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Você [música] já viu um vídeo nas redes sociais dizendo se você faz isso, pode ter TDH ou se você faz aquilo, suporta determinados sons, talvez seja [música] autista. Este é o tema de hoje do estúdio Câmara. que está no [música] ar e hoje traz especialistas para falar sobre o tema. Porque a popularização de conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência trouxe [música] algo muito positivo, informação, visibilidade e a possibilidade de muitas pessoas [música] reconhecerem experiências que antes não compreendiam. Mas existe uma linha [música] tênue entre identificar com uma informação e também concluir se tem algum diagnóstico. [música] Procrastinação é TDH. Não gostar de barulho é autismo. Ter dificuldade de concentração significa ter algum transtorno? Por isso, nós estamos aqui hoje [música] com duas especialistas que vai falar pra gente justamente desvendar algumas coisas [música] pra gente ser um pouco mais assertivo quando fala sobre esse tema. Nós estamos aqui com a Débora Rodrigues, que é psicóloga [música] clínica, especialista em saúde mental, análise do comportamento e terapias [música] comportamentais e contextuais, [música] mestrando em psicologia e atua em avaliação neuropsicológica e transtornos do neurodesenvolvimento. e também com a Maria Eduarda Luk, que já pediu pra gente chamá-la de Duda, que é psicóloga, especialista em terapia por contingência de reforçamento e com formação em [música] intervenção comportamental, aba desenvolvimento infantil e avaliação comportamental. Sejam bem-vindas ao estúdio Câmara e eu já vou fazer a minha primeira pergunta. Primeiro, para quem está em casa, Débora, eh, antes da gente falar de banalização, autodiagnóstico, o que significa neurodivergência e o que caracteriza de fato uma condição de neurodesenvolvimento? Uma só pergunta, Mirna. Bom dia. Bom dia, pessoal. Bom dia, Duda. É muito importante isso, né? a gente fazer essas diferenciações. A gente entende hoje que a neurodivergência é um guarda-chuva, grande guarda-chuva, e dentro dela existem eh algumas condições que são alguns transtornos, mas antes disso, né, a neurodivergência é a formação de uma de um cérebro, o cérebro em desenvolvimento. E a gente entende que ele eh é formado de uma forma diferente, né, da população normal, da outra população eh normativa que a gente entende. Então, dentro desse guarda-chuva da neurodivergência, a gente tem transtornos como o espectro autista, TDH, transtornos específicos de aprendizagem, transtornos de comunicação social. Então, a neurodivergência é um grande guarda-chuva, ela não é um diagnóstico formal, mas dentro dela existem alguns transtornos que são podem ser diagnósticos formais. Agora, Duda, na prática clínica, quais são os comportamentos que mais chegam ao consultório acompanhados daquelas frases? Eu vi na internet, eu acho que eu tenho TDH, eu acho que eu sou autista. Isso tem se tornado uma constante? E como é para vocês profissionais lidar com a pessoa já? Ah, eu tenho, tenho certeza, eu só quero validar aquilo que eu vi na internet e eu acho que me encaixo nisso. Sim, acontece muito isso. E eu acho que a primeira coisa que a gente deve perguntar, né, o por que você está falando, está afirmando que você acha que tem esse diagnóstico e, né, qual que seria a queixa, o sofrimento, o que tá por trás disso. Mas as pessoas realmente chegam muito falando, principalmente sobre déficit de atenção, né, que eu sou, eu me perco muito, eu perco as minhas coisas, só que um comportamento único não é quesito, né, de fechar um diagnóstico. Sim. Agora, quando, por exemplo, vou dar vou dar um exemplo lá de casa, viu, gente? Eu tenho uma filha, uma gosta de estudar, cada um tem suas características, uma não gosta. E eu sempre sou chamada na escola porque olha, ela ela ela fica no mundo da lua ou ela dorme ou ela conversa e atrapalha a aula. Eu falei: "Filha, mas por que que t tal?" Porque ela tem atenção para fazer coisa do TikTok, fazer post no Instagram. E aí que ah, eu acho que é porque eu tenho TDH. Ela falou desse jeito para falei, falei: "Ah, é, você tem quem te deu esse diagnóstico?" Ela não, mas se eu não consigo prestar atenção na aula é por causa disso. Tem quando também é uma desculpa, o que que os pais devem fazer quando os filhos já vem com essa resposta pronta? Débora tem que tomar um cuidado, né? Eu sempre gosto de diferenciar autoidentificação do autodiagnóstico. É muito diferente uma coisa da outra. Por exemplo, se você vê ali um vídeo no TikTok, por exemplo, nas redes sociais, eh, que estão ali com listas de sintomas e você fala: "Nossa, poxa, eu tenho essa dificuldade em tal tais contextos, em casa, no trabalho, na escola. Vou conversar com a minha mãe, vou conversar com o meu pai para ver se eles também percebem isso, porque eu tô me identificando com isso. Pode ser que eu tenha, eu vou levar isso pro meu psiquiatra, vou levar meu psicólogo." É muito diferente isso do que você ver uma lista ali de sintomas e dizer: "Eu sou assim, eu tenho isso". Então é muito importante que a gente diferencie essas coisas. Mas quando então nesse contexto que principalmente adolescentes e até adultos começam a observar algumas postagens e fala: "Poxa, eu me encaixo nisso". Quando é a hora de buscar um especialista, um profissional para realmente ver se é isso ou se não é? Porque às vezes a pessoa fala: "Não, é o meu jeito de ser e não necessariamente porque eu tenho algum, eu não gosto de barulho, por exemplo. Ah, não gosto de barulho. Não quer dizer que eu tenho algum nível de autismo ou sempre vai ser. Duda não, não vai. Eh, precisa, como eu disse, mais do que uma apenas característica, né? e confunde muito personalidade com um traço de um possível diagnóstico. Então, não gostar de barulho não significa que você automaticamente seja autista, né? E é muito confundível, né? E as pessoas acreditam nisso e levam como verdade. Então, pessoas podem não gostar de barulho, não gostar de textura e mesmo assim não ter um diagnóstico. Sim. Inclusive, nesse contexto, olha, a gente tem aqui alguns dados. Um estudo de 2025 analisou os 50 vídeos mais populares do TikTok com a hashdeste. 92% deles foram considerados enganosos enquanto comparados aos critérios de uma ferramenta validada de rastreamento para o TDAH. Outro estudo encontrou quase 500 milhões de visualizações em vídeos relacionados a essa hashtag. Mas da metade das afirmações sobre os sintomas estava alinhada aos critérios diagnóstico. No caso do autismo, uma análise de 133 vídeos informativos encontrou apenas 27% classificados como precisos. Quando nós precisamos ter cuidados então com esses, faça um teste aqui, veja se você tem com qual é o cuidado que a gente tem com todas essas informações que estão hoje na palma da mão, mas pode levar a um diagnóstico errado. Quem quer falar? Pode ser as duas. Uhum. Todo cuidado. Todo cuidado possível, né? Eu acho que a orientação também é pros profissionais que estão aí divulgando ciência nas redes sociais de tomar um cuidado no sentido de que não é adequado que a gente fique listando sintomas pras pessoas. E ah, se você se a gente vê muitas vezes, né, Duda, aí nas redes sociais, os profissionais postando vídeos dizendo se você tem tantos sintomas, você está dentro do espectro. Se você tem tantos sintomas, se você esqueceu a sua chave, três vezes nessa semana, você está dentro de um quadro de TDAH. Então, mas como por que que esses então esses conteúdos que são tão simples, eles começam a ter tanto sucesso? O que as pessoas buscam identificação, elas estão vendo ali que elas têm algumas dificuldades n diárias, seja no trabalho, como eu disse, na escola, em casa. Então elas estão buscando uma identificação por conta de um sofrimento. Sim. Agora, Duda, existe uma espécie de efeito espelho nas redes. A pessoa assiste o vídeo, se reconhece e passa então a enxergar aquele diagnóstico que ela fez via aplicativo em vários comportamentos da vida. E aí ela começa tudo a se desculpar com base naquele vídeo, com base naquele autodiagnóstico. Sim, eu acho que acontece. E aí é importante entrar, né? Se você tem essa dúvida de ter um diagnóstico, de essa identificação, é importante buscar um profissional, né, que faça uma avaliação adequada para realmente entrar iniciar um tratamento adequado. Então não seria uma desculpa, né, para certos comportamentos, mas você precisa de certas ajudas, certos ajustes na sua rotina, no meio social. E aí você consegue isso através, né, de terapia. É, então, na verdade, o problema não é reconhecer alguma dessas características, mas é acreditar que essa característica sozinha feche um diagnóstico. Com certeza. Com certeza. É isso. Esse é o problema. E assim, o diagnóstico ele é multiprofissional, multidisciplinar. Então, sempre leve ao seu médico que tá te acompanhando, ao seu psicólogo, leve paraa sua família, eh, porque até uma das partes da avaliação, trabalho muito com a avaliação neuropsicológica, uma das etapas é a gente conseguir entrevistar algum familiar pra gente colher dados, porque uma avaliação ela parte do princípio de uma hipótese. Então, essa hipótese ela é construída. Sim. e e a pessoa e e por isso que eu digo, é legítimo que a pessoa esteja ali e querendo, né, uma resposta, querendo entender alguma característica dela que talvez a incomoda, mas ela não consegue mudar aquilo, né? Exatamente. Inclusive, eu fiz eh uma avaliação, né, porque eu comecei a me reconhecer com muitas características autistas e fui buscar uma avaliação com a neuro e foi entrevistado, né, o meu namorado, os meus pais, a minha irmã e eu mesma respondi um formulário e cada um respondeu uma coisa totalmente diferente da outra. cada um tem uma percepção, né, sobre nós mesmos diferentes. Então, foi muito diferente olhar para aquelas avaliações sobre mim mesma e falar assim: "Nossa, mas então, tipo assim, ninguém me conhece, parece o que que tá acontecendo, né? Porque esses dados não são tão parecidos assim." Mas aí eu fujo um pouquinho do tema. A gente também tem que ver que as pessoas não nos conhece a partir de suas perspectivas também, né? Sim. Sim. Às vezes você fala assim: "Poxa, mas eu gosto disso, eu sou assim". Você não vê quando eu tenho um pouco cabis baixa, a pessoa já acha que é a sua, ah, não, ela é assim mesmo. Ah, ela ela é sim. Então, deixa ela no canto dela, porque ela ela ela é desse jeito. Inclusive, nesse contexto, a gente tem algumas famílias e eu já ouvi isso. Ah, aquela pessoa, né, inclusive em relação à minha filha, quando ela era pequenininha, que ela sempre foi mais de ficar no cantinho dela. Ai, fulana é meio esquisita, né? Porque a outra já é super expansiva. Nossa, ela é meio esquisita, né? Quando que é essa questão de esquisito? É o meu comportamento me aceite assim ou quando não pode ter algum problema? Vamos então eh investigar. Como que a gente consegue no dia a dia diferenciar isso, Débora? Acho que a parte da pessoa, né, de ouvi-la, aquela pessoa que está em sofrimento, porque eu sempre costumo dizer que não existe ninguém mais especialista sobre nós do que nós mesmos. Então, de ouvir, dar voz para essa pessoa, pro sofrimento dela, né? Quando aquilo é muito recorrente, né? Eh, as queixas são muito, né, frequentes, acho que esse é o momento de procurar ajuda, de identificar para entender se aquilo realmente é algo que pode ser levado à frente ou é algo que precisa de uma intervenção de um tratamento. Sim. Mas e aí quando a gente pensa num conteúdo que a gente tá falando nessa perspectiva de rede social, quando o conteúdo passa do limite, porque a gente tem um fenômeno que chamou atenção nas redes, os chamados, por exemplo, chá revelação de diagnósticos de autismo e TDAH com bolos, balões e até broches com frases parabéns pelo TDH ou parabéns pelo autismo. Onde termina a celebração de uma descoberta pessoal e começa a banalização de uma condição. Duda, hum, acho que isso é muito importante, porque é diferente você se reconhecer e você finalmente ter um diagnóstico, né? É um alívio para muitas pessoas ter um nome daquilo, se reconhecer, saber que você não está sozinho, que existem outras pessoas parecidas com você. Isso é muito importante, mas também entra nessa questão dessa romantização, né? E essa romantização vira uma banalização de uma festa, tipo, você tá celebrando algo que precisa ser celebrado. É uma celebração ou é também um sofrimento? É um reconhecimento de algo que você sofreu por muito tempo, sem se reconhecer, sem se identificar. Então é muito difícil isso. Mas aí é uma celebração por uma descoberta pessoal ou é aí que começa a banalização de uma condição? Eu acho que a partir daí começa uma banalização, começa, né, como se fosse festa esse diagnóstico, como se fosse fácil. vira uma romantização, uma banalização, como se a pessoa não precisasse de ajuda, não quisesse ajuda e fosse apenas isso. Deu aquela festa, pronto, acabou, né? Nada mais acontece. Mas como trabalhar então essa descoberta de uma maneira saudável, Débora? É muito importante que a gente conscientize as pessoas, né? que a gente fale cada vez mais por isso, porque esse espaço aqui é tão importante. E a gente fala, Duda até trouxe, né, que eh a gente acaba banalizando isso e entendendo que aquela condição não traz sofrimento. Ela traz sofrimento. A gente hoje fala de níveis, né, de suporte, nível um, nível dois, nível três. As pessoas às vezes falam: "Não, mas é o seu o seu autismo é leve". Sim, mas não é é não é adequado isso, porque a gente como se tivesse tudo bem. Exatamente. Só que mesmo o nível um de suporte precisa de suporte. Por isso que a gente fala em suporte. A gente não pode banalizar suporte. para quem tá em casa e às vezes não entende exatamente esse termo que é muito utilizado, mas fala que que é suporte, né? Por que se usa esse termo? O o termo suporte, ele é usado para dizer que aquela pessoa, ela precisa de algumas eh manutenções ali no ambiente, ela precisa de acessibilidade. Às vezes tem crianças, por exemplo, que precisam de acompanhamento terapêutico na escola. Elas precisam desse suporte ali nesses ambientes para que elas consigam separar com as outras pessoas também. Ah, correto. Mas e aí? Existe esse risco de transformar essa condição em uma identidade simplificada para o consumo nas redes sociais, por exemplo, Duda? Sim, eu acho que sim. E é um é um muito vendível hoje em dia, né? tá muito em alta e as pessoas estão se identificando e com poucas características e assumindo, né, essa personalidade, assumindo esse diagnóstico sem realmente ir atrás. A gente tem visto, inclusive vários artistas, até influencers mesmo, dizerem o seguinte: "Olha, agora adulto com mais de 30 anos, com 20, todas as idades e até pessoas mais maduras dizerem: "Poxa, agora eu descobri que eu tenho o autismo, é suporte um, tal. Como que é isso? Diferencia muito quando a gente faz essa descoberta já adulto do que quando já tem a criança e ela vem desde pequena já trabalhando aquele jeito de ser, aquela sua condição para encontrar o seu lugar no mundo. Qual é a diferença quando a gente pensa em criança e em adulto? Eu acho que a principal diferença, né, que os adultos que não foram diagnosticados quando criança conseguiram mascarar muito bem eh as suas dores, as suas dificuldades, o seu sofrimento. E enquanto as crianças que recebem eh esse diagnóstico, recebem essa ajuda, é muito mais nítido, né, desde sempre, desde pequenas. E elas conseguem receber ajudas tanto de terapeuta ocupacional, fono, físio, psicólogos, eh também medicamentosos, né? Então, ela consegue eh estar mais preparada e se reconhecer mais, saber mais dos seus pontos fracos, seus pontos fortes, né, com terapia, conseguir um jeito de lidar com as suas dificuldades de uma maneira mais saudável do que aquele adulto. Eu acho que o adulto ele só vai seguindo, tentando viver a vida do jeito que dá, mascarando os sintomas, mascarando as dificuldades e sofrendo. E eu acho que quando ele realmente busca o diagnóstico e recebe ajuda, né, adulto, é um alívio muito grande, mas também uma dor de se ele tivesse visto e vivido aquilo desde pequeno, talvez a vida seria mais fácil. Mas a gente eh há quanto tempo se começou a a surgir eh nos últimos 20 anos que se começou a perceber que existia esse caminho, antes não tinha diagnóstico, né, que nasceu lá na década de 80 assim, não tinha diagnóstico. Mas então quando nesse nessa questão dessa facilidade da tela e a gente queria, eu queria que você falasse um pouquinho duas dos riscos. Por exemplo, uma pessoa que se fez o teste lá e e trouxe aquilo como verdade, não preciso ir atrás de nenhum profissional. Quais os perigos disso na vida daquela pessoa? Gigantescos, né? Porque hoje a gente fala de da importância da gente de se fazer um diagnóstico diferencial. Então, na na psicologia, né, na a gente vê que vários transtornos são classificados ali, tem padrões desparecidos. Então, eh, às vezes você tá com uma dificuldade sensorial, mas pode ser porque você tá com privação de sono, você tá esquecendo eh as coisas ali na tua rotina, mas é por uma outra condição. Pode ser um quadro de ansiedade, um quadro depressivo. Então, quando você chega no médico e fala: "Eu tenho isso, eu tenho TEA, eu tenho autismo". Eh, ele pode estar te passando uma medicação que não é adequada, você pode estar fazendo tratamentos que não são adequados para você. Então, esse é o problema. Sim. Inclusive, Débora, nesse contexto até a às vezes a pessoa fala assim, na verdade ela tem uma outra coisa que ela não sabe e atribui ao TDH ou ao autismo. Isso acontece muito. Sim, bastante muito. Inclusive em adultos, né, esses adultos que estão tendo um diagnóstico agora mais tardio, eles relatam que eles passaram por vários diagnósticos ao longo da vida, por várias medicações inadequadas. Uhum. O que acabou prejudicando ainda mais o quadro deles. Sim. Mas e ainda assim, Duda, banalizar o diagnóstico é prejudicial, mas ao mesmo tempo ignorar os sinais pode ser tão prejudicial quanto? Sim, com certeza. Quando os pais não vão atrás de ajuda, quando eles vêm os sintomas, os sinais, as características dos filhos, eh eles estão, né, tirando um pouco da ajuda que o próprio filho poderia receber. Então é muito perigoso quando a gente reconhece algumas características e finge que não vê, porque você invisibiliza aquela pessoa também, aquele sofrimento. Então você nega uma ajuda que seria muito bem-vinda, né? E que seria do direito daquela pessoa receber. E como a gente, inclusive, olha, você pega resultado de exame hoje, pega a receita de medicamento, tudo as pessoas vão pesquisar antes de chegar no médico, ela fala: "Ah, eu já vi no Google lá que quando deu esse resultado é porque eu posso ter tal coisa". É isso mesmo, doutor? Oi, não fala: "Eu já vi que eu tenho tal coisa, doutorum, calma. Tem outros resultados que a gente tem que analisar conjuntamente. É um alerta, mas não quer dizer que você tá com essa doença X. Mas vamos lá. No caso do TDH, como a gente pode e também do autismo de qualquer uma das neurodivergências, como é possível identificar um conteúdo responsável? Porque automaticamente acaba sendo quase que o primeiro caminho que tanto adulto quanto família acaba procura, né? Eu tenho inclusive uma amiga, uma amiga que logo que o filho começou a andar, ela falou assim: "Eu acho que ele tem algum nível de autismo, porque ele anda com as ponta dos pés." E eu vi na internet que se andar com a ponta dos pés pode ser autismo. Então, e quando a gente começa então a consumir esses conteúdos, quais os critérios que a gente pode ajudar quem tá lá em casa assistindo e pensar: "Ah, isso é sério? Não, isso aqui eu vou passar porque tá muito estranho, tá muito fácil. Quais os critérios quando eu faço essa pesquisa e digo: "Essa informação é confiável". É muito importante que você observe o seu filho, né? A gente vê muitas mães falando que levam às vezes até no médico, o médico fala: "Não, essa criança tem um cada criança tem seu tempo e aquilo vai se passa anos e anos e não se busca ali um tratamento. Então é muito importante que a mãe a cada sinal que ela reperceber que ela procura em especialista. Sim, mas antes ela procura a internet. Mas e aí, qual ela, como ela sabe que aquele conteúdo que ela tá consumido é confiável? Ela tem que procurar algumas etapas, algumas respostas para se dizer isso eu posso confiar. Não, isso eu nem vou ler porque vai piorar a minha preocupação. Então, é muito importante, como eu disse antes, né, sobre essa profissionais que às vezes ficam listando sintomas muitas vezes e ficam nesses vídeos. Se você se identificar com mais de um desses critérios, você tem isso. Se com esses outros você tem isso. Então, fugi um pouco desse tipo de conteúdo. Aquele que apresenta, por exemplo, uma fonte científica, ele é mais confiável. Com certeza. E aí eu pergunto, inclusive, quando a gente conhece e tem essa experiência pessoal e a evidência científica, é hora de procurar o profissional de novo. Sim. Olha, gente, o que a gente percebe a todo momento, que por mais que tenhamos eh uma infinidade de informações e até no caso pessoas dando seu testemunho de como descobriram que tem o TDAH ou que tem algum nível de autismo, procurar o profissional é o ideal para que se tenha e se saiba o que fazer. Sim. Agora, se vocês pudessem dar apenas uma orientação para alguém que se identificou com vários conteúdos na rede e já se desesperou, não, eu vi, eu sou, aí agora o que eu vou fazer? Qual seria? Calma, primeiramente, e procure um profissional, como a gente já falou diversas vezes aqui. Procure um profissional, procure a sua família também, pergunte para eles se eles perceberam também, porque é uma construção, como eu disse, a gente para fazer uma avaliação, a gente precisa de uma hipótese. Essa hipótese precisa ser bem construída. Então, calma e procure um especialista. Outra coisa importante, quando a gente fala de diagnóstico, inclusive nós temos, vamos fazer um recorte aqui, por exemplo, pro Sistema Único de Saúde, a gente sabe da dificuldade do acesso às pessoas para conseguir o laudo, por exemplo, né? Tem gente que tá muito tempo na fila. E eu queria que vocês falassem dessa importância, dessa avaliação e também da gente pensar em ampliar o acesso às pessoas para conseguir o laudo. Inclusive, eh, a gente tem na Câmara Municipal uma lei municipal que fala o seguinte: "Se você apresentou o laudo eh uma vez, você daqui se meses ou daqui um ano aquele lugar não vai pedir um novo laudo, porque essa condição ela muda com o passar dos anos ou não?" Quem tem autismo, suporte número dois, suporte dois, por exemplo, ou suporte três, sempre vai ter ou não? vai, vai evoluir pro um, vai até desaparecer um dia, porque quando eles pedem a cada seis meses, você pensa, poxa, então uma hora isso vai não vai existir mais. Como é? Eu acho que não vai desaparecer, né? Não, eu acho, não tenho certeza. Suporte três é suporte três pra vida toda. Não, não necessariamente não. Ele pode eh ir pro sport dois, depois voltar pro sport três, então tem uma melhora, né? e também tem a regressão. Então, até muitos adultos de nível de esporte um, eh, pode acontecer alguma coisa na vida, né? Desestabilizar eh emocionalmente, sensorialmente e acabar regredindo, ir para um suporte nível dois e acabar precisando de mais ajuda, eh, dos familiares, dos amigos. Então os níveis eles determinam naquele momento, né, como você está, mas o transtorno ele não altera. O transtorno não altera o que pode alterar [limpando a garganta] o suporte. E isso influencia num laudo, por exemplo, de tempos em tempos. Sim, pode influenciar no laudo, sim. Pode. Então é importante, por exemplo, de repente e num suporte dois, ele precise de um auxílio no na escola que com o suporte um ele não precisa mais. Exatamente. Um laudo bem feito, né, e adequado e contextual à aquele momento, ele vai ele vai garantir que aquela pessoa tem acesso aos direitos dela, os direitos naquele momento que ela precisa. Sim. Agora, por exemplo, um adulto que chega e diga assim: "Poxa, tenho infinitas reuniões de trabalho, acho que eu tô com TDAH porque eu não tô aguentando mais, eu me distraio muito". Isso pode ser só uma outra questão de trabalho, de cansaço, de estress e que aí ele já coloca na cabeça que é isso. Como que a gente pode também pensar nessa pessoa que sempre, não, olha, tô muito com esse problema, como você disse, ah, esqueço as coisas três vezes na semana, ah, então tenho TDH. Essa é a questão também de outras questões que envolvam aí a saúde mental. Uhum. Como que a gente consegue diferenciando no dia a dia, Débora? Se observando, né? Perceber se você bebeu nos últimos dias, se você dormiu bem, né? Se você tá usando algum tipo de medicamento que pode influenciar ali no teu humor, na tua atenção. Acho que é se observar, né? Como eu disse, nós somos especialistas na nossa vida, de nós mesmos. Então, acho que parte desse princípio sempre. E claro, se isso persistir por muito tempo, ah, estou há mais de um mês com esses mesmos sintomas, procure também um especialista para poder fazer uma avaliação disso. Agora, por exemplo, existe alguma coisa, eh, um fato na vida de cada pessoa, vamos supor, perder alguém, alguém, um ente querido, alguém muito amado, isso pode desencadear, por exemplo, o TDAH, o autismo ou não? Isso não tem nada a ver um fato na vida da pessoa. Ela e aí ela fala: "Ah, depois que a pessoa morreu, eu descobri que eu tinha autismo." Não, talvez ela já tinha, ela desenvolveu após esse esse, digamos que esse trauma. É muito legal sua pergunta, porque existem muitas confusões sobre isso, né? A gente entende que o transtorno do neurodesenvolvimento eles tm que está presente desde a infância. Tá? O que pode acontecer é que é uma situação traumática, uma situação assim do cotidiano pode desencadear uma situação como essa. Entendi. Um desencadeio, mas não surge a partir dessa situação. Ou pode piorar também o quadro. Pode ser que ela não tenha percebido antes, porque piorou o quadro, aí ela teve atenção naquilo. Pode desencadear, né, uma crise ou alguns comportamentos que ficam mais evidentes aquele diagnóstico, mas eh o cérebro daquela pessoa, né, ela nasceu assim desde criança, isso não altera. Agora, por exemplo, a procrastinação, que é também muito ah, eu acho que eu procrastino porque eu tenho TDAH, ela pode também ser um sinal do quê? Duda, [risadas] eu acho que pode ser, né, um sinal de cansaço, de sobrecarga, eh, de falta de interesse, de dificuldades do dia a dia, de manejar horário, rotina, relações pessoais e aí acaba acarretando, né, numa sobrecarga mesmo de muitas tarefas e aí você chega num limite e começa a procrastinar. Entendi. Mas de certa forma, eh, quando a pessoa de precisa de toda forma procurar alguém, procurar uma ajuda, fazer uma terapia, se for o caso, então ela começa também a se descobrir. Sim. Por outro lado, a gente tem inclusive as pessoas que deixam de investigar outras causas, porque às vezes ela se descobre com o TDH ou algum grau de autismo, mas ela tem outras questões também que envolvem a saúde como um todo, principalmente a saúde mental. Por exemplo, quem tem TDH, pode ter esquizofrenia, por exemplo, vou dar um exemplo, pode ter várias outras questões juntas que envolvam todo esse processo de saúde mental ou não. Só tem TDH, não tem mais nada. Com certeza. E é o que é o comum assim acontecer, né? Muitas pessoas com telas tm o TDH comoidade, alguns outros transtornos. Então é muito comum que isso aconteça e sim, ela pode ter outros transtornos junto com o transtorno do neurodenvolvimento, sendo uma depressão, sendo uma ansiedade. E aí, como que é indicado também esse essa condução da da vida dessa pessoa para que ela tenha uma melhor qualidade de vida? É importante também, de novo, eu vou ficar repetindo a mesma coisa, porque é muito importante isso, é trabalhar com o teu profissional, o profissional que tá te acompanhando, para que ele consiga fazer o que a gente chama de diagnóstico diferencial. Que o que é o diagnóstico diferencial? É conseguir separar ali o que é de cada transtorno. Hum. Porque cada um vai ter um tipo de atenção, um medicamento, alguma coisa nesse sentido. Exatamente. Entendeu qual é o transtorno que tá mais causando ali disfunções na vida daquela pessoa naquele momento? Nós tivemos em um certo momento, inclusive lá na Câmara Municipal, uma questão da que foi chamada um encontro chamado faz alguns anos já, medicalização do TDH. Aí eu lembro que aí a umas mães disseram: "Agora é tudo é a dá ritalina pra criança que resolve. Isso é perigoso sim ou não? E por quê, Débora? É super perigoso, né? porque é uma banalização também da medicação, medicalização. E assim, eh, a medicação ela vai ajudar, ela é um apoio, sim, a gente não pode, né, dizer que não, porém, eh, ela não substitui um tratamento, né, com terapias, com fono. Então, é uma, a gente precisa dar, eh, atenção para um trabalho multidisciplinar, porque senão a gente só eh mascara ali os sintomas e não a causa daquilo. Mas e aí? A a mãe pode chegar e dizer: "Poxa, eu acho que não é para medicar, eu acho que é paraa gente tentar um outro caminho". Não, o médico disse: "Vou colocar Ritalina". A professora fala: "Ai, que ele tá calminho, na escola, resolvemos o problema". Que alerta isso nos traz, Duda? Sim. Eu acho que para muitas pessoas, né, que estão sobrecarregadas, principalmente dentro da escola, que tem que lidar, né, com mais do que apenas uma criança, eh, seria mais fácil por esse caminho, né, da medicalização, porque a criança calma, quieta, não atrapalha a aula, não atrapalha os outros colegas. Eh, mas sempre tem que avaliar se faz sentido para aquele indivíduo tá tomando aquela medicação. Eh, melhora a qualidade de vida dele, aquela medicação faz sentido ou ele só para de atrapalhar as pessoas em volta dele? Sim. Agora, quando a gente pensa nessa socialização e a gente falou lá atrás um pouquinho sobre banalização, como é para nós que talvez, né, a gente não tem o diagnóstico também, como que é essa questão da empatia de quem está perto, de quem às vezes faz uma piadinha no na escola, no trabalho, porque às vezes a pessoa você dá uma atividade, uma tarefa pra pessoa fazer fazer, ela volta e te pergunta a mesma coisa três, quatro vezes, você fala assim: "Gente, parece que essa pessoa tem interi pelo amor de Deus, tô aguentando mais". como também é a nossa responsabilidade para trabalhar, para que essas pessoas realmente vivam numa inclusão, que elas possam ser produtivas dentro daquele espectro que elas têm, mas que elas também possam interagir com os outros, apesar de ter esse diagnóstico dentro daquele limite que lhe é possível. Quero que as duas responda esse porque é bem importante. Sim. [risadas] Eu acho que primeiro, né, pra gente conseguir ter empatia, a gente precisa entender, buscar entender. Então, se a gente sabe que alguém que a gente convive tem algum diagnóstico, a gente tem que ler sobre isso, a gente tem que buscar informação científica sobre o assunto, porque aí a gente não vai banalizar, a gente não vai eh se irritar. E às vezes às vezes existe, né, essa irritação, existe essa impaciência, eh, porque o outro não consegue e você vê também o sofrimento daquela pessoa com no conseguir. Isso também é frustrante, né, para as pessoas que estão de fora assistindo. Mas eu acho que o primeiro passo para isso é saber sobre o que aquela pessoa tem. É nesse sentido que a gente entra naquela questão de da diferença entre tratar uma condição ou simplesmente enquadrar a pessoa naquele determinado padrão. Sim, sim, com certeza. É muito importante que a gente, como a Duda disse, que a gente se paramente, que a gente estude, que a gente conheça, para que a gente consiga separar essas coisas. Sim, é um ponto, porque senão a gente não espera mais nada daquela pessoa também do tipo, ah, ela é autista, deixa ela, deixa ela. Tá? Outro termo também que é bastante usado, o tratamento. Geralmente tratamento a gente pensa tratamento de algo que a pessoa não de e algo que vai evoluir para uma cura. No caso das neurodivergências, qual é o termo correto que deve ser usado por todos nós? É, é o mesmo, é o mesmo termo, né? é um tratamento, porém a gente não se fala em cura porque é uma condição que ela vai acompanhar a pessoa da infância até a fase até da fase adulta na parte quando ela fica mais madura ali. Então a gente fala em tratamento para que a gente consiga eh trazer, tô me me atrapalhando um pouquinho, mas a gente fala em tratamento para que essa pessoa realmente consiga ter dignidade. É mais nesse sentido, tá? Mas nesse caso a gente pensa, por exemplo, no laudo, né? Ah, eu, ah, eu tenho um laudo também. Pode acontecer o inverso. A, a pessoa que tem um laudo, ela se, digamos que se apoia naquele laudo para também justificar n coisas da sua vida. Pode acontecer isso também, por outro lado? Sim. Por isso que eu E quando acontece, qual é a intervenção que deve ser feita? Sim. pelo profissional que tá acompanhando mesmo, quando ele perceber alguns padrões ali e desmistificando com essa pessoa, né? Eh, olha isso aqui, você tem um potencial para alcançar, para criar habilidade. A gente fala muito de habilidades na clínica, você tem esse potencial. Então, vamos desenvolver isso, vamos colocar isso em prática, porque você consegue. Então, acho que vai muito do profissional também de encorajar essa pessoa e de treinar essa habilidade, né? Porque é isso, talvez essa pessoa tenha essa dificuldade, né? ela não consegue fazer isso de forma natural, mas não quer dizer que ela consiga eh aprender a fazer isso de uma forma que ela não sofra. Sim. E a partir disso, inclusive, por exemplo, quando você disse até Duda, ah, ah, tem autismo, deixa ela lá no canto dela. Mas não é importante também que a gente exerça a escuta para saber como que aquela pessoa quer que a gente lide com ela, mas não, tipo, ai, você tem isso, então vamos não infantilizar também. naquela pessoa. Sim. Eu acho que eh conversar sobre os limites também, né, de ah eu tô eu saí, tô com os meus amigos, eu falo que eu vou ir embora e as pessoas normalmente ficam assim: "Ah, fica um pouco mais, né?" E aí eu fico, eu cedo e eu fico e depois você entra em crise. Foi demais. Então é reconhecer esse limite, gente. Quando eu falar que eu vou embora, eu vou embora e tá tudo bem. Eu sei que vocês me pedem com carinho para ficar, mas eu preciso ir embora naquele momento. E aí a partir disso as pessoas colaboram com isso, né? E aí quando a pessoa chega e fala assim: "Ah, vai embora, então tá bom, tchau, obrigada, foi muito bom você ter vindo". E acolhe essa pessoa de outra maneira. Aí, por exemplo, também a gente sabe que geralmente, por exemplo, a pessoa com autismo tem alguma sensibilidade, a ruído, luzes ou até alguns ambientes lotados. E aí é, a gente também precisa, poxa, você é chata, não quer ir lá no aniversário comigo, não quer ir lá na festa comigo, poxa, como também a gente tem que ter essa empatia perante essa pessoa nesse caso, eu acredito muito que oferecer um suporte, né, falar que você gostaria que ela te acompanhasse, que seria importante e sugerir, ah, quer que eu leve um abafador para você, né? você pode levar o abafador e tá tudo bem. Eu vou sustentar esse abafador com você do seu lado, porque muitas pessoas encaram, acham estranho, né? Então não é fácil aquela pessoa estar ali eh demonstrando usar algum acessório eh e falar que você se você precisar ir embora, a gente vai embora na hora que você precisar, quiser, mas seria importante que você pelo menos passasse ali e estaria com você. A gente falou agora a pouco, Débora, sobre a questão, você explicou até sobre o suporte, mas muitas vezes a pessoa que tem um diagnóstico, por exemplo, eh, como como eu diria, a gente acaba presumindo uma incapacidade, porque oferecer o suporte é tirar a autonomia. Qual é a linha tên que existe entre essas duas coisas e como a gente pode então fazer com que isso você precisa do suporte, mas você tem autonomia para isso, isso, isso. Como que é, como é trabalhar nessa questão? Muito importante a sua pergunta. É nessa parte que a gente tá falando aqui sobre o respeito, de respeitar o limite do outro. Então, perguntar, você precisa disso, você quer isso? Isso faz sentido para você? nãoar. Ela tem autismo, então ela tem, eu tenho que fazer isso. Exatamente. Faz sentido pra tua vida, faz sentido para esse momento. Então é muito desse diálogo com o outro, de olhar o outro como ser humano que tem vontades, não infantilizar e eu tenho ali a o suporte que eu quero dar para aquela pessoa e eu imponho a ela, não é assim? Então, dentro de um diálogo, dessa empatia, eh, inclusive quando a gente fala de valorizar as potencialidades individuais de cada um, eu lembro muito bem que a gente teve uma edição do Parlamento Jovem na Câmara Municipal e tinha um aluno que ele ele é autista, ele já deve ter até se formado nessa ocasião, e ele não se envolvia muito nos trabalhos em grupos, nas dinâmicas em grupos que aconteciam naquela ocasião. Mas um dia parece que ele se propôs e ele gostava de um tema específico e ele subiu à tribuna que olha aqui e falou no microfone durante 10 minutos defendendo o seu projeto e de todos aqueles alunos ele foi o mais assertivo naquela defesa, como se fosse um adulto mesmo. E aí todo mundo se surpreendeu e no final ele colocou essa condição que o autismo não era limites para que ele defendesse as suas próprias ideias. Porque a gente tem essa questão de que, ah, ele é autista, então ele não sabe opinar sobre isso ou desvaloriza aquela opinião. Como não cair nisso? como a gente também começar a refletir mais a nossa maneira de agir, a nossa fala, como a gente também pode pensar nesse contexto, Duda, eu acho que o primeiro de tudo que vem, né, o preconceito e de um preconceito mesmo que a gente tem, né, daquela ela não consegue, ela não sabe, então o que ela fala não é válido, mas onde isso é real, né? Onde que isso mostrou ser um dado científico? um fato, não é um fato, né? Eh, a cada indivíduo é único e todos conseguem se expressar da sua própria maneira. Então, cabe a nós tentar entender aquilo que a pessoa está falando. E, tipo, para muitos autistas não verbais, aquilo que ela também não consegue falar, né? Sim, ele está se comunicando de alguma forma e cabe ao outro se enquadrar e tentar entender. No caso do autista não verbal, qual é o maior desafio pra família e para as pessoas que convivem com essa criança ou até já quem é adulto? Nesse sentido também de saber que existe um limite, mas que isso não signifique incapacidade. É gigante, né? Isso. E assim, a criança, principalmente falando de crianças, né, as crianças que estão ali no nível três, a maioria delas, né, elas se comunicam de outras formas, né, elas não têm essa comunicação eh oral que a gente fala. E isso acaba desencadeando várias questões emocionais nessa criança também e na família, porque a criança quer se comunicar de alguma forma contigo, mas você não tá compreendendo. Isso aumenta ali as crises dessa criança, né? Então, a família fica eh se sentindo é vulnerável, né? Então é muito importante que essa família procure outras formas, meios de comunicação, meios de perguntar para esses profissionais como que eu posso, né, e dar espaço para que na minha casa, para que meu filho consiga se comunicar comigo para diminuir essas crises. Sim. E a gente também entra sempre eh dando suporte do menos intrusivo pro mais intrusivo, né? O que é isso? Eh, seria tipo uma dica, a gente quer que ele faça alguma coisa, uma para se comunicar ou na hora de comer. Então, eh, fala, a gente primeiro verbaliza para aquela pessoa o ação, né? E aí, se ela não responde, né, de comportamento mesmo e não verbalmente, a gente vai lá e aponta. E aí mesmo assim, ela não fez nada, a gente faz uma ajuda física leve e depois a gente dá uma ajuda física total. Então, para realmente ver se aquela pessoa consegue fazer sozinho. E não é que a gente deêu uma ajuda física total, por exemplo, para ele pegar o garfo e comer uma vez, que a gente vai fazer isso sempre. Então, a gente também vai pensando em diminuir essa ajuda para ele ter eh mais liberdade. A gente falou inclusive dos perigos da desinformação quando esse tema é pesquisado na internet, quando um diagnóstico é fechado na internet. Inclusive, a gente mostrou aqui de dados que de uma pesquisa que só 27% era classificado como dado eh preciso mesmo. Então, o que que a gente diria para quem tá lá em casa? Olha, eu vou, eu, eu quero pesquisar aqui, mas eu preciso entender também agora que eu tenho já o o diagnóstico, como lidar com essa situação ou até como no caso de crianças, que conteúdo eu posso usar a internet para que essa criança para ajudar em algum desenvolvimento nesse sentido, pós diagnóstico, a internet, ela é uma vilã ou ela pode ser também uma auxiliar? Para mim, ela pode ser muito uma auxiliar. Eh, tem muitas pessoas, influencers, eh, que trabalham com pesquisa, né, e fazem vídeos contando sobre o dia a dia, mostrando as dificuldades, mostrando formas que eles encontraram de lidar e deixando muito claro que eles encontraram essa forma e que não serve para todo mundo. Então, acho muito legal você poder se reconhecer. Porque primeiro tem, né, o BAC do diagnóstico e depois tá, mas na minha família só eu sou assim. Eu eu não me reconheço na televisão, eu não me reconheço nas histórias, nos livros. Então, onde estão essas pessoas que eu posso me reconhecer? Ah, é mais fácil encontrá-las na internet. E aí a partir disso, da internet você consegue eh ter essa identificação, né, com essas pessoas e não se sentir tão só dentro do seu próprio sofrimento. Para crianças já existe conteúdo específico também, inclusive, por exemplo, um desenho, uma historinha, algum algo mais nesse sentido já é possível ter acesso? Sim. Tanto na internet quanto fora existe alguns livros, não vou me lembrar agora o nome, mas eu sei que existe e alguns episódios da Turma da Mônica, né, que tem um personagem que ele tá no espectro do autismo. Você lembra o nome? Eu não lembro do nome dele não. Então, mas ele é é isso que eu tô dizendo. Por exemplo, o personagem ele trata do tema eu tô de fora. Eu entendo que é uma uma forma de sensibilizar a sociedade que aquele indivíduo existe, tem voz e tem vez. Agora eu tô eu tô dizendo para um indivíduo autista que tipo de conteúdo quando ele também tem acesso à internet é importante para ele ali, por exemplo. Ah, se eu colocar um um desenho que tem muita gritaria, que tem muita coisa, ah, isso não. Então você também enquanto família, enquanto pessoa que convive, selecionar os conteúdos para que essa pessoa tenha um conteúdo que ajude um pouco mais nessa ah, não, eu quero ter acesso a desenho, eu quero assistir alguma coisa, eu quero pintar, não sei. Tem isso também hoje? É, tem diversos tipos de conteúdo. Acho que é personalizar isso paraa tua criança, né? Entender o que ela precisa, as necessidades dela, os limites dela também. Então, de olhar isso e personalizar isso para cada um, cada pessoa vai ter sua peculiaridade. Sim. E eu acho também importante ela crescer, né, sabendo do diagnóstico dela para ela conseguir se reconhecer no mundo e dentro dela mesma. Então, sempre conversar com a sua criança, né, da forma você não, os pais normalmente têm muita dificuldade, né, de chegar e contar um diagnóstico, como faz isso. Então, buscar essa ajuda, essa rede de apoio nos profissionais. Eh, mas que ela cresça também consumindo esses conteúdos que eu já vi mesmo outras crianças autistas fazendo e contando eh sobre as dificuldades delas, as características delas. Então, para elas verem que elas não estão sozinhas ali naquela sala de aula, que só ela tem um diagnóstico e que tá tudo bem ela ter esse diagnóstico, que ela não precisa, né, mudar, ser curada e se se entender e se aceitar dessa forma. Eu fiz uma pergunta, uma pesquisa rápida aqui. Olha, algumas indicações aí. Eu queria que vocês dissessem o que é bom e o que não é, tá, gente? Primeiro eles falam de atividades com suportes visuais, por exemplo, uso de pistas visuais. cartões de rotina e quebra cabeças para tornar conceitos abstratos tangíveis. O que é isso? E de que forma vocês acreditam que esses materiais possam ajudar? Muito importante esses materiais. tá a tua pergunta anterior sobre uma pessoa com suporte, um nível de suporte muito grande ali, o três e que tem dificuldade de comunicação. Essas pistas visuais podem contribuir muito comunicação. São ali cartões muitas vezes, às vezes através de um tablet também que a gente coloca e a gente faz toda uma pesquisa com aquela família, né, com aquela criança para entender que contextos é importante que ela consiga se comunicar melhor, né? Tem coisas que ela precisa alcançar ali. Então ela vai ali te mostrando, apontando como a Duda mostrou ali. É isso que eu quero. Dando segmentos dessa forma. Sim. Outras questões aqui, ó. Recursos de comunicação alternativa, como pranchas com pictogramas que ajudam autistas não verbais a expressarem desejos, sentimentos e necessidades de forma eficiente. O que são essas pranchas? São figuras ali que representam ali o contexto dessa criança ali, na qual ela tá inserida, seja a escola, seja a casa. Então isso vai facilitar com que ela se comunique ali com quem tá acompanhando ela. Sim. A gente tem exemplos aqui recentemente, inclusive o aeroporto de Viracopos eh implantou uma sala multissensorial. Qual a importância dessas salas multissensoriais quando a gente pensa em lugares com eh grande circulação de pessoas e tudo mais? Eh, não sei se no caso a gente fala do aeroporto, que é um lugar que a pessoa fica aguardando o voo, rodoviária, às vezes até um consultório médico. Como qual a importância, qual é a função dela, Duda? Eu acho muito importante. Inclusive, eu fui num congresso ano passado e dentro do congresso era sobre autismo e tinha também uma sala sensorial eh de descanso. Então acho que quando você, né, tá esgotado ali, você viu que já tá no limite de sons, de pessoas talvez esbarrando em você, eh, de sensações mesmo, frio, calor, você precisa se retirar, você não não consegue, né, voltar para casa, você tá dentro de aeroporto, você tá dentro de uma festa, você tá num palestra, então aonde você consegue buscar esse refúgio para conseguir assimilar sensações. e conseguir ficar mais calmo e se regular são dentro dessas salas sensoriais. A gente falou inclusive sobre a questão do ruído, mas aqui também há indicações que é possível, por exemplo, criar playlists com batidas suaves e sem picos de som repentinos para evitar as crises. Então, não quer dizer que não pode ouvir música. É um é um tipo de música que pode ser agradável também ao autista. Sim, com certeza. Não é porque ele não gosta, né, de muitos sons, de muitos suídos, que ele não vai gostar de escutar música. Eu falei agora a pouco inclusive sobre a questão do desenho, porque hoje muitas vezes e até é um outro tema, a gente coloca criança na frente de um de um tablet ou em frente a uma televisão num canal pago que é passa o desenho o dia inteiro. E aí é como se diz, o desenho vai cuidando da criança, né? Mas é um outro tema, mas no caso de vídeos com baixo estímulo, com animações e canais infantis com cores menos saturadas, movimentos de câmera mais lentos e diálogos mais pausados, isso também ajuda. E qual é, aí eu já entro o tempo que você pode dizer que seria bom ou quando aquilo tá extrapolando também. Olha, por mais que seja um desenho adaptado, um vídeo adaptado, tem limites. Débora. Sim, é sempre, né? Acho que a avaliação daquela família, de como aquela família funciona, será que aquele desenho tá roubando tempo de outras atividades que seriam importantes, de outras habilidades que poderiam estar sendo desenvolvidas? E até um ponto que você citou aí sobre o a questão do barulho. Nem todo autista vai se incomodar com barulho, não é para todos, né? Então, cada um temuliar, a gente tá falando de um então cada um tem um um tipo de peculiaridade ali, um de dificuldade, facilidades, habilidades. É, então ninguém pode dizer assim: "Olha, por exemplo, ah, eu tenho, eu tenho tô aqui, tô com dois amigos autistas ou tô com dois amigos com TDAH são todos iguais. Cada um dentro do espectro ou dentro até do mesmo espectro tem uma individualidade, algo que um gosta mais e outro gosta menos. É possível? Então a gente não pode como generalizar nunca generalizar nunca nunca. Isso serve pr as crianças também. Então, até eu não gosto muito de fazer essas indicações de, ah, você tem que fazer isso, você tem que fazer tal eh tratamento, porque cada um vai precisar de uma um tratamento específico, de práticas específicas. Então, isso é muito importante, que a gente tenha consciência para que a gente não fique eh lidando como se fosse uma receita de bolo, você faz isso, você faz aquilo e fique se repetindo, né? Até a Duda comentou sobre esses influencers que trazem eh relatos sobre a história de vida deles. A gente não pode se comparar com aquilo, né? a vida deles a rotina deles, né? Então, cada pessoa é diferente da outra. Sim. Agora, uma questão bem importante, essa informação, ela chega de forma diferente para níveis sociais diferentes também? Isso influencia bastante, né? Porque até pensando em acesso, né? o acesso ao tratamento muitas vezes. Então essa parte da comparação, então se uma pessoa tem menos ali recursos financeiros, né, de acessibilidade, ela assiste ali um vídeo, ela fala: "Ah, eu preciso disso". Mas qual é o caminho que essa pessoa percorrer para conseguir alcançar aquilo? A gente precisa, né, ter esse cuidado e até nas pessoas que divulgam esse tipo de informação na internet, cuidado para quem você tá propagando isso. Sim. se é uma criança, se é um adolescente, muitas vezes em situações de vulnerabilidade, passando por alguma outra condição. Então, dessa forma, a gente tem um aspecto que trata da saúde, mas também que trata da questão social de cada um desses indivíduos e dessas famílias. Mas e aí, pra gente encerrar, eu queria que vocês falassem, cada uma de, na visão de vocês, que cuidados que as pessoas devem ter. quando elas consomem qualquer tipo de informação, principalmente relacionada às neurodivergências. Duda, eu acho que precisa, né, ter um cuidado muito grande para não cair nessa banalização, para não cair, né, de que tudo é lindo, de que uma romantização daquilo. Então, precisa, né, sempre buscar a veracidade dos fatos, do que tá sendo dito. Mas eu também acho muito importante junto com essa identificação buscar, né, um profissional, buscar ajuda para aquilo e junto com, né, as festas de diagnóstico, seriam válidas se elas fossem também faladas sobre o diagnóstico em si, né? Então não adianta nada chegar, fazer uma festa, ru tem autismo, tá? E aí as pessoas que estão nessa festa não sabem o que é e não sabem o que é o autismo em mim, para mim. Então, como Duda, o que sou eu e o que é o autismo, não tem como fazer essa separação. Então, cada pessoa é única. Então, você que tem esse diagnóstico, né, você precisa conversar com as pessoas à sua volta para falar suas dificuldades e para que elas consigam também te ajudar. Inclusive, você escreveu sobre isso. Sim. Queria que você falasse um pouquinho, né, a partir dessa sua experiência, dessa sua vivência, como é para você? Sim, eu escrevi o meu caos antes do meu diagnóstico e foi muito difícil, né, eh, não me reconhecer nas pessoas a vida inteira, olhando pras minhas amigas, mudei de cidade, fui fazer faculdade, pessoas novas e mesmo assim eu não me reconhecia. Então, parecia que tinha algo errado comigo, algo que algo quebrado. Então, a escrita foi algo terapêutico, sem nem saber. E eu fui escrevendo sobre os meus sentimentos, as minhas dificuldades, as minhas vontades, né, de conseguir me olhar nos olhos, porque é muito difícil para mim olhar as pessoas nos olhos, mas me olhar também é muito difícil. Então, estar na frente do espelho também é muito difícil. Eu vi inclusive que você colocou no Instagram e a gente conversou sobre isso. Olha como a gente precisa também ter essa empatia que você coloca no seu Instagram, psicóloga e autista. Aí a gente ficou, gente, mas a gente vai colocar no GC dela, psicólogo, autista, será que não vai? A gente não vai criar um estigma até fala pra gente, então se eu dizer, olha, ah, Maria Eduarda, nossa convidada, é psicóloga e autista, tô criando um estigma ou não? É porque a gente precisa saber. Antigamente a gente não falava, vai a pessoa deficiente, não é pessoa com deficiência, é portadora, não. Quem porta alguma coisa tira. Eu eu lembro que uma vez eu tive inclusive essa explicação. E no caso diga qual é a maneira que você quer ser chamada. Eu acho que é uma forma de me enxergar e das pessoas me reconhecerem no mundo. Então, eu não sou psicóloga, sou uma psicóloga autista e eu acho que isso carrega toda a minha trajetória, tá certo? Então, muito obrigada pela sua participação. E Débora, você, o que você diria todo nesse contexto para quem tá lá em casa assistindo? Eh, quando a gente pensa nessa, nesse monte de informação, escutem as pessoas, escutem as pessoas autistas, escutem as pessoas neurodivergentes. Eu acho que esse é o ponto principal. e procurem saber quais informações são as melhores. Eh, pesquisem as revistas que saem essas informações, procure esses profissionais que estão eh divulgando isso, procurem saber se eles estão eh se eles estão trabalhando com isso, se eles são realmente pesquisadores dessa área. Acho que esse é o ponto principal, tá certo? Então, muito obrigada também. Olha, e a gente encerra por hoje o estúdio Câmara. Lembrando que segunda-feira nós temos às 8 horas da manhã um encontro marcado aqui na TV Câmara Campinas. Eu desejo a você um bom fim de semana e já vou dar um spoiler aqui. Olha, nós vamos falar na segunda-feira qual é o limite da confiança em vários modelos de relação: trabalho, social e familiar. Confiar é indispensável para construir relações, mas a confiança não significa necessariamente ausência de limites. A a gente quer falar justamente sobre a diferença entre confiança, controle, ciúme e invasão de privacidade. Então, segunda-feira eu espero você aqui na TV Câmara Campinas. Até um próximo estúdio Câmara. [música] [música] [música] [música] [música] [música] [música]