coisas a gente, eu fui entender dessa relação há muito pouco tempo, né? Estudando um pouco essa coisa do racismo, vendo o pessoal falar e que de fato eu fui entender, eu fui ter a clareza de algumas construções que se deram naquela época. Então, acho que marcou a minha vida profissional, me marcou também como pessoa. Eh, quando eu começo a trabalhar, eu começo a trabalhar como alfabetizador de alfabetizador de adultos, né, num programa inicialmente em iniciativas mesmo voluntárias e depois um programa que a Prefeitura de Ribeirão Preto desenvolvia. Eh, e foi bastante interessante porque as pessoas que a gente atendia ali eram pessoas analfabetas. Naquela época a educação de jovens e adultos ainda era muito marcada por uma idade bastante grande das pessoas que que chegavam. Eh, e aí o que a gente percebia é que eram pessoas eh com uma origem, uma trajetória muito parecida com a da minha própria família. Então era muito interessante porque do ponto de vista cultural, digamos que eram os meus, né, que estavam ali, embora eu fosse escolarizado, tivesse, enfim, feito curso superior, mas havia uma proximidade muito cultural muito grande com essas pessoas. Então, eh, foi uma experiência muito interessante. Ouvi a história dessas pessoas para ver que estavam muito associadas com a minha, eh, e como que o analfabetismo, a pobreza e essa questão racial, elas têm marcas com origens assim, eh, muito concretas, né? Então, de fato, marcou sim bastante a minha a minha trajetória, né? Vamos dizer. Perfeito. Ô Luiz, você já começou a falar um pouquinho a respeito da minha próxima questão, né, dessas lembranças da tua infância. Eh, o que que você poderia mencionar, né, de fatos ou acontecimentos que te ensinaram sobre resistência, sobre dignidade e importância da educação? Olha, Daniel, assim, meu pai e minha mãe, eles eram eh e aí é bastante interessante isso, né? Porque minha mãe preta, meu pai branco e os dois eram tinham pouquíssima escolaridade. Na verdade, os dois tinham estudado até a gente chamava de de quarta série, né, que seria o ensino fundamental, anos iniciais hoje. E fizeram isso quando foram pra cidade no Mobral, né, naquela época, nos programas de para atender adultos. eh foi o máximo que eles conseguiram eh de escolarização. Eh, então essa era uma coisa que me marcava muito, porque embora eles tivessem uma trajetória de vida bastante interessante, eram pessoas muito inteligentes, né? Eh, faltava formação, eh, eh, educação formal, né? E aí eu, a gente sempre se perguntava por isso, né? Mesmo quando a gente tava na escola. Por quê? Eh, quando eu começo a fazer o ensino médio, naquela época nem tinha esse nome ainda, né? Eh, eu fui colegial. Exato. Eu fui o primeiro membro da minha família eh a fazer e a concluir o o o o antigo colegial, que seria o ensino médio hoje. Então, sempre ficava essas perguntas, né? Porque tem também esse componente da herança, da dificuldade de sobrevivência no sistema educacional. O sistema educacional ele ele ele no Brasil ele tem uma marca de exclusão e e essa marca de exclusão, infelizmente ela muitas vezes ela é herdada, né? É um fenômeno que já foi muito estudado por quem atua na educação de adultos. A gente estuda muito isso. E essa foi uma coisa que tava marcada na minha família. Então, eu fui o primeiro neto na parte da minha família preta, vamos dizer assim. Eu fui o primeiro neto a terminar o ensino médio e a fazer curso superior, né? Há muito pouco tempo que a gente foi ter outros membros da família com com graduação, com curso superior, né? Durante muito tempo eu fui o único. Eh, e isso gerava questionamento, né? Por que isso é tem que ser assim, né? E claro que havia uma dificuldade econômica para isso, sim, mas tem uma questão que é muito mais do que isso. É interessante pensar que a gente nem concebia perspectiva de Então, eh, eu me lembro bem que quando eu fui fazer o ensino médio, eu não tinha nem dimensão do que era um curso superior, né? Isso não era algo que tava pautado para mim, tipo, eu não pensava. Então, não é, eu não entrei no primeiro ano do ensino médio pensando o que eu queria fazer na graduação, eu nem pensava isso. Então, era como se isso não tivesse fazendo parte da minha perspectiva. Isso foi se construindo mesmo na escola. E como que foi isso, né? No ensino médio eu comecei a atuar no movimento estudantil, né, lá nos anos 90. Foi aquele período dos cara pintada, então eu fui um cara pintada também, né? livre, embora eu não seja de Campinas, eu sou de Ribeirão Preto, mas em Campinas também foi um movimento muito forte, mais ou menos na mesma época. E o movimento estudantil, essa militância política, eh, e também na Igreja Católica, a gente tinha uma atuação na na pastoral juventude. Isso que criou a perspectiva de fazer um ensino superior, né? Então, digamos que foi ali durante o ensino médio que eu fui eh pensando que isso isso era algo que que eu poderia almejar. Claro que eu não tinha as condições para isso, mas eu começava começava a fazer parte do horizonte. Pô, existe universidade e, pô, por que que eu não posso fazer parte dela e tal. E quando eu fui discutir isso de forma um pouco mais concreta, eu fui paraa educação também por conta disso, porque digamos que eu era um pouco fruto dessa contradição. Acho que como várias vários de nós somos, né? Então por isso que eu acabei indo paraa educação, né? Eu fiz história, né? a ideia de ser professora era um pouco para discutir isso. Eh, então não sei se eu expliquei exatamente o que você perguntou, mas eh acho que um pouco esse conjunto de contradições, né, quer dizer, é que foi um pouco me formando para isso. Mas uma coisa importante que a gente tem que discutir, eu sempre falo, a gente sempre debate isso hoje, é o seguinte, para algumas pessoas, né, eh algumas coisas não estão nem na no horizonte. Então, precisa construir o paradigma também, né? Então, eh, é, essa também é uma questão paraa educação. Não basta você ofertar uma educação de qualidade para alguém que não tem nem a perspectiva disso, né? Eh, então esse é um elemento que a gente também precisa discutir com as políticas públicas, né? como é que a gente faz com que as pessoas elas entendam que eh tem que tá no horizonte delas também galgar eh uma escolarização, novos horizontes na educação, né, uma escolarização um pouco mais refinada para poder atuar de forma mais autônoma na sociedade, né? Então esse é um elemento importante, sim. Perfeito. Ô Luiz, nós temos algo em comum, né, que é o fato de nós sermos formados em história, né? Eh, e eu me lembro que a as condições que me levaram eh a fazer o curso de história, eh, primeiro eu tive algumas referências, né? Tive alguns professores de história que me inspiraram, né? Então, essa coisa da referência é muito importante. Eh, uma outra coisa que eu venho do interiorzão de São Paulo, né? as condições objetivas que me eram dadas naquele momento com uma faculdade, né, que era a faculdade que eu oferecia graduação ali, né, local e eu não teria condições naquele momento de sair fora para fora para ver outras coisas, né? Esse conjunto de situações me leva a cursar a disciplina de história. Então você também traz isso, né? você traz que você teve um conjunto de elementos que te levaram, que essa era é é é uma das uma das questões que que eu trago aqui, alguns conjuntos, alguns elementos que te levaram a isso, mas a escolha, né, pela história, pelo curso de história, como é que como é que se deu isso objetivamente? Ó, Daniel, acho que bom, eh eh acho que tem dois aspectos importantes na no meu caso que me levaram a à história. Acho que a militância é um Uhum. Porque uma coisa que a militância naquela época ele ela fazia era criar a necessidade que a gente tivesse que ler, né? Uhum. Um pouco diferente de de como as coisas se colocam hoje. Você precisava ter alguma bagagem de leitura para você atuar. Então, eh, digamos que os historiadores eles eram um pouco a nossa fonte ali. E eu, bom, eu fiz ensino médio noturno, né? Eu eu trabalhava durante o dia, eu era boy e ia pra escola a à noite. E eu tive um professor de história, eh, negro, aliás, eh, de Jaime, né? uma figura sensacional, eh, que tava recém começando na na profissão, ele tinha eh feito história e seguiu na fazendo mestrado, enfim, as pós-graduações e e começou a trabalhar com educação ali. Então eu eu a minha turma foi uma das primeiras turmas que ele atuou e a relação com esse professor me marcou muito, né? Porque eh ele ele, enfim, a aula dele era muito boa, ele ele discutia muito bem a questão dos conteúdos ali, mas ele eh fazia muitos questionamentos, inclusive a própria coisa da militância. Então, embora ele fosse um professor de história, ele fazia com que a gente questionasse tudo, inclusive aquilo que a gente mesmo tava fazendo. Então, por que que você, né? Então, por exemplo, por que que você milita? Por que que você tá, mano? Por que passe livre? Você parou para pensar quem vai pagar por isso? Porque alguém paga por isso. Como é que como então? Claro que não era uma coisa de fazer com que a gente se desestimulasse. Não se trata disso, mas era de formar uma uma consciência um pouco mais crítica, né? Eh, e isso me encantou, essa perspectiva de, pô, eu posso questionar qualquer coisa, porque também tem isso. Eh, acho que você tem, a gente tem uma trajetória muito parecida, então acho que você vai entender muito o que eu vou dizer. Quando a gente vem de famílias com uma vida muito dura, o questionamento não é algo muito presente, porque a vida ela é muito muito concreta, pelo menos a minha era muito assim, então era tudo muito difícil, né? Quer dizer, eh, eu sou de uma família de de quatro irmãos e meu pai e minha mãe, meu pai trabalhava com obra, então o que ele produzia de renda basicamente era para para custear a gente, né? roupa, alimentação, transporte, essas coisas, estudo, né? Necessidades básicas, básic, necessidades básicas. E ele trabalhava muito tempo e ele não era uma pessoa muito afeita que você questionasse. Então, os questionamentos eram respondidos: "Pô, pai, por que isso? Porque eu tô falando" e simples assim. Então o o a questão da crítica não é algo que a gente envolvi muito em casa e bom, atuei na igreja também, não é um espaço, pelo menos naquele momento onde a crítica tava muito presente. Então na escola, no ensino médio, isso aparece para mim e isso foi muito interessante porque era um exercício, cara, de questionar talvez suas próprias certezas, que é uma coisa também que a gente às vezes perde, né? a gente vai construindo muitas certezas e esse esforço de fazer autocrítica. E eu acho que um pouco isso é que me levou a fazer história. Quando eu prestei o vestibular e eu comecei a a frequentar, a primeira pessoa que eu procurei foi ele, né? Fui até a casa dele, não me dava mais aula e falei: "Olha, a culpa é sua, né, por tudo isso que agora eu vou passar e tal". Ele falou: "É, se prepare porque é uma trajetória que é prazerosa, mas é difícil". Então, no meu caso, acho que esse professor me marcou muito e me estimulou a fazer história. E, pô, cara, eu sou muito feliz. Acho que se eu pudesse voltar no tempo, eu escolheria fazer a história de novo. Eu acho que eu também. Eh, então foi muito bom assim. Legal. Tá sendo, né? Foi, tá sendo. É, porque você tá aí, você é um historiador, né? Enfim, mas você sabe que a gente tem isso em comum também, né? Eu, no meu caso, é o meu professor Tirso, né? Tíso de Oliveira e Silva, né? Inclusive eu falo dele na minha na na no texto que eu produzi da minha apresentação, do mestrado, no doutorado, né? Ele um um detalhe interessante, né? Assim como esse seu professor, né, te influenciou, é que ele ele conversava com a gente através das avaliações, né? A gente colocava as questões e ele devolvia todas comentadas, né? E ele estimulava, ela tinha essa coisa, né? Por que que você tá dizendo isso e tudo mais, né? Eu falava, parece que eu gosto disso, né? Parece que é um movimento interessante porque ele estimulava a crítica. Isso é é muito bacana. Ô Luiz, você se formou em história em 96. Eu me formei em 97, um ano depois. Você é um ano mais velho. Então você é meu caloro, né? Você é meu bicho. Bicho. Concluiu o mestrado em educação, né? Com foco em currículo em 2008. Eh, nesse caminho você passou pela rede estadual, foi alfabetizador, coordenador, supervisor educacional até chegar a a um posto de gestão, né, na Prefeitura Municipal de Campinas por meio de de um concurso público em 2009. Essa coisa do concurso público é algo que a gente tem destacado aqui, né, no Vozes Negras, porque é um caminho importante para que a população acesse esses espaços do serviço do serviço público, né, e a gente tem, né, um um atenção especial aqui pra população negra que é menos que tem menos acessos, né? Então, essa questão do concurso público foi um diferencial na sua vida, cara? Foi assim, eu eu comecei a lecionar ainda na faculdade, né? Eh, eu comecei a trabalhar na na logo no início da graduação, eu já comecei a dar aula. Aquela época tinha uma falta de professor grande de história e geografia. Eu comecei dar aula de geografia eh logo em 93, né? Tanto que eu já tenho aí mais de 30 anos de carreira, né, na educação. Eh, e assim que teve que eu tive a oportunidade, eu prestei o concurso, né? E aí eu eu ingressei no estado como professor efetivo, atuei por 15 anos lá e acabei meonerando lá para poder assumir a o cargo aqui em Campinas também via concurso público. E eu acho que é importante a vida do concurso público, Daniel, porque o serviço público também precisa ser democratizado, né? o acesso, mas também a oferta. Eh, e a questão da representatividade, ela é uma coisa que é pouco falada, cara, mas ela é importante, né? Eh, então, eh, é importante que as pessoas elas entendam que, primeiro precisa haver serviço público. A gente constrói no Brasil uma relação muito ruim com isso, de que o serviço público é ruim, o servidor público, enfim, trabalha pouco. Isso é um mito, né? Com certeza. Eh, a gente trabalha muito eh de que o serviço público eh ele é um peso pro estado e na verdade não, né, cara? Políticas sociais e aí a educação tá dentro disso. Só é possível fazer para alcançar todo mundo, porque existe o setor público, né? Eh, onde a gente atua sem, na verdade, a preocupação com a produção do lucro. Eh, então é importante que o serviço público exista e é importante que a sociedade esteja representada nesse serviço. Então, se colocou uma questão bastante importante da população negra. Sim, ela tem dificuldade com acesso às políticas de maneira geral e entre elas o mercado de trabalho. Eh, então as políticas que eh atuam na na perspectiva de de redução dessas dificuldades, né? Eh, eu acho que a gente fala de reparação, mas muitas vezes não estamos nem alcançando isso ainda, mas na verdade reduzindo essa dificuldade como a questão da política de cotas eh pro acesso nos concursos públicos, no serviço público, na carreira pública, ela é fundamental, né? Porque eu preciso formar uma massa de servidores que que tenham que que tenham relação com a representatividade social, cara, porque senão a gente tem um fenômeno eh estranho, na minha opinião, que é o seguinte: a gente tem formuladores, executores de política que não tem relação íntima com com quem vai usufruir dessa política, né? Então, eu preciso ter professores negros, eu preciso ter professores eh eh das mais diferentes eh composições étnicas, porque a sociedade é composta sim, né? Eh, isso para falar só da questão racial, né? Acho que a gente para aqui porque senão estica demais o assunto. Mas a a sociedade ela brasileira, como qualquer em qualquer outro país, mas principalmente no Brasil, nós somos uma um caldeirão de diversidade. E esse caldeirão de diversidade, ele tem que tá representado na oferta do serviço público por agentes públicos que fazem, que formulam as políticas, que pensam as políticas, organizam, fazem a gestão, né? mas também que executam essa política, né? Então é importante e é importante, não, é fundamental isso, é um processo também de democratização, eh, essa coisa. Então, acho que você tem razão, que o concurso público eh ele não pode deixar de ser almejado para essa população, não, né? Às vezes a gente ouve a molecada mais nova hoje falando isso. Ah, não, vou prestar concurso público para ser não, eu vou tentar outra carreira. Claro, eu acho que você tem que tentar a carreira daquilo que te dá prazer e tal, pensar nisso, mas não pode descartar a perspectiva eh de se tornar um servidor público, cara, porque isso é fundamental. Não tem nada que seja mais gratificante do que você se colocar a serviço, né? O que que é um servidor público? Aquele que serve em última análise é a população, ao povo, né? Exatamente. Examente. Então é importante que essa pessoa que vá servir, ela seja representativa desse conjunto social, né? Eh, então nós temos que ter mulheres representadas ali, nós temos que ter eh as diferentes tonalidades, enfim, da nossa pele ali também. Perfeito. Ô Luiz, você traz alguns elementos importantes aqui, né? Vários, aliás, né? eu destaco a questão da representatividade e das políticas afirmativas, né? É sabido, amplamente conhecido, que eh nós não temos uma representatividade equitativa, né, no serviço público ou em qualquer outra esfera, né, do do do mercado de trabalho ou qualquer outra coisa assim, né? A gente tem uma população de 56% de pessoas negras no país e isso não se reflete na ponta. Eh, nós abordamos essa questão aqui com os nossos outros convidados, né, no no nos episódios anteriores. E um exemplo que eu sempre dou, né, você não desenvolve, você não faz e você trouxe isso. É impossível você fazer políticas públicas adequadas para mulheres, por exemplo, sem que mulheres participem desse processo. No caso da população negra, é a mesma coisa. Então, eu acho que isso que você traz é muito importante, né? Como é que você formula políticas públicas sem ter aquele segmento para o qual essas políticas são feitas, né? Então fica manco, vamos dizer assim, fica manco. Bom, Luiz, você chega no serviço público, você tem uma atuação, né? Faz concurso, né? Vai pra rede estadual, depois vem paraa Campinas. Mas o Vozes Negras tem um um dos objetivos do nosso programa é mostrar para aqueles que estão nos assistindo, né, os servidores e a população e a população eh também que não são de de servidores, eh quais são as estratégias que ajudam um profissional a avançar na carreira, né? você teve um uma constante, um avanço, né, com o passar do tempo que te leva a ocupar uma posição muito importante no município, né, nessa rede de educação que nós temos aqui. O que que você eh diria, né, que sobre as estratégias que te ajudaram a avançar na carreira? Então, cara, eh, é bastante complexa a sua pergunta, porque você é da educação, você sabe que é uma rede eh muito qualificada, né? Então, é um grupo com uma qualificação bastante alta do ponto de vista acadêmico, né? Eh, então quando eu cheguei aqui, primeiro que acho que é importante dizer que quando eu prestei o concurso, né? Eh, eh, eu prestei o concurso em 2008, era um número de vagas que eu tinha pouca pretensão de ingressar, né? Então, o resultado ele, eu passei muito bem na prova, mas o resultado ele foi meio que uma surpresa porque a gente já conhecia essa fama de Campinas e ser uma rede muito capacitada. E quando eu fui trabalhar, né, na supervisão, assim, eu encontrei colegas que com conhecimento muito profundo de educação, sabe? Eh, e com experiência bastante grande e tal. E então o corpo de profissionais, cara, ele é muito robusto. O que que eu acho que me ajudou eh nessa trajetória depois que eu ingressei aqui? Eu acho que um pouco essa questão da experiência mesmo de vida, né? E e essa coisa dessas marcas que a gente começou lá nas primeiras perguntas que você fez. Por quê? Porque assim, eh, eu também adquiri conhecimento teórico, né, acadêmico. Então, eh, eu fui atuar com currículo porque a minha preocupação era a questão do direito à aprendizagem. Eh, então esse isso sempre foi uma coisa que, como eu te disse lá nas primeiras questões, né, é uma coisa que me marcava muito, né? Por que parte da população tá alijada do processo? Por que que ela não tem o direito de adquirir, por exemplo, a própria língua, né? Porque quando você fala de uma pessoa analfabeta, é uma coisa surreal, né? Porque ela fala a língua e ela não não consegue ter direito a ter acesso à própria língua. Então, isso era uma indagação grande e eu fui pesquisar na área de currículo para entender um pouco isso. Outras pessoas também pesquisaram. Eh, o que que eu acho que me ajudou? Eh, porque talvez eu entendia um pouco mais isso de dentro, né? Porque a minha família é isso ainda, né? Então, eu ainda tenho pessoas analfabetas na família, eu ainda tenho pessoas com muito pouca escolarização na família, hoje muito menos do que quando eu era eh jovem, né? Claro. Eh, as gerações elas vão avançando. Hoje eu tenho, meus sobrinhos já são todos eh todos têm curso superior. A família ela mudou um pouco a roupagem, mas digamos que eu sou marcado por isso. Então, eu não não eu tentava não falar só do ponto de vista teórico, mas tentar entender eh entender um pouco os fenômenos a partir de uma relação também prática, né? Eh, o o o enfim, tem tem uma uma expressão de um filósofo alemão que diz que o estado é que for a consciência, né? Quem conhecer essa expressão vai saber de quem que eu tô falando. Não vou citar aqui, mas as pessoas busquem aí que vocês vão entender. E é acho que nunca foi tão tão clara aí essa expressão, né? Então, eh, difícil você teorizar uma relação que você não não vive, né? Então, eh, eu acho que eu tinha essa proximidade me fazia talvez ter facilidade para entender essas relações, né? Eh, e eu tenho uma característica que eu acho que também me ajudou muito, que é a questão de tentar sempre fazer o diálogo, né? Então, as diferenças para mim, elas precisam ser resolvidas na conversa, né? não numa conversa infinita, eh não sem objetivo, né, mas numa conversa, num diálogo. É preciso tentar entender um pouco, por exemplo, eh, como que o outro que pensa diferente de você, por que que ele pensa assim, né? O que que ele acha daquele processo? o que que incomoda. Eh, e não é muitas vezes no sentido de acomodar todas as posições, porque eu acho que isso não existe, não é possível fazer, mas é no sentido de gerar crescimento para todo mundo, porque quando você estabelece uma relação de diálogo, ainda que você não mantenha as posições, quer dizer, isso acaba enriquecendo todo mundo. Esse embate ele é necessário e eu acho que o Brasil ele tá carente demais disso há algum tempo, né? Eh, a gente tem dialogado cada vez menos, né? Eh, o que é ruim. Então, normalmente a gente estabelece posições e as posições elas ficam em confronto já. Eh, não que isso não seja legítimo, mas você tem dificuldade dialogar porque em geral o outro não tá te ouvindo. Eh, eu acho que isso também me ajudou muito e isso também foi uma característica, cara, que eu desenvolvi na educação de adultos quando eu comecei com alfabetizador. Por quê? Eu recebi alunos que os as metodologias tradicionais, né, claro, eu passei por um processo de formação para ser alfabetizador do ponto de vista técnico, mas quando você vai pra vivência prática e você recebe um senhor que que veio lá do interior do Ceará, que plantava coco, vendia coco, eh, e que chega em São Paulo e vai pra tua sala, você não consegue muitas vezes entender porque que mesmo aplicando toda a metodologia disponível, ele não consegue aprender. Então você precisa ir um pouco além daquilo. Isso tem que ser feito a partir um pouco do diálogo com ele para entender como é que ele vê esse processo, né, para que você organize o processo adequado para ele. Um pouco que o Paulo Freire fala, né, da educação dialógica. Eh, então eu acho que essa questão do diálogo para mim foi muito importante, porque quando eu fui paraa legislação em normas foi um pouco essa marca, né, de estabelecer um diálogo com a rede para produzir as normativas. Eh, eu acho que isso me deixou um pouco como referência eh na área pedagógica, embora eu trabalhava com a parte técnica de legislação. Quando então abriu a vaga no departamento pedagógico, eu fui, eu acho que eu fui lembrado por conta desse aspecto e e acho que quando o professor Tadeu, ele ã precisou de um secretário adjunto, eu imagino que ele deve ter pensado em inúmeras pessoas e eu acho que eu também acabei sendo alguma opção em algum momento também por isso. Agora, claro que isso é uma pretensão minha, porque é o que eu acho, [risadas] teria que perguntar pras pessoas em si, né? Tá certo. É a minha impressão da própria trajetória aí. Tá certo. Ô Luiz, interessante que você faz um link, né? Você link passados 30 anos, você linca a sua experiência como alfabetizador de adultos com a sua atuação hoje como como gestor, né? Eh, eh, eu penso que essa, a sensibilidade, né, que é exigida de um professor num cenário desse que você bem descreveu, né, com a diversidade, todas as dificuldades que você encontra, né, nesse universo, principalmente da educação de de jovens e adultos, eu acho que isso cria uma sensibilidade e um olhar que reverbera na sua atuação como como gestor, porque eu eu fico imaginando, né, que eh eh na posição, né, de de de gestor que você ocupa como um formulador de políticas públicas, como uma pessoa que tem também muita influência na na tomada de decisões, eu imagino que isso não seja fácil, né, que isso seja desafiador. Então, esse olhar sensível, esse olhar, né, conquistado lá atrás, e eh você diria que reverbera, então, com força nesse momento que você vive da sua carreira. Eu acho que reverbera e eu acho que precisa reverberar para qualquer educador em qualquer momento da vida, né, Daniel? Porque é uma discussão que a gente sempre faz, que é a seguinte, a gente na educação, quem tá na carreira do magistério é sempre professor, não importa a função que você ocupe, né, cara? Então, se você é diretor de escola, você antes disso é professor, né? Você é secretário de educação, você é professor. Se você é diretor lá financeiro, você também tá nesse papel. E por que que é importante? Por que que precisa reverberar, né, cara? Porque nós só existimos para garantir aprendizagem. Muitas vezes a gente discute muitas outras coisas e a gente tem que discutir mesmo, mas nunca pode perder essa referência, né? Então, quando a gente discute plano de carreira dos professores, a gente não discute isso com fim em si mesmo. Por que que a gente vai lá discutir a carreira do professor, a questão salarial, a organização desse profissional? Porque a gente entende que um professor numa carreira mais organizada propicia que a gente garanta uma melhor aprendizagem para mais alunos. quando a gente discute eh a organização das escolas, enfim, eh que a gente precisa reestruturar essas unidades, deixar essas unidades em condição de atendimento, é para garantir um melhor aproveitamento e, portanto, uma melhor aprendizagem. É importante entender isso, Daniel, pelo seguinte. Eh, a educação, cara, ela talvez seja a política pública que chega mais longe. Então, em todo lugar você vai ver uma escola. É importante a gente entender que se a gente não tiver sempre eh na relação na ponta final eh o debate eh o princípio da aprendizagem como debate, a gente não consegue estabelecer outra outra política. Então, mesmo a questão do combate ao racismo, né? Eu eh não consigo imaginar que eh eu consiga combater o racismo se eu não garantir que as crianças pretas aprendam a l escrever. Exatamente. Por mais que eu faça qualquer outra coisa, né? Não adianta eu fazer grandes eventos, eles são importantes, né? Não adianta eu fazer grandes campanhas, mas eu preciso no final do dia garantir que essas crianças aprendam a ler escrever para que eu corte um pouco essa relação da herança da do não acesso à educação como um bem, né? Então, eh, eu acho que sim, reverbera e deve reverberar para todo mundo. Perfeito. Perfeito. Ô, Luís, agora, né, continuamos falando da sua trajetória, que isso nos interessa bastante. Eh, e pro público que tá em casa também, que tá ouvindo a gente, eh, fala para nós, explica para nós o que é que faz um secretário adjunto, um secretário adjunto de educação, tá? o secretário adjunta a rigor, eh, então assim, do ponto de vista formal, ele digamos que ele é um suplente do secretário, né? É o vice-presidente, é mais ou menos isso, o vice-prefeito, né? Claro que eh não tô compando, mas seria eh o um substituto natural do secretário para momentos que o secretário se ausenta eh em qualquer para qualquer situação, né? Então, se se a gente tem um conjunto de eventos, precisa representar a secretaria, não tem como o secretário tá em dois lugares ao mesmo tempo. Então, muitas vezes usa o secretário adjunto, né? Luiz, fazendo um parênteses nisso, lembrando que o os secretários, né, o secretariado é o grupo, né, de primeiro escalão, eh, que trabalha junto do prefeito, né, e que coordena as diferentes pastas, as diferentes políticas públicas do município. Sim. Eh, então o, então a rigor o secretário adjunto, ele ele ele cumpre a função de substituir o secretário. Essa seria um substituto natural, né? Uhum. Mas ele também, o adjunto é no sentido de tá junto ali, então ele seria eh alguém que divide um pouco as tarefas com com o secretário do dia a dia da secretaria da rede municipal de ensino e tal. Eh, e aí o que dividir, né, como que a gente divide, isso vai muito da natureza da pasta e, claro que da natureza do próprio secretário. Então, na Secretaria de Educação, eu lido muito com a parte e eu assessoro muito o gabinete da eu fazia isso com o professor Tadeu e hoje tenho construído essa relação com a professora Patrícia, que é a nova nossa nova secretária de educação, né, a mais recente, eh, de assessorar muito nas questões associadas à rede mesmo, né, a lógica da rede. rede, organização da rede. Então, por exemplo, a preparação da rede pro ano seguinte é um conjunto muito grande de de funcionários e professores, né? Então, eu atuo muito nessa parte eh, vamos dizer, gestão de pessoas barra essa composição desse universo pedagógico que a gente chama, né? né, a organização dos profissionais, eh, enfim, eh, é a maneira que a gente dividiu lá, mas poderia ser de outra forma, né? Então, é um pouco isso, seria um subsecretário, então não é um secretário inteiro, é alguém que tá ali um pouco somando, né? É um pouco isso. Certo. Tá certo? Ô Luiz, eh eh nós sabemos que na realidade, né, da população negra no Brasil, dos profissionais negros, né, a caminhada tem as suas nuances diferenciadas, né? A nossa caminhada tem mais complexidades em função do racismo, do racismo estrutural, do racismo institucional e tudo mais. Nessa sua trajetória bem-sucedida, você poderia mencionar um ou dois desafios explícitos ou sutis que você consegue enxergar que tem a ver com a sua a sua questão racial, com a sua origem, com o fato de você ser um homem negro? Daniel, assim, eu tive alguns episódios, eu não tive tantos assim, porque também é um fenômeno estudado, né, a questão da eh da prática dos doos processos de racismo, eles não não ocorrem da mesma maneira para pessoas para as pessoas negras, né? Porque dentro desse universo que a gente chama de negritude, você tem aí uma diversidade grande. Então eu sou uma pessoa parda de sobrenome, vamos dizer, europeu, muitas vezes gera um certo um certo espanto, porque quando as pessoas eh me conhecem pelo nome, mas nunca me viram e chego eu para conversar, que é um homem caucasiano. É, não é exatamente assim, espera uma outra coisa, não exatamente isso aqui, né? E então, eh, eu não tive muitos episódios assim, cara, de, de forma direta comigo. Claro que eu tive situações assim de racismo, mas eu nem não foram um número tão grande e tal. Eh, o que eu acho que que marca mais em relação a mim é essa decepção mesmo com o que espera da figura, sabe? Eu tento compensar isso e é algo que a gente vai desenvolvendo estratégias, né, com a sobrevivência. É interessante que você vai desenvolvendo estratégias sem saber que é isso que tá acontecendo. É como eu disse para você, né, algumas coisas que aconteceu na minha infância, eu entendo que é racismo hoje. Então, por exemplo, eu a gente tinha muito pouca convivência com a família do meu pai. Então, hoje eu entendo os motivos. Aquela época entendia sim. e algumas relações que existem hoje também eh eh você acaba eh acaba te marcando. E então o como que eu acho que se dá, né? As pessoas elas estabelecem perfis, né? Então espera-se de um secretário de educação ou um diretor de uma secretaria de educação, alguém que ocupa algum cargo, é um determinado perfil estético, né? E eu acho que eu é uma questão de estereótipo, né? de estereótipo. Exato. Eu acho que eu tô um pouco fora desse quadro, vamos dizer. Eh, então eu preciso começar a falar para poder mostrar que eu consigo enfrentar os desafios. É uma coisa tão interessante, né? Sim. Porque para algumas pessoas isso isso não se dá assim. É natural. É natural, né? É natural que alguém com uma CUT branca, com alguém que tenha, enfim, que o estereótipo te lembre determinada parcela da sociedade, é natural que ela este seja naquele lugar, né? Uhum. Eh, o que não acontece com pessoas eh que não tão nesse mesmo estereótipo, você precisa acabar provando de outra forma. Então eu tive vários episódios, hã, onde eu cheguei com outras pessoas no lugar, as pessoas me conheciam e as pessoas cumprimentavam, mesmo quando eu era diretor de departamento, cumprimentava o outro achando que tava falando comigo. E aí a pessoa não, não é ele que é o Luís, né? É você? Pois é. E tal. Então isso eu várias vezes ocorreu. Eh, é bastante bastante interessante. Campinas é uma uma cidade muito marcada também por esse aspecto, né, cara? É engraçado como que aqui a coisa da diferença ela fica bem bem marcada, tal. Então, mesmo em lugares que você não imagina, por exemplo, no meio acadêmico, eh, é uma luta bastante constante. Você falou da questão da trajetória profissional das pessoas negras, eu costumo dizer, né, eh, que a gente tem que trabalhar dobrado, eh, para conquistar, para chegar no mesmo lugar, né? a gente tem que mostrar muito mais vezes que a gente é bom, que a gente é competente. Eh, então o esforço no nosso caso, ele é sempre dobrado, né? sempre dobrado, às vezes triplicado para que você seja anotado, para que você consiga ter a chance de poder falar, para que você consiga ter a chance de poder mostrar seu potencial, né, de você poder eh construir relação de confiança. Então, eh não é uma tarefa muito simples, mas enfim, esse também é um processo de resistência do próprio povo povo negro, né, tá na nossa história, né? Sim. É, você traz aí um elemento, né, que é constitutivo aí da nossa população, que é o fenômeno do colorismo, né, e as dificuldades também se dão a partir disso, né, quando você tá falando de um profissional negro, uma pessoa negra retinta, né, uma mulher, né, ainda isso traz eh eh esse marcador ainda eh eh traz ainda mais questões, né, você tem muito mais dificuldade. É. E aí, Luís, eu te pergunto como, né, um profissional experimentado, uma pessoa, né, que eh tá aí já a muito tempo, né, desenvolvendo uma carreira bem-sucedida, eh como é que se rompe, né, essas pessoas que têm marcadores, né, mais eh, eh, eh, fortes, como é que se rompe essas barreiras institucionais e se abre caminho para que essas pessoas consigam acessar postos de decisão, consigam progredir nas suas carreiras? Olha, eu acho que acho que tem tem várias eh várias ações que precisam estar em andamento, né? Eu acho que uma delas é a própria melhoria da eh do acesso à educação, dos indicadores, porque eu acho que isso possibilita que eh, vamos dizer que essa população negra ela consiga alcançar uma educação formal mais elevada. Eu acho que esse é um aspecto muito importante que a gente não pode perder de vista. Volto a dizer, você pode fazer o que for, mas não consigo acreditar que se você não consegue garantir alfabetização mínima, escolarização básica pra população negra, quer dizer, então esse é um elemento fundamental. Qualquer pessoa que discuta, combate ao racismo, tem que ter no seu princípio a questão de garantia da aprendizagem. Uma coisa tem que tá associada à outra, na minha opinião, né? Claro, eu não sou estudioso disso. Eu não não nem pretendo falar disso com com alguém que conhece. que a minha área é educação, mas é a relação ao que eu penso. Então acho que ações voltadas para melhoria das condições de acesso, né, cara, e permanência na educação e melhoria da daquilo que a gente oferta enquanto aprendizagem, eu acho que é é um são ações importantes. Eu acho que a gente tem um conjunto de ações afirmativas, né? Acho que essa população começa a chegar cada vez em número maior na universidade, nos bancos das universidades. Eh, claro que isso gera um incômodo e uma modificação dessas estruturas, mas é importante que seja assim. Eh, e eu acho que a política de cotas também no serviço público é fundamental, porque você também começa a aumentar essa representatividade no próprio serviço público. Precisa lembrar que eh eu a minha trajetória, como de muitas outras pessoas que eu conheço na Secretaria de Educação e eu vou falar por ela, se dá pelo aspecto muito que que técnico, não e não necessariamente político. Então eu tive que um meio que uma trajetória técnica, mas para que isso pudesse acontecer eu tive que ingressar no serviço público. Então, eu acho que as políticas de cota eh elas são elas, eh, de de ações afirmativas, as cotas no serviço público, elas são fundamentais. E eu acho que tem um movimento que a gente tá iniciando agora, que é a própria lógica da educação antirracista, que também começa a construir espaços de atuação eh e discutir concretamente eh essa questão de como é que o racismo ele se ele ocorre no ambiente do trabalho. Então eh há dois meses a gente discutiu isso na Secretaria de Educação, vários espaços, né? Foi uma ação muito importante onde os setores pararam para discutir isso. Como é que eles acham que o racismo ocorre? Eh, eu acho que essa é uma ação que tem que se tornar perene também, eh, para que a gente comece a criar ambiente para combate a essa relação perniciosa, né, de de eh dificuldade, né, que as pessoas eh acabam tendo de eh acaba demonstrando seu potencial, né? Então eu acho que esse conjunto grande de ações, né, precisa ter uma uma política assim de diversidade também no nos altos postos, né? Eh, então é importante que a gente tenha também nos altos postos, né, mulheres, eh, negros e, enfim, essa representatividade que eu falei para você, ela precisa tá também presente aí. Mas eu acho que não é um movimento, eu não acredito, eu não sou daqueles que acho que isso você faz na caneta, né? Então, simplesmente compor os cargos eh por esse aspecto, na minha opinião, ele ele é um processo que não é não é muito sustentável. Eh, eu acredito muito mais nesse movimento da gente ir engordando a base, eh, e fortalecendo a base, fazendo a discussão interna, eh, para que a gente forme quadros no próprio serviço público, né? E é isso um pouco que tá acontecendo. Então, acho que a gente tem hoje eh pessoas negras que estão ocupando lugares e isso acaba virando eh símbolo para esse movimento, né? Eh, e acho que isso é bastante importante. Muito bom, Luiz. Eh, eu eu destacaria, né, dessa dessa sua fala quando você traz a questão das políticas afirmativas, né, é muito importante que a gente tenha conhecimento que as políticas afirmativas além das cotas, elas também t as tem outras vertentes, outros aspectos, né? Eh, por exemplo, o Campinas eh tem o programa de desenvolvimento de lideranças negras na gestão, que é um programa lançado, né, um dec em decreto em 2023 e que agora tá formatando uma série de ações que tem exatamente esse objetivo, né, identificar, capacitar e dar condições para que servidores negros ocupem postos de decisão, né, para que eh dessa forma efetivamente a população negra esteja lá representada, né, que é algo que a gente ainda precisa avançar, né? A gente sabe, por exemplo, que o governo federal tem uma iniciativa nesse sentido também desde 2023, né? E a gente tem essa essa e eh e o desejo de que isso também se aconteça aqui em Campinas. Você traz o elemento de fortalecimento da base, né? Então, realmente, né, outros convidados nossos também já trouxeram esse elemento, né? você precisa muito fortalecer a base e a educação básica é a base, né? Vamos, vamos dizer assim. Eh, então você já traz esses elementos de políticas públicas, né? Eu tenho conhecimento das ações que a Secretaria de Educação vem desenvolvendo. Eh, mas eu eu gostaria que você falasse pra gente rapidamente, que você trouxesse um pouquinho, né, dessas políticas públicas de de educação antiracista, né, que a secretaria, a sua pasta vem desenvolvendo nos últimos anos. Então, a Secretaria de Educação, né, eh, ela é, embora a educação ela, ela seja composta por um grande número de mulheres, a Secretaria de Educação, uma coisa que a gente discute, a secretaria como um todo, a rede municipal de ensino de Campinas, ela é bastante eh elitista, né? Então, a gente tem dois movimentos importantes, Daniel. um que é o o projeto Bem Mequero que discute essa questão eh da igualdade de gênero, né, entre, né, homens e mulheres, combate ao machismo, a questão da violência contra a mulher. Essa é uma questão importante na secretaria. E o outro é um movimento que a gente iniciou de educação antirracista, culminou com a produção de um protocolo, né, eh, para para encaminhamento de casos de racismo na educação. Eh, e aí na educação de maneira geral, né, não estamos falando só da escola, mas também nas estruturas da secretaria, em qualquer estrutura. Eh, e junto com isso tem uma série de iniciativas que são desenvolvidas para discutir o que é um pouco essa coisa de uma educação antirracista. Então, uma das ações que a gente eh desenvolveu o no ano passado, a gente desenvolveu um ciclo de palestras com vários nomes para discutir isso, com várias temáticas, foi muito interessante, uma participação bastante intensa. Eh, nós desenvolvemos atividades eh também bastante intensas nas escolas no ano de 2024 e em 2025. E e agora nós estamos numa fase um pouco mais concreta de de formação do que do que o pessoal chama de letramento racial, que é um pouco essa discussão do dos dos fenômenos do do fenômeno do racismo no próprio ambiente de trabalho, né? Então é um pouco nessa fase que a gente que a gente tá. Além disso, a gente eh reorganizou o programa MIP em dois duas vertentes, né? Hoje nós vamos ter o o MIPID como um observatório da educação, eh, então que vai tá levantando dados eh sobre a questão eh do componente racial na educação, na questão do rendimento dos alunos negros, eh número de eh de denúncias de racismo no no processo educacional. Eh, e também criamos ali como, né, divisão desse programa um programa que chamado Proerer, que vai lidar especificamente com a com a questão da formação para educação étnico-racial. Então, é um pouco esse conjunto de ações que a gente tá desenvolvendo na secretaria. Muito bom, Luiz. Eh, Luiz, estamos caminhando aqui pro pro final da nossa prosa, né? E nesse final eu queria que você desse um conselho ou uma recomendação pros nossos servidores que nos assistem, jovens ou não jovens, servidores e servidoras, que almejam ocupar postos de decisão, postos importantes, né? Eh, eh, o que você daria como conselho de maneira muito objetiva para que isso aconteça? E em seguida, né, você pode fazer as tuas as suas considerações finais, tá? Então, se eu pudesse dar um conselho para um servidor que que almeja ocupar um cargo, né, que ao meja ocupar um posto elevado, é seja um bom servidor público, né? Eu acho que essa é a base, Daniel. Eu acho que tem que ser um servidor público de excelência, porque também não acho que seja possível eu ser qualquer servidor público. Para aquela pessoa que acha que é possível fazer as coisas de qualquer forma, o serviço público não deve ser o caminho. Então, seja um bom servidor público. E ser um bom servidor público é, antes de mais nada, eh, atuar profissionalmente com princípios, né? Então, muitas vezes a gente lida no Brasil com coisas eh que deveriam ser princípio para todos. Então, eh a questão da dignidade, do tratamento digno das pessoas no serviço público é algo que é um princípio, né? Não deveria gerar espanto, eu não deveria me espantar quando eu encontro com um servidor público que é educado, que trata as pessoas bem. servia isso. Então, tem que ser um princípio. A própria questão da honestidade no trato da coisa pública, do dinheiro público, é algo que não deveria gerar espanto em ninguém, porque nós estamos falando da coisa pública. Então, eu acho que seja um bom servidor público, eh, faça o melhor, porque é isso que o serviço público eh ele ele espera. E aí eu acho que você acaba reunindo as condições para ocupar cargos de gestão, né? Eh, acho que então o conselho que eu daria que eu daria é esse, porque isso já vai te diferenciar da grande maioria dos servidores públicos, né? Perfito. Eh, e cara, assim, minhas considerações finais é o seguinte, foi muito bom tá aqui. Eu espero que tenha ficado claro um pouco as questões que você me perguntou. Acho que às vezes com certeza sou um pouco prolixo, mas espero que eu tenha sido claro para todo mundo. E eu espero que um pouco a história da minha vida contribua para que a gente que as pessoas pensem um pouco eh nessa relação, né, que que a própria história de vida eh tem na na no momento em que as pessoas ocupam. Então a gente não, não, né, eu não sou, eu não nasci secretário adjunto, né, eu não brotei aqui, tem a minha trajetória que me traz até aqui, como tem a sua, enfim. Eh, isso isso a gente nunca pode, nunca pode exprezar. Aí de novo, queria parabenizar aí a Câmara e a Secretaria de Gestão de Pessoas e que você leve meu abraço para pra secretária Joseline. Diga para ela, inclusive que o bairro do servidor na semana passada tava sensacional, não tive essa chance de dizer. Isso é consenso. É, e que Vozes Negras, eu acho que vai contribuir muito, cara. Parabéns aí pela pela iniciativa. Perfeito, Luiz. Foi uma conversa potente, inspiradora. Muito obrigado. Eh, a tua trajetória mostra que ocupar espaços de poder é também uma forma de reescrever a história com competência, ética, compromisso com a coletividade. Muito obrigado pela participação, pela sua generosidade em compartilhar com a gente a sua experiência. E a você, nosso ouvinte, nossa ouvinte, agradecemos por nos acompanhar em mais um episódio do Vozes Negras de Campinas, uma produção da Prefeitura de Campinas por meio da Secretaria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas, do Programa de de Desenvolvimento de Lideranças Negras na gestão em parceria com a Câmara Municipal A casa do Povo. Continue acompanhando a nossa série e compartilhe esse episódio com colegas e amigos, porque quando uma voz negra e coa, ela abre caminhos para muitas outras. Até breve. [música] [música] [música] [música] [música]