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[música] [música] [música] Olá, sejam muito bem-vindas, muito bem-vindos. Eu sou o Daniel Carlos Estevão, apresentador do podcast Vozes Negras de Campinas, uma iniciativa que integra o programa de desenvolvimento de lideranças negras na gestão de Campinas. Sou um homem de pele preta, uso o cabelo raspado, tenho 1,76 m de altura e tenho 52 anos. E é uma honra tá aqui conduzindo mais um capítulo, mais um episódio dessa série que dá voz, ilumina histórias e reconhece a potência de servidores e servidoras negras que transformam o serviço público. O Vozes Negra de Campinas nasce de uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Campinas e a Câmara Municipal, a Casa do Povo, com o propósito de registrar, celebrar e multiplicar narrativas que durante muito tempo foram silenciadas ou invisibilizadas nos espaços institucionais. Esse podcast é mais que um produto de comunicação. Ele é uma ferramenta de justiça simbólica, de memória, de política pública construída para fortalecer a presença negra na gestão municipal, consolidar referências e inspirar novas trajetórias. Aqui, histórias individuais se tornam coletivas, experiências pessoais se transformam em patrimônio público. Cada episódio reafirma o compromisso da cidade com uma gestão mais plural, equitativa e alinhada a uma cultura antiracista, capaz de reconhecer talentos, valorizar saberes e garantir que todas as vozes têm o lugar. E hoje temos o prazer de receber aqui duas potências, duas mulheres inspiradoras. Temos aqui Elisandra Mara dos Santos Camilo, professora, educadora antirracista, pesquisadora, militante do movimento negro e membro do CONEPA. Seja bem-vinda, Elisandra. Obrigada. E temos também aqui a nossa amiga Talita Alves Matias, jornalista relações públicas e especialista em comunicação social da Prefeitura de Campinas. Seja muito bem, pessoal. Obrigada pelo convite. Tô muito feliz pela poder participar do programa. Maravilha. Bom, antes de mais nada, vou pedir que as nossas convidadas façam a sua audiodescrição. Podemos conversar com vocês? Podemos sim. Olá a todas e todas. Eh, com muita alegria que eu venho participar desse podcast, uma iniciativa extremamente importante paraa nossa população negra, toda a nossa comunidade de pessoas negras e não negras. Eu sou uma mulher negra, tenho o cabelo crespo, um pouco volumoso, eh uso óculos, eh, de armação vermelha e branca. Eh, e uso um vestido afro, eh, estampado nas cores azul, branco, amarelo. Muito bem, obrigada, Lisandra. Talita, sua vez. Oi, pessoal. Boa tarde a todos. Eu não sei que hora que vocês vão assistir esse programa, mas bom dia, boa tarde. Eu sou a Talita, eu tenho 37 anos, sou uma mulher parda, tenho cabelo curto, estou usando hoje um óculos cinza, tenho 1,63 m, estou vestindo uma blusa azul de manga comprida. Muito bem, obrigado, Talita. Bom, bora começar a nossa prosa, como diria lá na sua terra, né, nas Minas Gerais, pertinho da minha também, que tá lá na beiradinha, São José do Rio Pardo. Vamos começar essa prosa. E eu sempre faço uma descrição um pouco mais alongada dos convidados, mas hoje eu falei, não, eu quero que as nossas convidadas se descrevam, que elas digam quem são. Então, vamos começar por você, Talita. Talita, quem é você hoje? Quem é talita? Olha, essa é uma pergunta difícil, né, quando a gente se desinscrever, mas eu sou uma mulher, né, LGBT. Eu sou uma mulher que fez jornalismo, fiz relações públicas, trabalho na Prefeitura de Campinas desde 2017, já passei por várias áreas dentro da comunicação pública. Hoje eu trabalho principalmente com a Defesa Civil e com a Secretaria de Infraestrutura, mas também já atuei com a assessoria da saúde, da assistência social e eu percebo assim que falta muita representatividade, né, nossa, da população negra, principalmente nesse espaço do jornalismo. Então eu fico muito feliz de poder est ocupando esse espaço. Muito bom. E eu soube também nas nossas conversas preliminares, né, que você é uma menina vinda de Guaranésia, que você é mãe. Fala um pouquinho pra gente. Sou mãe de pet. [risadas] Eh, eu sou de Guaranésia, que é uma cidade pequenininha, bem no sul de Minas, mais ou menos umas 2 horas daqui de Campinas. E eu vim para cá para fiz, fui bolsista do Pro e vim para estudar na na PUC e fui ficando em Campires. Me apaixonei pela cidade e fui ficando. E aí tenho duas gatinhas que são os amores da minha vida. Eu sou e sou casada com a Anne, que é uma mulher maravilhosa, mulher da minha vida. E é isso, gente. A gente pode ir complementando. Com certeza. Agora é só o início dessa prosa. E você, Elisandra, quem é você? conta para nós tantas coisas, né? [risadas] Eh, eu sou uma mulher preta de 50 anos, mãe de três e our 22 anos. Minha vitalidade da luz, como é o significado do nome dele. Moara, um nome aí de origem indígena, que é significa liberdade, que veio para transformar minha vida. me deu um susto porque veio 13 anos depois eu, mãe do Iori, eu não imaginava mais eh me imaginava mais mãe. Foi um grande susto. E mas ela está aí há 9 anos na minha vida. Eh, eu eu costumo dizer para ela que é a menina melhor do que a menina dos meus sonhos, porque eu sempre desejei ser mãe de uma menina, né? Quando o Iori veio, eu acolhi, amei demais aquela coisa toda. Mas depois eu pensei: "Ah, não é menina, veio um menino, tá ótimo, serei mãe de um menino, né?" 13 anos depois, eu novamente me vejo grávida e de uma menina. Foi difícil aquele processo de aceitação, mas com o passar do tempo, algumas terapias, né, que a gente sempre busca, eh, eu aceitei muito a Moara. E 3 anos depois veio o Cásio Ao, [risadas] que hoje é um menino que tá com 5 anos, dia 16 completa 6. Eu costumo dizer que é é um menino que veio, ele veio pouco antes, né? Ele nasceu três meses antes da pandemia. Então é um menino que veio assim para ressignificar muitas coisas da minha vida, né? E o desafio de ser mãe na pandemia foi assim muito grande, mas também a partir da pandemia eu consegui fazer muitas coisas positivas também e uma delas foi conseguir escrever pela primeira vez o meu projeto do mestrado, né? Sim. Coisa boa por conta do tempo que a gente tinha que estar em casa, a gente vai também eh procurando fazer coisas saudáveis pra mente, né? de maneira produtiva. Exatamente. Então, eu sou essa mulher, mãe solo de três. Eh, vivemos nós quatro, eh, no nosso apartamento. O Iori hoje namora, então fica mais com a namorada do que com a mãe. E eu tenho essas duas crianças que eu conto muito com duas matriarcas que eu tenho na família, né? a minha mãe, eh, Benedita Camilo, que acabou de fazer 78 anos e eu tenho a minha tia Julieta, que tem 80 anos, e uma disposição para estar com essas crianças, me ajudar. É uma rede de apoio assim afrocentrada, muito potente que eu tenho. Então, eu sou o que sou muito por conta dessas duas que estão na minha vida também. Muito bom. Muito bom. E falando em família, falando em ancestralidade, eh as histórias de vocês, né, que eu conheci antes da gente, antes de nós estarmos aqui nesse momento gravando, eh, as histórias familiares de vocês são profundas e inspiradoras, né? Eh, você, por exemplo, Elisandra, você traz aí na sua história, você conta na sua história eh a influência que o quintal da sua avó trouxe na sua vida. E você, eh, eh, Talita, traz, né, na sua história, você a admiração que você tem pela trajetória dos seus pais, principalmente sendo uma filha única e tudo mais, enfim, né, morando numa cidade tão pequena, né, do interior de Minas, tal. Então, eh, como é que essas raízes de vocês moldaram as pessoas que vocês se tornaram hoje? Começa por você, Talita. Olha, o meu pai assim é meu grande herói. Eu sei que é uma coisa às vezes a gente fala que é um pouco clichê, né? Mas assim, para mim meu pai é incrível. E e eu lembro muito quando eu era pequena, eu sempre sempre fui uma criança muito curiosa, aquela criança que gosta de fuçar nas coisas. E eu lembro, tem uma memória muito forte do meu pai num dia de folga que era raro, porque meu pai era cortador de cana. Então assim, os dias que ele tinha livre eram muito poucos. E eu lembro de um dia que ele tava em casa que ele me levou na biblioteca e deixou escolher um livro. Aí eu escolhi um livro de uma tart, acho que era uma tartaruguinha assim, eu não lembro bem a história, mas eu lembro daquele momento. E eu comecei a ler muito e ele sempre me incentivou muito a estudar, sabe? ele mesmo não tendo tido oportunidade de estudar, ele só estudou até o o quarto ano do primário, mas sempre me dando muito apoio. Então assim, eu vendo aquele exemplo, aquela disposição dele me ajudar e me incentivar e a minha mãe também, né? Eh, sempre me apoiando nos estudos, acho que isso foi primordial para que eu conseguisse deslanchar, sabe? Ele plantou, plantou a sementinha. É. E ela germinou. E ela germinou, com certeza. E eu tenho uma família assim muito unida, muito querida, embora eu seja filha, filha única, eu tenho, meu pai tem muitos irmãos, tenho muitos primos, eu era muito próxima da minha avó. E eu acho que assim, você ter o amor, o cuidado, eh, como ela falou assim, né, com tanto carinho dos filhos dela, você ter esse carinho com seus filhos, com, né, com seus netos, isso vai ajudando a formar a gente, né, a gente a ter um caráter bom, a ter uma disposição para viver, para enfrentar os desafios que não são poucos, né? Com certeza. Com certeza. E você, Elisandra, como é que isso te moldou para nós? É, eu tenho muita lembrança, né, da minha infância. Eu muito pequena. E eu nasci em Campo Limpo Paulista em 1975, 7 de outubro de 75 em Campo Limpo Paulista, porque meus pais trabalhavam lá. Periferia de São Paulo ou lá é o outro município? Esse é o outro município, né? É outro município. É, é vizinho de Jundiaí. Ah, isso, exato. Eh, então, minha mãe e meu pai trabalhavam lá. A minha mãe conta, né, que quando termina a licença gestante dela, eu tinha 4 meses. Ela já tinha a minha irmã Maria Glória e a Márcia. E então o que que ela faz? precisa mandar bebê para Campinas, porque as outras duas tinha lá estudavam, né, frequentava a escola, eh, escolinha, a Márcia, a Glória já era maior e precisava de uma bebê e ela não queria deixar com uma babá. Então, o que que ela faz? traz eh me traz para Campinas para minha avó, a Maria Domingues Alves, uma mulher que nasceu em 27 de julho de 1902. Então, a gente já sabe aí o histórico da minha avó, né? Ela ela sempre dizia que ela era filha de uma mulher preta com um português. Então, vai saber como a minha avó foi gerada, né? Sendo que ela nasceu em 1902. Bom, a minha avó, ela teve 11 eh 10 filhos, a minha mãe é a caçula e a minha avó teve a minha mãe com 46 anos de idade, né? Então a minha mãe me manda com 4 meses paraa casa da minha avó e e diz sempre me disse que a cada 15 dias ela vinha para Campinas passar o o final de semana comigo. E uma das coisas que é muito marcante na minha vida é que a minha, eu sempre ouvi a minha mãe dizer que quando eu era criança, né, eh, bebê, ela tinha a marca de uma mão, acho que de eu ter comida, alguma coisa, perto da do meu berço. Então, ela disse que não limpou aquilo e aquilo era uma forma de nos aproximar, né, nessas nessa distância que a gente tinha. Então, a minha avó foi a a minha primeira cuidadora. Quando a minha mãe precisa de alguém para cuidar de mim, é a minha avó. Eu não sei com quantos quanto tempo, mas eu sei que com 2 anos de idade, quando eu frequento a primeira escolinha, uma escolinha ali no Bonfim, que a gente morava ali no na região ali do Chapadão, próximo ao Clube Andurinha, eh a minha a minha mãe me matricula numa escolinha e já está aqui em Campinas. minha mãe. Então, não lembro como, não sei como foi esse processo, mas já morando ali a minha mãe, meu pai, minhas irmãs, né? Num num curtiço. Era um curtiço porque eu lembro lembro bem daquela daquela casa. Eram vá, era um corredor com várias casas. Eu lembro que o banheiro era coletivo, aquela coisa toda. Mas ali eu fui muito feliz. Eu lembro de eu muito pequenininha, conversava com muitos vizinhos ali, falava bastante. Então a minha avó que cuidou de mim assim no na minha nos primeiros momentos da minha infância. Isso e tornou-se a sua referência? E foi minha referência porque depois sempre meus pais trabalhando antes da gente sair dessa região do Bolfin e morar na região Ouro Verde, né? Quando sai a casa que a minha mãe tinha feito lá a inscrição na COAB, eu sempre ali na casa da minha avó, com a minha avó, minha avó cuidando da minha avó, minhas tias, né? Eh, hoje eu só tenho uma tia, mas eu tive várias e meus meu tio também, eh, que que sempre foram, é muito engraçado, a família da minha mãe, dos 10 filhos que a minha avó teve, só dois casaram. A minha mãe que é a caçula, meu pai também era uma pessoa maravilhosa, não tinha como não. Eh, a minha a minha mãe e o meu tio Afonso, que morreu há alguns meses atrás, que morava lá. Minha família toda é de Minas, paterna e materna, né? Então, eh, só minha mãe e meu tio Afonso. Os outros tios e tias que eu tive e tive contato não casaram, não tiveram filhos. Então nós sobrinhas e sobrinhos eram como se fosse os filhos deles também. Então houve muito afeto assim dessa família materna na minha vida, sabe? E esse afeto que te coloca em condições de de de de prosseguir, de estudar, né? De se tornar a mulher que você se tornou, né? É o cuidado, né? É o cuidado. Bom, vamos falar de trajetória profissional. Eh, Talita, qual foi o momento que você percebeu que você poderia ocupar esse espaço que você ocupa hoje? Eh, e que é um espaço que não é um espaço formatado por uma mulher negra, né? Nós temos estudos que indicam que no Brasil apenas 20% dos do dos jornalistas são pessoas negras, né? E você ocupa um espaço então que não foi formatado para você. Em que momento que você percebe que você eh eh tem condições de ocupar esse espaço? Conta para nós. Uhum. Eu sempre fui uma pessoa com uma autoestima muito baixa, então fui construindo a minha autoestima assim. E quando eu entrei em Guaranésia, eu falava que eu queria ser jornalista porque eu gostava muito de escrever. Então eu via como um caminho natural. Gosto de escrever, eu vou fazer jornalismo, vou fazer letras. Eh, jornalismo tinha P que conseguia a bolsa e eu vim para cá. E na época da faculdade era muito difícil me, de fato, me enxergar como uma futura jornalista, porque parecia uma um sonho muito distante, até porque a gente não tem muitos por onde se espelhar, né? Você tinha Glória Maria na Globo, aquela coisa assim tão distante, né? E que era uma exceção. E que era uma exceção. Mas aí eu comecei a fazer um estágio na Unicamp, na assessoria de imprensa da Unicamp. E na Unicamp tinha duas jornalistas negras incríveis, que era a Maria Alice Raquel dos Santos. E elas foram para mim assim uma inspiração muito grande, tanto de jornalismo quanto para dentro da assessoria de imprensa, porque aí ali eu vi que elas estão aqui, apesar de todas as dificuldades, elas estão conseguindo ocupar esse espaço, tão escrevendo, tão divulgando ciência e aí eu vi ali uma possibilidade e eu comecei a me interessar muito por essa área dessa comunicação eh institucional, né? Comecei, aí eu saí da faculdade em 2010, passei um período que eu fiz um curso no Estadão. No Estadão também eu na época era eu e mais um menino, grupo de 30 pessoas, éramos eu e mais um menino, pessoas negras, né? O restante era branco. E aí eu fiz esse curso no Estadão, mas eu ainda queria voltar para Campinas, ainda tinha essa ideia de, ah, vou voltar, vou tentar trabalhar com comunicação institucional. e prestei o concurso da prefeitura em 2012, muito despretenciosamente, porque eu tava prestando, era uma época que eu tava prestando vários concursos, eu falei assim: "Vou prestar aqui". E eu vi o da Prefeitura de Campinas, falei: "Vou fazer". E e aí prestei esse concurso, fiquei aguardando e fui eh fazer eh assessoria de imprensa empresa privada. Aí fui pra agência, trabalhei na agência por um tempo mesmo da agência, agência de relações públicas, agência de comunicação, você encontra muito poucas pessoas negras, né? Você costuma ser exceção. Então você chega no lugar e você é a única pessoa negra da sala, né? Assim, você chega no evento e é só você. Às vezes você, quando você vê uma pessoa negra, você fica até feliz. Falei: "Nossa, olha, uma pessoa negra igual eu, né? Porque senão parece que você é sempre a exceção. Você se destaca não porque você tá sendo, mas porque você é diferente, né? É o ET, né? É, você tá fora do lugar, né? E aí eu trabalhei na na agência e 4 anos depois de eu ter prestado o concurso da prefeitura, eh, uma moça que tava numa classificação um pouquinho à frente de mim e continuava acompanhando porque já fazia um tempo e eu parei de olhar todo dia, perdi o hábito. E ela falou assim: "Olha, fica de olho porque chamaram os cinco primeiros". Eu era sétima. Olha só. Aí eu falei: "Nossa, será?" Aí uma semana depois que ela falou, saiu a nomeação, né? Convocação e eu entrei e aí a prefeitura abriu muitas portas, né? E eu percebo que ali dentro da prefeitura eu percebi que era era possível tá naquele espaço, porque você encontra outros profissionais, né? Ainda que pouco, mas você na imprensa, você tem colegas negros hoje na na dentro de a imprensa de Campinas. dentro da prefeitura, logo que eu entrei, tinha referência da secretária Elian de Ocelan, que para mim assim, nossa, uma secretária municipal negra, secretária foi incrível assim, você se sente representado, se sente acolhido, porque acho que quando você chega num espaço e tem outras pessoas negras, você sente acolhido, você sente que você faz parte. Então, para mim, eh, hoje tá dentro da prefeitura, eu vejo que tem uma mudança muito grande nesse sentido. Ainda, claro, ainda tem muita coisa para melhorar, tem, tem bastante, mas eu já vejo uma uma mudança muito positiva. Uhum. Perfeito. Ô Talita, eh, eu acho que um elemento importante que você traz, né, que a gente precisa destacar aqui, eh quando você diz que esse cenário a gente percebe uma mudança, apesar, né, de de nós estarmos muito a quem daquilo que daquilo que é o ideal, mas as políticas afirmativas têm contribuído muito, né, para isso. Quando você traz, por exemplo, a a reserva de de vagas, né, para pessoas negras nos concursos públicos, nas universidades, isso são elementos que fazem uma mudança institucional. E a gente vai falar um pouquinho mais sobre isso também à frente. e você traz é eh para os nossos ouvintes que talvez não conheçam um pouco a máquina do serviço público, né, pro pros nossos funcionários conhecem, mas pros nossos ouvintes, eh, o meu trabalho, o trabalho da Talita, o trabalho da Elisandra são trabalhos conquistados via concurso público, né, provas, né, muitas vezes títulos e tudo mais que atestam a nossa a as nossas condições de ocupar esses espaços. Então, foi através desses mecanismos que nós acessamos. E aí eu vou para você, Elisandra, eh, conta para nós como é que você chega no serviço público, que como é que você se constitui como uma professora, né, inicialmente, porque hoje você era muitas coisas, né, como é que você chega, conta pro pros nossos ouvintes como é que você chega no serviço público. Eh, eh, eu volto lá na minha avó, né? Porque eu até escrevi um capítulo de uma pesquisa da professora doutora Eliana, que me convidou para fazer parte da pesquisa do pósdoc dela. E ela eh trabalhou com 29 professoras do país, pegando as cinco regiões do Brasil. Então, éramos mulheres negras, mulheres brancas, mulheres indígenas. nessa pesquisa. E ali uma das das questões que a gente tinha que trazer para essa pesquisa era como eu me tornei professora. E foi lindo escrever, gente, esse capítulo porque eu voltei lá na minha infância, porque eu começo ser professora lá no quintal da minha avó. A minha avó morava numa casa que tinha uma parede que eh era a parede do vizinho, né, que dividia o quintal dela do vizinho, uma parede lisinha, bege, que a minha avó falou assim: "Se vocês quiserem". A gente brincava de escolinha no quintal dela, vocês podem usar essa parede para ser lousa? Minha avó era uma pessoa analfabeta e ela achava, eu acho que ela achava lindo a gente brincar ali de escolinha. Então deu carvão, um pedaço de esponja de colchão velho para ser o apagador e a gente escrevia ali. Eu escrevia, eu arrancava folhas de revista, eu colocava nome completo de crianças na folha de revista, que seriam meus alunos, corrigir a prova ali. Então ali eu peguei gosto, né? Inspirada também por algumas professoras que eu tive, que eu achava bonita, eu achava a minha professora da primeira série, professora Tânia, ela tinha uma mochila do Snoop. Gente, eu nunca tirei essa mochila da minha cabeça. Ela tinha uma mochila, era toda e xadrezinha e tinha o Snoopy desenhado. Ontem eu até ganhei um chocolatinho do Snoopy da de uma aluna minha de Indaiatuba. E eu lembrei da mochila da professora Tânia. E eu queria tanto, só que ela não carregava mochila nas costas, ela carregava naquela alça que tem na mochila. Eu achava um charme. [risadas] Eu achava charmoso ela andando com aquela mochila assim. Aí quando eu tinha a primeira mochila que eu tive, eu eu lembro que eu queria carregar que nem a professora Tânia, mas não era do Snoop. Então, inspirada por professoras que foram afetivas na minha vida, eu gostava de brincar de escolinha, eu eh imitava algumas professoras e também essa possibilidade que a minha avó deu lá de brincar e ser a professora que eu fui no quintal da casa dela. Professora negra, eu fui ter quando eu estava no sexto ano, que sexta série, na época era sexta série, uma professora de educação física, a professora Cláudia, aquela professora me pôs no atletismo, aquela professora me pôs no handball. Eh, então eu corria e e eu tenho os certificados de chegar em primeiro lugar na corrida. Então, aquela professora foi a professora negra que me inspirou e que me fez enxergar que não era só professoras brancas que a gente tinha, né? Então, foi muito marcante lá nos anos 80 e alguma coisa que ela foi minha professora quando eu tava no sexto ano, na sexta série. Eh, e a minha formação oficial vem do CFAN, CEFAN Campinas. Eu frequentei o Cfan de 1991 a 1994 junto com o Cefã Movimento Hip hop, porque dentro do Cfã, eu e mais duas amigas, Fabiana e Roberta, nós fundamos o primeiro grupo que eu participei de rap aqui em Campinas, que é o o grupo Liberdade de Expressão, 1992. Eu comecei como DJ e as duas MCs, só que eu com punha, a Roberta com punha, a Fabiana com punha. Era muito legal isso. Em 1992, em 1993, Racionais lança o álbum Liberdade de Expressão e eu era DJ. Então tinha aquela introdução dos Racionais que falava assim, 1 acho que era 92 ou 93, 1990, é 93. 1993 fodidamente voltando, racionais, usando e abusando da nossa liberdade de expressão. Eu era DJ DJ de aparelho de sol 3 e1, né, aquela coisa toda. Mas qual que era a nossa técnica de DJ? a gente usava um pedacinho de durex ou fita crepe para marcar aquilo que a gente faria o scrash, né? Então eu peguei essa partezinha, liberdade de expressão. Então eu lembro a primeira vez que a gente tinha uma introdução na abertura do show e eu marquei aquela parte do mano Brau falando liberdade de expressão. Então eu eh as meninas fazia lá as vozes de abertura, então eu chegava lá liberdade de expressão, era muito lindo. Enfim, eh, hip hop e cefã foram a base da professora afrocentrada antiracista que eu sou. O Cfã nos dava muita liberdade, era uma escola de qualidade pública, estadual, muito raro hoje em dia, né? eh tempo integral e a gente tinha uma bolsa de um salário mínimo. Então ali dava, antes eu era patrulheira, né? Fui patrulheira por o cerca de 2 anos. Aí quando o Cfã me chama, fico toda feliz porque eu vou estar estudando para ter uma profissão e vou receber uma bolsa mensal ali, um salário mínimo mensal para me manter numa escola o dia todo. E e esse, só fazendo um comentário, Alisandra, esse cenário, né, que você traz, né, eu me lembro bem porque a minha irmã também fez ser fã, né, foi um cenário, foi um um movimento, né, um projeto que deu oportunidade para muita gente, né, muitas pessoas. Gente, eu tinha 14 anos, eu tava lá com essa responsabilidade, era muito inclusivo, né, de estudar e ter o meu dinheiro para eu usar ali. Eu lembro que dentro de casa eu pagava conta de água. Uhum. E o resto era o transporte, a as continhas que eu fazia na lanchonete da escola, as roupas, os discos que comprava, né? As roupas de rapper. A minha mãe tava, a minha mãe não gostou muito dessa fase não, mas é, é, era o seu universo, né? É, para mim foi hoje, ela sabe a importância que foi aquele aquela coisa toda na minha vida. Elisandra, mas a essa influência, né? Quando você traz a experiência da professora Cláudia, né, nós estamos falando da criação de referência positiva, né? Hoje a gente trabalha muito em ela me me fez ser uma atleta. As referências, da mesma forma que você cita Glória Maria, né, sendo uma referência, né? Isso indica a importância de nós darmos visibilidade para profissionais negros como nós. E é esse o objetivo do Vozes Negras de Campinas, é esse o objetivo do programa de desenvolvimento de lideranças negras, né? dar visibilidade para esses profissionais, para inspirarem os jovens que nos ouvem, a ou mesmo aquelas pessoas que não são jovens, né, e que não enxergam de repente essa possibilidade. Indam paraa sua faculdade. Nosso tempo tá corridinho. Você fez pedagogia? Fiz pedagogia na PUC Campinas em de 96 a 99, né? e trabalhando no estado. Estudava como professora, estudava eh à noite na PUC, aqui no Pátio dos Leões, no centro, né? E trabalhava de manhã no a primeira escola estadual que eu trabalhei foi o Vilela Júnior, ali do lado do Teatro Castro Mendes. Tem muitas memórias ali daquela escola também. e trabalhei numa outra tarde, porque daí como eu era aquela coisa de professora eventual, então eu só ganhava se eu substituísse. É, mas fiquei no estado até 2002. Depois, em 2003, junto com o nascimento, literalmente junto com o nascimento do Iori, eu entro no município de Indaiatuba. Então, eu estou para completar 23 anos em Indaiatuba e vou completar o ano que vem 17 anos na rede municipal de Campinas, 30 anos na profissão. Já estou apta a me aposentar. [risadas] Já tá na hora de mudar de fase. Mudar de uma rede primeira e depois de alguns anos de outra. Mas assim, o que que é importante dizer? Estar com com estabilidade no serviço público eh é uma segurança muito grande pra gente, né? E mesmo que a gente passe por diversas questões, como eu já passei, tanto de racismo institucional ou racismo que parte de algumas famílias, de crianças, eu a base que eu tive não me permite sucumbir, né? Então eu tenho que voltar lá na lá no quintal da minha avó e lembrar da alegria dos olhos dela brilhando, de ver a gente brincando nessa profissão de professora. Eu tenho que voltar lá no Cefan, onde as professoras e os professores motivavam a gente a estar na escola pública, porque uma das falas era is era essa: vocês precisam estar no chão da escola pública. São essas crianças que precisam de você. Por quê? Dada a qualidade que era aquela escola, né? Então essas coisas me moldaram. o rap mostrar pra gente que nós temos voz ativa, a juventude negra tem voz ativa, nós podemos muito. Então, essas coisas são eh gás para eu não sucumbir, para enfrentar todas as dificuldades que a gente sabe que são inerentes à vida, elas desse casismo estrutural que é que tem na nossa sociedade. Exatamente. Talita. eh o papel da comunicação pública no fortalecimento da cidadania e do enfrentamento ao racismo. O que que você tem a dizer sobre isso? Você como sendo uma mulher, uma uma profissional que atua dessa com essa questão? A comunicação pública nesse quesito, ela é fundamental para mim. Acho que tanto para dar voz paraas pessoas. Então, quando a gente faz uma matéria com Elisanda, como a minha colega fez, você mostra o exemplo dela, você mostra o modelo dela, você mostra as iniciativas que ela vem fazendo para combater o racismo e você também inspira outras pessoas. Então, da mesma forma que ela se inspirou na professora dela, eu tenho certeza que outras pessoas, não só vem que são alunas dela, mas que vem ela por meio da imprensa, também vão se inspirar nesse exemplo. Então, acho que a gente trazer os exemplos bons, não só na questão do combate, o combate é essencial. A gente precisa falar que tem que ser, tem que ter uma pauta antiracista, você tem que ter ações, você tem que ter cotas, você tem que ter programas como de lideranças negras, mas você também tem que mostrar os bons exemplos. Exato, né? Porque acho que tem gente demais falando contra nós, né? Então a gente precisa trazer uma voz que diga: "Olha, é possível, olha aqui esses exemplos bons, né? Referências, referências boas". Porque é você ter onde se inspirar, né? Quando uma criança entra eh vai ver um programa de televisão, vai ver no YouTube, se ela vê um um médico negro, se ela vê uma professora negra, uma jornalista negra, ela vê assim: "Olha, é possível, eu também posso, eu também consigo". Aí você vê que ali existe um caminho para você também. Perfeito. E acho que na questão do da comunicação e do serviço público em geral, é muito importante a gente perceber que o serviço público ele tem uma imparcialidade que as empresas privadas não têm. Uhum. Né? Então assim, eu lembro que quando eu eu saí da faculdade, eu fiz muita entrevista de treini e eu ia bem na prova escrita. Quando eu ia pra entrevista pra dinâmica, eu nunca passava e eu sempre ficava assim: "Nossa, mas por que que eu não passo? O que que tá acontecendo?" E aí demorou muito tempo para para eu perceber que ali naquelas entrevistas eu geralmente eu era a única pessoa negra e eu era uma pessoa negra. Então o serviço público ele te abre essa possibilidade de você ingressar independente de qualquer coisa. É um processo imparcial e democrático. E democrático. Uhum. Só que quando a gente entra, a gente entra também com essa responsabilidade de trazer outras pessoas com a gente, né? também e contribuir não só para esse debate dentro do serviço público, mas pra sociedade em geral, para que outras outros jovens não precisem passar pelo mesmo pelas mesmas dificuldades que a gente passou, né? para que, sei lá, há um coordenador de RH que vai fazer uma seleção de um de um treino, ele tenha mais consciência de que ele tem que dar oportunidade para as pessoas negras também, de que ele tem que trazer mais diversidade, que a diversidade é boa, que a diversidade vai eh trazer mais oportunidades paraa empresa dele, né, que o consumidor também é negro, né, você tem que tá, aliás, 56% da população, então assim, você tem que ter isso refletido dentro da sua empresa para você poder vender bem, para você oferecer um serviço. Isso. Bom, e eu acho que quando a gente tá dentro da da comunicação, você também precisa olhar como os serviços chegam pra população negra. Então, a gente tem que esse papel de orientar também, que você tem que atender todo mundo com o mesmo cuidado, o mesmo carinho, né, que você tem que às vezes ter um olhar mais direcionado para aquela população para resolver questões que são desiguais, ão no atendimento da saúde, no atendimento da educação, né? Então assim, a gente incentivar a existência desses programas que são específicos e que visam corrigir uma questão que é histórica. Talita, você traz assim, né? Eh, inclusive é é o próximo questionamento que eu tenho eh registrado aqui que eu que eu iria fazer para vocês. Eh, mas você já trouxe isso, né? eh o tanto que a a as nossas presenças enquanto pessoas negras eh eh seja individualmente, né, e com mais potência coletivamente, são capazes de transformar instituições, né? São capazes de transformar instituições exatamente porque a gente se torna referência, né? nós nos tornamos referências e isso faz toda a diferença. E o que você traz, eu acho que a eh falando, né, para as pessoas que ocupam postos de alto escalão, pro nosso prefeito, pro nosso vice-prefeito, pro secretariado da prefeitura, né, que são 28 pessoas que compõem a equipe do prefeito e que administram a cidade, que conduzem as políticas públicas, ter esse olhar que você tá dizendo, né? olhar para as equipes, como é que tá a minha equipe. Se eu olho, né, a Jaqueline da Masio, ela fala muito do teste do pescoço, né? Olha em volta. Se você não tem pessoas negras ali, se você não tem representatividade, se você não tem mulheres, tem algo errado, né? E a verdade é uma só. Eh, eh, existem pessoas que têm o poder da caneta e tem o poder de transformar. as políticas públicas transformam, né, por força de lei, mas existem coisas que depende das pessoas que estão no alto escalão, que tem que ser parceiro, que em sua maioria são pessoas brancas e que têm que ser nossos parceiros, né? Então, de fato, a nossa presença ali, ela traz transformação. É isso. Bom, eh, na história, na no histórico de vocês, vocês citam, né, casos de experiências de racismo, né, assim como todos nós, né, e eh enfrentamos eh no trabalho, né, vou pedir para vocês de maneira, né, eh, procurarem de maneira sucinta responder essa questão tão tão dura e séria, né? Eh, como é que as marcas do racismo eh te atingem, Elisandra, no trabalho? É, se eu for pegar aí a questão da escola, a escola não era para ter vinda de profissionais que estão dentro dela, por nós temos uma lei aí que nos dá o respaldo para para as formações e também para as práticas antirracistas do começo ao fim do ano, né? Então, hoje em dia alguém eh dizer que não sabe como lidar com a educação antiracista, para mim a pessoa é racista, né? Porque ou você é antiracista ou você é racista. Não tem uma terceira opção, né? Ah, porque eh é mais um trabalho. Não, não é mais um trabalho. É incorporar nas práticas diárias do dia a dia. Outra coisa que também eu considero extremamente grave é o racismo institucional partindo da chefia, né? Então, mas só que assim, o racismo tem as suas mazelas, né? Por quê? Ele nunca é direto. Ele vem, ele vem através das sutilezas, eles vêm através de de dissimulações, né? Então, eh, é muito difícil detectar. Mas uma coisa eu não abro mão de sempre dizer: "Eu sei quando o racismo tá atuando e não precisa xingar". Não precisa usar uma palavra pejorativa, depreciativa, é só você agir, né? Então, eu já passei por diversos momentos de racismo sutil. Inclusive, a inação leva a isso. Exatamente. É você deixar de fazer. Exatamente. Deixar de fazer quando não se faz ou quando eh se faz e diz que não que não foi feito, né? esse tipo de de questão assim, eu tô bem atenta a isso. E existe, com certeza existe dentro do entre os profissionais que estão ali no dia a dia, existe por parte de famílias das crianças, existe entre as crianças também. E nós temos a obrigação de ser e o antiracismo, muitas vezes a as professoras e professores negros que estão lá como a referência, né? Sim, mas não é para ser assim, né? Porque não fomos, eu costumo a dizer também, não fomos nós que inventamos essa patifaria do racismo, não. O racismo foi inventado pela branquitude. Agora, a branquitude como um todo, elas precisam, as essas pessoas precisam estar com a gente aí nessa trincheira desse combate, assumir a responsabilidade, assumir a responsabilidade e e assumir mesmo. Ó, já fui. Quem não é preconceituoso, né, gente? Porque se a gente for ver, todos nós temos. Mas aí cabe a nós quantas e quantas falas, né, eh, capacitista que a gente já teve no nosso linguajar e que hoje a gente teve possibilidade de entender que aquilo não se fala mais, não. E com o racismo tem que ser a mesma coisa. Essa naturalização que perdura aí, ela tem que se transformar, tem que mudar e não ser mais natural esse tipo de coisa. Exatamente. E da sua fala eu depreendo um uma questão extremamente importante. Você como sendo uma mulher racialmente letrada, você identifica, seja contra você, seja contra o outro, você identifica. Eis aí a importância do letramento racial, né, de você de fato entender. E é muito importante também que a gente destaque que eh eh não é obrigação das pessoas negras letrar os outros, sejam outros negros ou brancos. Nós temos que buscar, cada um tem que buscar individualmente e as instituições precisam investir no letramento racial dos servidores públicos, né, que estão lá na ponta, que estão atendendo a população, né, que estão lidando com outros servidores e por aí vai. Ô, Talita, só para finalizar, uma coisa muito importante, né, que foi implementado na nossa rede esse ano é o protocolo antirracista, que tá englobando aí toda a população, envolvendo, né? Eu acho que eh nesses seis meses da existência desse protocolo, eu acredito que as escolas que ainda não aderiram a partir de 2026 ganha mais força para aderir e as escolas que já estão vai fomentar mais esse trabalho e trazer mais formações para dentro das escolas, envolver mais a comunidade, porque muitas pessoas da comunidade, crianças e adultos, né, eles Eles precisam também ter esse letramento racial para poder enxergar as sutilezas que o racismo nos traz também, né? Bem lembrado. Talita. Você mencionou no início, né, da nossa conversa aqui que você sentiu quando você chega na prefeitura, apesar de você ser, vamos dizer assim, né, e eh uma uma exceção nesse espaço, né, apesar da gente já ter melhorado muito isso a partir das políticas afirmativas, você se sentiu acolhida, né, mas o racismo te atravessa também em algum momento do seu trabalho, do seu cotidiano? Como é que você enxerga isso? Eu acho que o racismo atravessa principalmente com relação à aquelas microagressões que se a gente não tiver atento, você acaba por não perceber, mas elas estão ali. Então quando uma pessoa olha para você e você fala assim: "Ai, é meu cabelo? Ai, sou uma mulher negra". Alguma coisa do tipo, e a pessoa olha para você: "Mas você não é negra?" Assim, como assim eu não sou negra? Ou tipo, ai, mas eu acho que seu cabelo, se você fizesse assim, ó, eu acho que ficaria melhor. Ou: "Ah, essa cor não combina muito com você". Então é naquelas coisinhas do dia a dia que você percebe as tranças normalmente quando a gente sa dá para lavar isso? Eu fiz transm era sempre essa pergunta, nossa, mas posso pegar? Sabe aquelas coisas assim de e achar também que você falou que eu acho que é muito interessante, isso me incomoda muito de achar que você como uma pessoa negra você tem obrigação de educar a pessoa a não ser racista. É assim, você sabe quando você tem uma atitude racista, eu acho que todo mundo, claro, existe um nível em que a pessoa não tá consciente, talvez precisa de um toque, mas a maioria das pessoas elas têm condições de entender aquela fala delas como racista, se autocorrigir e até às vezes uma eventualmente até você pedir uma desculpa para que possa ter se sentido ofendido com aquilo, mas parece que as pessoas esperam que você diga a elas o que fazer, como fazer. fazer. Então, acho que as pessoas precisam buscar mais isso. Elas precisam buscar mais, se conscientizar até para prestar um serviço público melhor, né? Sim. E como que você eh quais são as estratégias que você desenvolveu para eh lidar com essas eh com essas questões? Para que para preservar a sua saúde mental? fala para nós, porque eh você como sendo uma mulher que ocupa um espaço, né, que não foi formatado, como eu já disse, para corpos negros, né, no dia a dia você lida com essas microagressões e tudo mais. A gente tem toda uma questão de saúde mental, isso porque para quem não vive isso não entende o tanto que isso afeta, né? Quais foram as estratégias que você eh desenvolveu para lidar com essas questões? Eu acho que hoje, principalmente que acho que tô muita terapia, né? E eu não tendo trabalhado essas questões, eu simplesmente eu vou, sabe? Eu não fico pensando mais, porque antes eu tinha assim aquela ideia de, ah, mas eu vou chegar, mas como que as pessoas vão me tratar? Ah, mas será que as pessoas vão acreditar mesmo que eu tô fazendo esse trabalho? Porque eu tinha aquela coisa de daquela síndrome do impostor, sabe, de tá sempre com o meu crachá, porque a pessoa precisa ver que eu tenho um crachá que eu trabalho na prefeitura. Então agora não, eu me vejo assim, esse espaço é meu por direito, eu tenho direito tá aqui, eu vou ocupar esse espaço. Então a gente tem muito, ah, mas e se não tiver ninguém lá como eu? Então você vai tá lá, você vai abrir os caminhos. Então assim, quando eu tenho um evento eh para fazer, eu tenho que entrevistar alguém, eu simplesmente vou, sabe? Eu não fico mais pensando o que que a pessoa vai achar ou será que a pessoa vai pensar alguma coisa? Não, eu simplesmente vou. Acho que a gente tem que ter essa força de vontade de, apesar de qualquer coisa, você estar ali, se você entender que esse espaço também é meu, eu tenho direito a estar aqui e você vai. Parece uma coisa simples, mas é para mim é muito poderoso assim você não se deixa bater, você vai porque assim, as pessoas elas vão tentar te diminuir, né, em algum momento. Você vai ter em algum lugar que você vai sentir que o olhar das pessoas sobre você é um olhar meio que de desconfiança, mas você tem que sentir que aquele espaço é seu, eu posso ocupar esse espaço. Você sabe que esse elemento que você traz do crachá, uma outra, uma outra colega nossa servidora, ela trouxe exatamente essa mesma coisa, né? Eh, eh, ela como sendo chefia, ao adentrar nos lugares em que ela não era conhecida, ela era sempre vista como uma usuária daquele espaço, que ela é da saúde, né? E isso aí incomodava, porque ela nunca era vista como uma pessoa que estava ali a trabalho para fiscalizar o local e tudo mais. E o crachá passou a dar esse esse escudo, né, para ela. Então são coisas, são microacressões, como você mencionou, que a gente enfrenta, né, Elisandra? Eh, você é uma mulher que não anda sozinha, né? Você não anda sozinha. Você inclusive é membro um um um uma pessoa importante num movimento, né, antirracista aqui da cidade, que é o Conepa. Tá certo a expressão? Conepa? É isso mesmo. É, eu queria que você muito rapidamente falasse um pouquinho sobre isso, sobre o CONEPA, o que ele é, qual é o seu trabalho e qual é o impacto que ele tem, né, na formação ou no desempenho dos professores que atuam nesse espaço. O CONEPA é um coletivo eh negro de professoras, professores que trabalham aí com a as africanidades, né? Então, é coletivo negro com práticas pedagógicas em africanidades. Essa é a definição da sigla CONEPA. Um coletivo composto por professoras e professores atuantes eh em várias redes, municipais, estadual. a a grande maioria estão aí na área da pesquisa acadêmica e e é um coletivo que existe na cidade há 12 anos, né? Nós celebramos esse ano os 12 anos de CONEPA. A nossa data de referência é o 21 de março, uma data simbólica por ser o dia internacional eh da eliminação e do combate ao racismo. E o CONEPA ele está em vários lugares dentro das escolas, né? E a gente ocupa os espaços também. Já fizemos diversas atividades na faculdade da educação da Unicamp, tem as datas pontuais, já fizemos muitas atividades levando nossas crianças, filhas e filhos, que a gente chama da de nossa erezada, para participar da oficina para outras crianças. Esse ano a gente tava muito atribulado, não conseguimos fazer a festa do dos herês que a gente sempre faz em setembro, mas também tem época de cine debates que a gente faz. É muito bom e é um coletivo que é um quilombo que a gente tem dentro desses tantos territórios negros que nós temos em Campinas, né? Então essa e o Conepa eu entro em 2016, eu acho que você conheceu a Verônica Marques. Sim, Daniel, a Verônica Marques foi uma coordenadora aqui da nossa rede. Eh, ela já faleceu há há poucos anos atrás, mas ela que um dia chega pro professor Wilson fala assim: "Hoje lá no Cai, isso 2012, hoje lá no Cai vai ter uma a apresentação de várias turmas, né, da festa que vai ter das diversidades lá. E eu quero que você conheça uma professora, Wilson e vai o Wilson com a Verônica. E eu estava na época com 5º ano, trabalhei com a música do Chico César, respeito meus cabelos brancos e eles chegam na hora que a gente tá fazendo a apresentação. Lá converso com o Wilson. O Wilson vira para mim e fala: "Olha, eu e uma outra professora, ex-aluna minha, que é a Daniela Caetano, nós estamos fundando com mais umas pessoas, professoras, professores, um coletivo. Quer participar?" Eu falei: "Opa, então já são aí 12 anos de CONEPA nessa cidade." Ótimo. Estamos chegando no fim do nosso bate-papo, né? Eh, o tempo voa, né? Não vai dar tempo da gente comentar, mas eu faço questão de frisar que a Elisandra agora no mês de agosto defendeu, né, o seu, a sua dissertação de mestrado. Ela é uma mestra. Para quem não conhece esse universo, sabe, né, ou melhor, quem conhece esse universo e quem não conhece vai saber agora que esse também não é um espaço formatado para corpos negros, ainda mais em instituições, né, renomadas, poderosas. Então, é é também, né, um um um uma questão extremamente representativa, né, a presença de profissionais negros nas universidades, fazendo pesquisas, se tornando mestres, se tornando doutores. Isso é muito importante, né, Talita, pra gente finalizar esse nosso bate-papo, eh, eu gostaria que você deixasse uma mensagem aí pros nossos servidores, uma mensagem que, né, para pras meninas pretas, negras, que nos ouvem, eh, que sonham em ser professoras, jornalistas, médicas, pesquisadoras, né? deixa uma mensagem para essas para essas meninas, né, a partir da sua vivência, da sua experiência, né, por ocupar um lugar que não for foi formatado para você, né, para nós, pessoas negras. Que que você diria para essas pessoas que nos ouvem? Eu diria para essas meninas que elas não podem se limitar jamais, que elas têm que ir, tem que estudar, tem que tentar, tem que buscar os os meios possíveis para encontrar e entrar nesses espaços. Porque eh embora a gente acha que às vezes a gente pensa assim: "Não, aqui eu não vou conseguir". A gente sempre vai encontrar apoio, ajuda, a gente vai encontrar ajuda dos nossos. Eh, vão ter oportunidades, embora tenham dificuldades, vale a pena. E quando a gente chegar lá, eh, nesse lugar em que você às vezes é a única pessoa negra, você vai perceber que você vai conseguir inspirar outras pessoas também. Então o seu movimento de conseguir chegar nesse espaço, ele leva muita gente com você. Então eu lembro que quando eu entrei na faculdade, logo depois de mim, vários dos meus primos entraram também. Olha só. Então assim, você vê que você, ah, eu tô, eu tô indo e você vai levar a gente com você. E hoje a gente tem uma série de programas de políticas afirmativas que fazem isso ficar muito mais, não diria fácil, mas agiliza um pouco esse processo, né? Diferente da na nossa época. Então hoje você tem para uni, você tem as cotas nas universidades. Eu acho que a gente tem que usar essas ferramentas, a gente não pode deixar passar porque elas estão aí para que a gente entre nesses espaços. Eu acho que é uma alegria enorme você encontrar uma professora preta, uma jornalista preta, um médico. Isso é possível se as pessoas forem assim, não tiver medo, não se limitar. Não se limitar. Exatamente. Acreditar em si. Acreditar. deixa uma mensagem aí potente, como você sempre faz, pros nossos serv os nossos servidores, servidoras, né, paraas meninas e meninos que nos ouvem, né, nesses 2 minutos que eu tenho para você. Beleza? Eu vou deixar uma mensagem trazendo uma citação da Bia Ferreira, que eu gosto demais de quando eu vou para algum alguma conversa assim, levar. Tem eh a música que ela traz a conta vai chegar que ela diz assim: "E e por que que eu me inspiro nessa nesse trecho? Eu fui uma criança que falava muito baixinho. Eu tinha vergonha de tudo. Hoje eu sou totalmente sem vergonha. É no bom sentido. E no bom sentido, sempre no bom sentido. Não falo mais baixo. Me expresso o momento que eu achar que devo me expressar. Estou aberta também a ser eh corrigida, a a a mudar de opinião, se assim for convencida, né? Mas eu sempre falo para paraas minhas crianças na sala de aula, eu não quero ver vocês falando baixinho, eu preciso ouvir o que vocês estão falando, porque eu fui uma criança que sofri por isso. Eu não gosto de lembrar da criança que eu era silenciada. falando baixinho. Então, a citação da Bia Ferreira que eu gosto de trazer e para finalizar e deixar para todas as crianças e adolescentes, principalmente as crianças pretas, que ainda são muito invisibilizadas, é a seguinte: eu falo alto, grito mesmo, vê se não me implica. A altura da minha voz é do mesmo tamanho da sua dívida. Mas de 500 anos, Juruat multiplica. É isso. Talita Elisandra, eu quero agradecer profundamente a generosidade de vocês duas, a força das suas presenças e a potência das histórias de vocês. As trajetórias de vocês reafirmam o papel transformador das lideranças negras paraos servidores e servidores negros no serviço público. e nos lembra que a representatividade não é apenas uma pauta, é um compromisso diário, diário com a justiça, com a dignidade, com o futuro. Agradeço também a você que tá em casa, que nos acompanha, é cada pessoa que nos escuta, que compartilha e se envolve com esse projeto aqui, o Vozes Negras de Campinas, que eh busca, que contribui diretamente para ampliar essas vozes, fortalecer essa política pública e manter viva a memória das histórias que ajudam a construir uma Campinas mais justa e plural. Eu quero agradecer mais uma vez, como eu sempre faço nos encerramentos aqui, né, a toda a equipe que está aqui à nossa frente, né, para quem não assistiu os outros episódios, eu sempre cito, tem uma galera aqui na frente fazendo isso acontecer. É, sem essas pessoas a coisa aqui não acontece, né? Nós não andamos sozinhos nunca. O podcast Vozes Negras de Campinas é uma realização conjunta da Prefeitura Municipal de Campinas e da Câmara Municipal dentro das ações do programa de desenvolvimento de lideranças negras. Nosso objetivo é simples e profundo. Garantir que experiências que transformam o serviço público também transformem corações, mentes e caminhos. Obrigado pela sua companhia e até breve. [música] [música] [música] [música] [música] [música]