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Olá, muito bom dia para você. Seja muito bem-vindo TV Câmara Campinas. Estamos chegando mais uma edição do Estúdio Câmara. Hoje, sexta-feira, dia 10 de julho, e um feriado prolongado. Você que tá em casa, vamos aprender, porque hoje nós vamos falar sobre um hábito cada vez mais presente na nossa rotina, usar o celular, mas isso enquanto nós estamos realizando outras tarefas, né? Quem nunca respondeu uma mensagem enquanto assistia a televisão ou até interrompeu uma leitura para conferir uma notificação? O celular ele facilita a nossa comunicação, ele ajuda no trabalho, ele coloca informação na palma da nossa mão. Mas ele também levanta uma preocupação crescente, a dificuldade de manter a atenção por períodos mais longos. Nos últimos anos ganhou força a expressão atrofia da atenção. Não é um diagnóstico médico, mas é um termo usado para descrever os efeitos do excesso de estímulos digitais sobre a nossa capacidade de foco. Será que o cérebro consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo? Alternar constantemente entre os entre os aplicativos e as atividades acaba prejudicando a nossa produtividade. E como que a gente faz para encontrar um equilíbrio em um mundo cada vez mais conectado e corrido, automatizado? Essas e outras questões serão debatidas hoje aqui no programa. Nós já estamos com os nossos convidados. Daqui a pouquinho vamos apresentá-los, mas antes vamos com a previsão do tempo para este fim de semana. Vamos lá então para previsão para hoje, sexta-feira. Dia lindo, céu, olha só, ensolarado, céu azul, mínima 10, máxima 26º. Então, uma ótima seesta para você. No sábado, teremos aí sol com algumas nuvens durante o dia e aí nós já vamos receber algumas nuvens. Então, à tarde o céu fica um pouco mais nublado, ou no sábado mínima 12, máxima 28. E aí no domingo, o domingo começa com sol, porém temos pancadas de chuva de manhã e à noite com chuva forte aqui na nossa metrópole. Mínima para o domingo, 15, a máxima 21º. Então a gente tem a sexta-feira linda, ensolarada, sábado mais nublado e o domingo com a previsão de chuva. Essa é a previsão do tempo para o nosso fim de semana. E agora sim, vamos ao nosso tema central. Estamos falando eh da tecnologia, que é muito importante na nossa vida. Não tem mais volta, a gente precisa aprender a lidar com tudo isso. E a tecnologia transformou profundamente a forma como a gente trabalha, a gente estuda, a gente se relaciona. Hoje é possível resolver questões profissionais, conversar com amigos, fazer compras, consumir informação usando apenas um aparelho que cabe no bolso, né? Mas enquanto a tecnologia avança, cresce também uma preocupação com os efeitos da hiperconectividade sobre o funcionamento do nosso cérebro. Pesquisadores vêm observando mudanças nos hábitos de atenção da população e acabam discutindo como a exposição constante a notificações, vídeos curtos, aquela dopamina barata que a gente sempre fala aqui e múltiplas telas podem influenciar nossa capacidade de foco. Será que a gente tá perdendo o foco? Será que nós estamos realmente aprendendo tudo aquilo que a gente visualiza? Então, para entender melhor esse cenário e descobrir como encontrar o equilíbrio entre a conexão e o bem-estar mental, a gente vai conversar hoje sobre a atrofia da atenção com a neuropsicóloga Karina Valim. Seja muito bem-vinda, presente aqui com a gente no estúdio Câmara. Bom dia. Bom dia, Rúber. Obrigada pelo convite. Muito obrigada a você por se fazer presente com a gente para nos explicar sobre essa atrofia da atenção e para participar com a gente também através do Zoom. Nós recebemos o neurocirurgião Normando, Normando Guedes. Seja muito bem-vindo, Normando. Obrigada pela sua participação. Bom dia. Bom dia. Obrigado, Rúbia. Obrigado, Karim, pela presença. Muito bem. A gente precisa saber o que está acontecendo com o nosso cérebro, né? Então, a gente já direciona paraa Kina. Quando os especialistas falam, Karina, em atrofia de atenção, ã, como que você explica pra gente? A gente tá realmente perdendo a nossa capacidade de manter o foco? Sim. Uau! Acho que a resposta é mais rápida é essa, né? Sim. Eh, a gente tem uma tivemos uma mudança comportamental muito grande na capacidade da manutenção da tensão. Uhum. Eh, com a entrada dos eletrônicos, com o uso sobretudo do smartphone, né? Ã, e aí hoje a gente tem uma geração que viveu antes do smartphone e sabe como era a tensão, né, analógica, né, que a gente fala. E temos agora uma geração de crianças e adolescentes que já entra nesse universo eh desde a, né, desde o início, já convive com o telefone desde sempre e está modulando a sua atenção de uma outra forma. Então, hoje, eh, o comportamento com a presença do celular com certeza afetou a atenção de todos. Agora a questão é para onde nós vamos com isso, né? Como vamos fazer pro aprendizado? Como vamos fazer com a memória? Então, a partir de agora, eh, o tá aqui, né? O celular já existe. Sim. Como vamos administrar isso para que não haja um prejuízo assim tão grande eh dessa atenção e a gente consiga ainda eh fazer o que precisa fazer, né, com com qualidade, aprender, enfim. Ex. Pois é, né? É algo assim que foi chegando, né? A tecnologia ela foi chegando, foi chegando e a gente eh eh nos adaptando e não tivemos tempo de estudar sobre, né? Então, as coisas estão acontecendo, nós estamos estudando, estamos aprendendo, ã, de maneira com que a tecnologia vai avançando. E quando a gente acha que is já aprendeu, você olha, a tecnologia, ela tá a anos luz de distância da gente novamente. Então, a gente precisa aprender. E um diálogo desse de hoje aqui do estúdio Câmara é sim pra gente tentar entender o que acontece com a nossa mente, essa questão do nosso foco que a gente tá perdendo e do nosso aprendizado. Será que eh quando a gente fica no celular rolando aqueles vídeos, a gente consegue absorver realmente o que aqueles vídeos estão passando pra gente? Você lembra quando você rola o feed? Você lembra o que que você viu? faz um teste, porque agora a gente vai conversar com o nosso neurocirurgião Normando e ele vai explicar pra gente, Normando, o que que acontece, doutor, no nosso cérebro quando ele passa o dia recebendo notificações e centenas de estímulos diferente. A gente está em constante aprendizado ou a gente realmente perde o foco? a gente realmente perde foco. Vamos usar o termo que você usou no começo do programa, que é dopamina barata. Na verdade, existe uma uma coisa real nos algoritmos das redes sociais, do YouTube, do Instagram, que tem muito a ver com essa busca pela dopamina que a gente impõe ao nosso cérebro. Esses algoritmos eles são programados para capturar a nossa atenção. E a nossa atenção é como se fosse uma lanterna de tudo que tem na nossa vida. Você vai para onde a sua atenção for. Então o algoritmo consegue capturar aquele vídeo que você prestou mais atenção, às vezes por uma por um mecanismo de tempo, às vezes por perceber o a movimentação ocular e com isso consegue direcionar mais vídeos que são satisfatórios para você. E com isso você passa horas escrollando uma tela, recebendo de novo aquela dopamina barata que vem que vem sem esforço algum. E com isso você consegue eh passar o dia inteiro sem ver o tempo passar. Você não se concentra nas suas atividades, você perde desempenho no trabalho, você perde desempenho social, você perde tempo, que é o ativo mais importante da nossa vida, simplesmente parado, escrollando a tela. Isso destrói sua atenção. O termo atrofia da atenção é uma metáfora para nos dizer que a gente tá treinando distração no nosso cérebro. A gente treinou o nosso cérebro ultimamente para se distrair o tempo inteiro, para não ficar entediado, para sempre buscar uma forma de ter uma recompensa, algum tipo de prazer barato. Excelente, doutor. A gente costuma dizer que a gente tá ocupado, né, o tempo todo, mas será que esse estar ocupado significa estar atento, né, ou a gente tá apenas pulando de uma tarefa para outra sem aprofundar em nenhuma delas, né? Esse mito da multitarefa, Karina, existe uma diferença entre a gente estar ocupado e estar verdadeiramente concentrado, né? são coisas completamente diferentes. Eh, você pode fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Então, eu posso estudar e ouvir música, eu posso ler alguma coisa e, enfim, tá, né, fazendo ali eu conversar rapidamente com alguém e voltar isso ou fazer na no próprio do meu próprio trabalho. Tô ali respondendo o e-mail, eh, tô eh separando ali alguma coisa que eu preciso fazer ou anotando alguma coisa aqui do lado ou atendo um telefone. Isso aí é o multitarefa, eu consigo ou presto atenção aqui no que eu tô fazendo no computador e alguém me chama ali, né, no escritório, eu consigo responder e volto, mas é o mesmo tema. Isso é fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Agora, outra coisa é você desperdiçar a sua atenção num estímulo que naquele momento para você é irrelevante, não é necessário. Então, um exemplo, muitas pessoas têm o hábito às vezes de quando está trabalhando não deixar o chat de conversa aberto, né, desses aplicativos falam: "Olha, eu tô ali trabalhando, eu não vou deixar, enfim, seja qual for o chat de conversa que ela use para trabalhar para porque me atrapalha, né? Isso é um exemplo. Aí a outra pessoa está trabalhando e deixa ali as notificações aparecendo no celular do lado. Quem vai render melhor? Quem está ali com as notificações, mesmo que seja, às vezes pode ser ligado até ao trabalho. Quem tá ali com as notificações toda hora ou esperando, só o fato de você estar esperando que alguém pode te chamar, já te divide a atenção, já come a tua energia, né? já deixa você com uma atenção ali prejudicada só o fato de você esperar a notificação. E dentro disso tem um estudo que fizeram, que eu queria compartilhar eh com vocês, que é muito interessante, de 2017. Eh, é um estudo que fizeram três situações com as pessoas. Uma era uma pessoa tinha um celular ao lado, né, da mesa de trabalho, a outra tava com o celular na bolsa. né, guardado e o outro estava com um celular, um outro grupo tinha um celular em outra sala. Quem vocês acham que respondeu melhor a atenção? Teve um desempenho melhor atencional, né? Tudo igual, mais ou menos. As pessoas que tinham celular na outra sala responderam muito melhor, né? tiver uma atenção muito melhor. Então mesmo na bolsa, mesmo um pouco, né, ali, mas você sabe que pode fazer um barulho, pode vibrar ou tem a expectativa de, ah, eu posso receber uma notificação a qualquer momento, só isso já diminui seu desempenho atencional. Uau! Olha só que experiência interessante, né? E isso a gente pode trazer pro nosso dia a dia. Agora, doutor, o nosso cérebro, ele realmente faz várias tarefas ao mesmo tempo? Eh, essa troca de foco, né, eh, rápida que nós estamos eh eh tendo ultimamente, isso vai trazer alguma consequência lá na frente? Eu vou pegar o gancho da Dra. Karina, que falou uma coisa absolutamente verdadeira. A tensão é energia. Pra gente prestar atenção em alguma coisa, a gente precisa despender energia e fazer com que uma parte do cérebro, que a gente chama de córtex pré-frontal, anule outros estímulos para que você consiga se concentrar naquilo. Então, cada vez que você muda de tarefa, você no mínimo está pagando um pedágio. E os estudos mostram que você gasta pelo menos 40% do tempo a mais quando você divide a sua atenção. E o que a Dra. A Carina falou também é super importante. Estar ocupado nem sempre é estar concentrado. Então quando você tem várias telas dividindo a sua atenção, o seu desempenho naquelas duas tarefas invariavelmente vai cair. Ah, mas eu tô bem adaptado a isso. Eu trabalho dessa forma, é assim que eu gosto de fazer. Tudo bem, é aceitável e às vezes é a forma como você se adapta para fazer aquilo, mas do ponto de vista neurobiológico, pensando no nosso cérebro como um órgão, isso não é a melhor forma de trabalhar, e sim de você tentar fazer uma tarefa de cada vez, sem pagar esse pedágio de energia que a gente paga cada vez que a gente troca de tarefa. Então, é muito importante entender que a tensão é energia. E quando a gente divide nossa tensão, a gente divide nossa energia. Logo, o resultado que a gente vai ter em cada tarefas não vai ser igual ao que a gente teria quando a gente executa cada tarefa separadamente. Uau! Muito bem. E as pessoas falam assim: "Ah, eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo, né?" E aí quando o doutor fala de executar cada tarefa separadamente, muita gente acredita que, vamos colocar assim um exemplo bem que acontece no dia a dia, né, que consegue dirigir, responder mensagem de áudio, prestar atenção no trânsito ao mesmo tempo, mas os acidentes mostram outra realidade pra gente. Doutor, o que que acontece nesse momento que a gente tá no trânsito na direção e insiste em responder mensagem? Ou então pelo simples fato, como a a nossa eh neuropsicóloga trouxe, o simples fato de você estar na expectativa de receber uma mensagem, isso já altera a nossa atenção? Absolutamente. Ah, voltando um pouco para aquilo que você falou no começo da dopamina, né? A dopamina é uma molécula de antecipação, é aquela molécula que teu cérebro dispara quando tá esperando uma recompensa. Então, a gente tá sempre nessa busca incessante por ah um novo estímulo que seja de alguma forma recompensador ou prazeroso. E quando a gente tá no trânsito, existem duas coisas. Dividir a nossa atenção, obviamente, tem um prejuízo eh cerebral em termos de reflexo, em termos de atenção, porque a gente não tá prestando atenção naquilo logo. O meu tempo de resposta, por exemplo, para frear o carro e evitar um acidente, ele ele é prolongado, ele é alongado. a gente vê que o celular tá se tornando cada vez mais a principal causa de acidentes de trânsito, já tá superando praticamente o álcool em termos de eh incidência de de acidente de trânsito. A gente não tem esse número brasileiro ainda, mas outros países que conseguem mapear isso já mostram que o celular hoje é uma das principais causas de acidente de trânsito. A segunda coisa é que tem uma variável física, né? Então, se eu tô tirando o meu olho da da direção e durante 2, 3 segundos direcionando a minha tensão para lá, quando eu volto, eu perdi aquele tempo. Um carro a 60 km/h, ele vai andar a 100 m praticamente em 2 segundos. Então, a gente precisa ter uma ideia clara, né, que a gente não somente tá tirando a nossa atenção, mas como a gente tá colocando a vida de outras pessoas em risco. Você pode não ter tempo para frear, você pode precisar. Quando volta a sua atenção pro trânsito, a o seu tempo de resposta não será o mesmo para você executar uma tarefa reflexa, como frear o carro, por exemplo. Exatamente. A gente tem sido dominado, né, por essa tecnologia. Qual que é a sua avaliação eh sobre isso? Porque é impressionante. Quanto você menos espera, você se pega olhando no celular. A minha sensação, Rúbia, não sei se o Noberto compartilha disso, mas assim é como se a gente tivesse que reinstalar o programa, sabe quando eh no computador entra um vírus e ele fica rodando ali tudo bagunçado, desconfigurado? Eu acho que tem uns que ficam mais desconfigurados, outras pessoas menos desconfiguradas. Existe o vício no celular, né, que é tem um nome, isso, né, tem eh inclusive eh no ambulatório do Hospital das Clínicas em São Paulo, do Instituto de Psiquiatria, tem um espaço ambulatório só para cuidar do vício em em celular, né? Chegamos a esse ponto de ter assim como tem vício para jogo, para a outras coisas, tem vício no celular e as pessoas vão fazer um detox da tecnologia, né? É sério demais. é sério demais. Então assim, eu acho que eh deu uma ele desconfigurou um pouco o que nós estávamos acostumados a ter de atenção, a ter de, né, capacidade de executar a tarefa. Então, hoje precisa tomar muito cuidado para que isso não eh faça eh parte tanto da nossa vida que a gente não consiga mais render e fazer o que precisa fazer. O exemplo do trânsito é excelente, porque eh você hoje tem que dirigir por você, sempre foi assim, né? Assim, você tem que dirigir por você e pelos outros, mas agora, mas hoje mais do que nunca, porque de repente você não sabe se a pessoa do carro da frente vai olhar alguma coisa ali entre dirigindo ou não, né? Que seja para olhar o Google. Às vezes a pessoa tá olhando o Google Maps ali, o, ou o, enfim, o aplicativo que ela usa para caminho e divide ali um pouco a tensão e de repente não vira no momento ou dá uma freada que não é esperada. Então assim, tem que tomar muito, muito cuidado. O que eu acho é que nós temos que nos policiar hoje, temos que ter uma mudança comportamental que é isso, eh, eu preciso preservar o meu tempo de alguma forma. Uhum. E existem algumas técnicas para preservar o tempo, né, de de algum jeito. Então, por exemplo, tem lá a técnica pomodoro, que é uma delas, né? Eh, você separa 25 minutos sem interrupção nenhuma e fala: "Durante 25 minutos eu vou focar no que eu preciso fazer. Então, eu vou ler, eu vou escrever um texto, eu vou trabalhar, eu vou responder uma coisa, eu vou terminar tais e tais tarefas durante 25 minutos, nada vai atrapalhar." Aí depois eu faço 5 minutos de folga, né? Que que é isso? Tá, eu vou descansar, eu vou relaxar, eu vou olhar a notificação só nesses 5 minutos, acabou, depois eu tenho essa disciplina de guardar e aí depois mais 25 minutos eu trabalho de novo. Então assim, é um jeito, né? Não é a solução, mas é uma estratégia para tentar recuperar essa capacidade de atenção e de você não ficar rendido a tal da dopamina barata aí, como vocês colocaram, o doutor colocou. Muito bem, a gente tá falando aqui da atrofia da atenção. Nós estamos hiperconectados, super conectados e de repente desconectados de nós mesmos, né? Quando a gente coloca eh a o exemplo do trânsito, lembrando que não é só para motoristas, né? Quantas pessoas têm atravessado a rua olhando o celular, com fone no ouvido, escutando uma música, lendo uma mensagem e sequer ouvem o barulho do trânsito, né? E a gente precisa estar atento porque estamos colocando a nossa vida em risco por conta de uma tecnologia, por conta de algo que está chamando a nossa atenção, que não é o aqui e o agora. Porque quando a gente fala de trânsito, a gente precisa cuidar muito sobre isso. Agora, eh, doutor, os sinais, né, que a gente pode ter no início, quando a gente começa a a perder um pouquinho o foco do aqui e do agora e que a gente fica muito dentro eh do celular, né? A gente não tá vivendo o que nós precisamos viver, que é o hoje, que é o trânsito, que é de repente a cozinha. Vamos, vamos pra cozinha agora. Quantas vezes, né, você aí de casa já queimou o arroz, já deixou o bife, ó, ficar duro lá na panela, porque você deixou a sua cozinha e foi olhar uma notificação rapidinho, mas o tempo passou tão rápido que você não percebeu, porque para você tava tudo tranquilo. Essa distorção de tempo, doutor, o que que acontece? Como é que a gente consegue eh entender que nós estamos precisando parar, parar com essa conexão, né, que está nos fazendo mal? Olha, essa é uma pergunta muito interessante, muito provocadora. A primeira coisa, eu queria pegar um gancho com que a Dra. Karina falou agora a pouco em relação a essas mudanças da nossa estrutura social. E a verdade é que quando a gente pensa, Rúbel, o cérebro como um órgão, a gente tem que pensar que a tecnologia ela evolui muito rápido. Uhum. E ela traz mudanças à nossa cultura. As mudanças culturais trazem mudanças na sociedade. E as mudanças na sociedade a muito longo prazo vão trazer mudanças no cérebro. Só que as coisas estão mudando cada vez mais rápido e o nosso cérebro fica em descompasso com essa tecnologia. E o que é que isso vai trazer pra gente? Eu vejo aí duas coisas. Primeiro são é o problema da atenção e o segundo é o problema da memória, que também tem muito a ver com a própria atenção. Aí eu vou destacar dois grupos em especial pra gente poder perceber o quanto isso é problemático. Hoje a gente tem aí uma epidemia, entre aspas, de crianças com problemas de atenção. Quanto disso tá relacionado à exposição precoce à telas, por exemplo. Quantas vezes a gente vê crianças que são super expostas a esse estímulo, a esse super estímulo das redes sociais, a vídeos curtos e que acabam tendo prejuízos cognitivos e atencionais. Segundo, a gente não sabe como essas crianças vão evoluir a longo prazo. O nosso córtex pré-frontal, que é o maestro da atenção, como eu comentei anteriormente, ele só é formado completamente aos 25 anos, mais ou menos. Logo, expor essas crianças muito cedo a esse tipo de estímulo pode trazer prejuízos que podem vir a ser irreversíveis e a gente não tem ideia do que tá acontecendo. O que a gente vê é uma geração muito ansiosa, uma geração que não não presta atenção em nada e que quando a gente olha para o outro extremo de de idade, como os os idosos que também estão usando e abusando das redes sociais, abusando do do do dos vídeos curtos, do celular, das mensagens rápidas o tempo inteiro, a gente vê aí uma outra queixa que não é mais sobre atenção, é sobre memória. E a gente já vê aí surgimento de pseudodemências, ou seja, quadros que trazem prejuízos cognitivos quase como uma doença neurodegenerativa, mas que obviamente são reversíveis, mas que são causados pelo excesso de rede social, pelo excesso de estímulo eletrônico. Então eu vejo dois grandes grupos em risco, crianças e idosos, mas a gente é que tá vivendo exatamente esse momento de transição. E a nossa vida também tá sendo afetada o tempo inteiro por isso. Então a gente percebe esse prejuízo, Ruber, a partir do prejuízo cognitivo e atencional nas nossas crianças, a partir da nossa perda de desempenho no trabalho e a partir do prejuízo de memória que a gente tem na população idosa. Muito bem, crianças e idosos, né? A gente falando do dia a dia, eh, do trânsito, do pedestre. E aí o doutor traz pra gente eh eh esse posicionamento aí das crianças e dos idosos. As crianças nasceram, as crianças de hoje elas nasceram conectadas, Karina, né? E e como faz? E aí, como é que o que que a gente tá fazendo? É incrível os dedinhos, né? os dedinhos na tela ali, eh, tendo aquela sensação da dopamina barata, eles eles já vê com essa essa sensação desse bem-estar, entre aspas. Como é que vai tirar isso, né, se não tiver um uma análise profunda, um entendimento eh disso? Porque essa criança, como vai ser o aprendizado dessa criança na escola? O que que você traz pra gente? Qual que é o impacto do aprendizado de uma criança que já nasceu conectada, que ela tem a convivência com o celular? a gente sabe e da correria da mãe, né, do dia a dia da família e que de repente entrega o celular para que essa criança possa ter um entretenimento, mas as coisas precisam ter equilíbrio e a gente perde esse equilíbrio e essa criança ela vai crescer, ela vai pra escola e aí ali vai de repente sentir o impacto dessa hiperconectividade que ela teve lá no início da vida. Difícil. Uau! Toda quando você tava falando, eu tava lembrando, a criança que nasce conectada, tava lembrando de um meme que circulava há um tempo atrás, que a criança dava um livro para ela, ela tentava abrir a a página, né? É verdade. Tentava aumentar, passar para lá no livro de papel, né? No livro físico e que assim eles é o que tão acostumados, né? Eh, eu vou dar um exemplo muito assim, eu atendo muitas crianças, né? Então assim, quando as crianças chegam ou ou chega essa queixa comigo, né, no meu consultório, a primeira coisa que eu faço, além de perguntar toda a anamnese e desenvolvimento, é qual o tempo de tela dessa criança? qual o tempo que essa criança fique em eletrônicos, porque dependendo do que a família for falar para mim, eu já tenho ali um outro eh uma outra variável muito importante que eu preciso levar em consideração antes de começar qualquer estruturar qualquer raciocínio clínico. Então assim, se a família falar para mim: "Ah, durante o período, vai de manhã na escola a tarde toda, tá 2 horas, 3 horas no videogame, ah, fica no celular e tal, ai, mas ele não está conseguindo fazer lição de casa, ela não consegue fazer a lição de casa." Eu falo, mas como que faz? Ah, eu tiro um pouco o celular e tal. Não vai fazer, né? Então, aí vai acumulando a dificuldade, né? Num conteúdo, vai acumulando o conteúdo, perde o fio da meada e dependendo da idade, a criança vai ficando para trás. Aí aparece como um problema de aprendizagem, uma questão que foi ali da energia, né, que a gente estava falando, atencional que devia estar direcionada para coisa certa com menos distratores. É um desafio, inclusive para os professores dentro da sala de aula. As crianças hoje elas não estão tolerando tarefas muito longas dentro da sala de aula. Então, o que eu vejo são as escolas muitas vezes hoje tentando customizar currículos ali, né? Ah, não posso dar uma aula de tanto conteúdo, tanto tempo, porque senão ninguém absorve nada. Então, eu tenho que fazer rotações em estações. Aprende um pouco ali, aprende um pouco aqui, muda a atividade. E eu me pergunto, uma pergunta, será que isso é bom? Uhum. Ou será que isso não é fomentar também uma uma atenção dividida? Estamos ensinando as crianças que a coisa só vai funcionar com uma atenção dividida, né? Mudando de tarefas ou alternando muito. Será que a gente não tem que voltar um pouquinho a insistir mais em fazer essa higiene da tensão, vamos chamar assim, para poder manter mais tempo, né? e trazer a criança de novo para manter um pouco mais de tempo para ela prestar atenção naquilo que está sendo falado pelo professor, ler um texto. Hoje as crianças para ler alguma coisa, né, elas já, ai, não quero, não vou conseguir e tal, mas para ficar um tempão ali vendo o vídeo, aí consegue, né, porque é mais rápida a informação, o ler precisa. Então, acho que precisamos avaliar muito eh tanto como está o dia a dia dessa criança, né? Se não tem excesso de estímulos ou muito tempo em tela, já sabemos que não é bom, né? E existem telas diferentes, né? Quando a gente fala muito tempo em tela, acho importante falar isso. Uma coisa é o celular e os vídeos curtos. Outra coisa é assistir lá um filme ou por um tempo, né? mais tempo, conseguir prestar 40 minutos atenção num tempo, num jogo, como a gente tava comentando aqui um pouco antes, né? Quantas pessoas agora na Copa do Mundo tavam assistindo o jogo? O jogo tem 45 minutos, né? Apesar que já fizeram uns breaks aí também, que eu tenho a minha opinião a respeito desses breaks que eu acho que o pessoal não também conseguir prestar atenção. 25 minutos de vídeo além da publicidade e tudo, mas as pessoas não estavam olhando 90 minutos de jogo direto ali. Todo mundo pegou o celular para olhar, criança, adulto, idoso, todo mundo. Então assim, a gente não consegue mais. Antes a gente conseguia, então o que que o que que acontece, né? Essa é uma uma questão assim, é o que que está faltando, o que que está acontecendo com a gente, né? Porque daí, ô doutor, a gente, o cérebro ele permanece em alerta o tempo todo, né? Se a gente para para analisar isso que a Karina trouxe, ah, é um alerta 24 horas, né? E até para dormir, porque de repente você dorme pensando na mensagem que você não recebeu. Qual que é o impacto eh desse cérebro ativo durante o tempo todo? mais ativo em forma de alerta mesmo, por conta da tensão dividida, né, dessa desse hiperfoco, dessa hiperconectividade com o celular. Doutor, existem várias dimensões desse impacto. O primeiro é o prejuízo cognitivo e atencional, como a Dra. Carina trouxe. Eh, é muito importante a gente entender que o nosso cérebro não foi feito para ficar ligado o tempo inteiro. Nós temos aí um um mecanismo neurobiológico que nos faz descansar, que é o sono. Por exemplo, se o sono não fosse tão importante, a gente teria sido eliminado ah muitos anos atrás enquanto espécie, né? Porque nós somos uma espécie que teoricamente um terço nosso tempo a gente passa dormindo. Então a gente passa dormindo porque a gente precisa e o nosso cérebro precisa desconectar. O sono é um processo ativo. A sua noite de sono de hoje, Rubert, ela não vai começar às 9:30, 10 da noite, quando você for dormir. Ela vai, ela começou já hoje de manhã. A sua noite de sono é reflexo do seu dia. Se o seu dia foi o dia de scrolar a tela o dia inteiro, 7, 8, 9 horas de tela, isso não é incomum, tá? peguem pessoas da família de vocês e pede para ver o celular assim do do seu pai, da sua mãe. Deixa eu ver o celular, quanto tempo você tá usando por dia. Você vai ver que é um número assustador. O seu próprio celular vai tá com um número assustador de horas de consumo. Isso vai impactar no na ativação dos nossos sistemas de alerta. Quando a gente vai se aproximando do horário de dormir, por exemplo, a própria luz azul, ela inibe a produção de melatonina. A melatonina que muita gente associa como um suplemento do sono, né? Na verdade, a melatonina é um hormônio do escuro. A melatonina é uma molécula que sinaliza pro nosso cérebro que escureceu, que acabou o dia e que tá na hora de começar a pensar em se recolher. E quando você fica o tempo inteiro com aquela luz azul ao longo do dia ou fica até os últimos minutos, você tá na cama usando o celular, você inibe a produção desse hormônio e a sua noite de sono, ela não vai ter o mesmo desempenho, a mesma eficiência que ela teria. Mesmo que você consiga dormir, a arquitetura do sono, ou seja, as fases do sono, elas não são as mesmas, né? Na minha prática, eu eu sou neurocientista que trabalho no no Instituto Cé do Rio Grande do Sul, né, com com a parte de pesquisa em epilepsia, mas no meu dia a dia como neurocirurgião, eu trabalho com dor. E a gente percebe exatamente isso. O cérebro de alguém com dor crônica é um cérebro que é o tempo inteiro hiperativado. É como se um alarme tocasse o tempo inteiro. A atenção dessa pessoa, ela é prejudicada por conta disso. E a mesma coisa vai acontecer com pessoas que ficam o tempo inteiro utilizando recursos de, entre aspas, dopamina barata, né, para usar o seu termo, eh, dopamina barata, buscando, eh, vídeos curtos e tudo mais. Tem alguns estudos, Rubber, que mostram, por exemplo, que 15 anos atrás, o nosso tempo médio num vídeo na internet era de 2 minutos e 47 segundos. Hoje a gente tá em torno de 48 segundos. a gente não consegue mais manter a nossa atenção. Em parte isso se isso é um reflexo desse comportamento de sempre tá buscando aquilo que nos é mais satisfatório. Mas tem que temos que entender que por trás disso tudo existem algoritmos e agora com a inteligência artificial ainda mais, mas os algoritmos são capazes de entender onde tá indo a sua atenção e te dar exatamente aquilo que você tá gostando cada vez mais. Por isso, quando você tá olhando um vídeo, você acaba mergulhando numa bolha. você olhou um vídeo um pouco mais, ele vai te mostrar logo daqui a pouco outro vídeo, outro vídeo, outro vídeo e você acaba sendo eh engolido por aquela aquelas aquele conteúdo, entendeu? É isso mesmo. Acho que a palavra é essa, né? a gente acaba sendo engolido mesmo por aquele conteúdo. Você você perde a noção do tempo, perde a noção de quem está ao seu lado, você fica ali engolido por aquele conteúdo impressionante e assustador quando a gente para para analisar o nosso ciclo vicioso. E aí quando falamos do o doutor falou do sono, Karina, o sono, tá? Eu não consegui dormir ou então não tive uma qualidade de sono legal. Isso vai refletir lá no estudo da criança, do adolescente, vai refletir no meu comportamento, vai refletir no meu trabalho, vai refletir no trânsito, eu vou est ansioso, vou estar estressado, beleza, cheguei em casa, consegui levar o dia, uau, aí vou dormir novamente, pego o celular, vou lá, dopamina barata, luz azul, vou, sou vencido pelo cansaço e isso se torna um ciclo vicioso, isso vai explodir, isso vai estourar em algum momento. Como é que fica a nossa saúde mental lidando com tudo isso? Me conta. Ansiedade, depressão, frustração, euforia, como é que a gente faz com tudo isso? É, eu queria pegar um gancho do que o Dr. Norberto falou, é do sono. Uhum. O sono ele é fundamental. Fundamental. E assim, existem muitas pessoas hoje que falam: "Dormi, mas acordei cansado". Sim, verdade. Ah, eu dormi, eu acho que dormi bem. Não acordei à noite não, mas acordei cansado. Uhum. Por quê? Existe o sono de qualidade também. Não adianta você, ah, dormir, deitei tantas horas, fiquei deitado 7 horas, 8 horas, né? Então, tá bom. Mas qual foi a qualidade do sono? Você dormiu de fato? Foi um sono leve? Foi um sono agitado, né? Acordou várias vezes durante a noite mesmo? recuperou de novo, dormiu mais um pouquinho, mas foi um sono fragmentado. Isso não é bom, né? Eu acho que o Dr. Norberto pode até falar melhor depois sobre isso, mas é um sono que não é reparador, não te recupera, né? E e se a pessoa ainda tem o hábito de levar o telefone ou estar com o telefone do lado da cabeceira ali, lembra que eu falei lá no começo sobre as notificações? A notificação, eu fico, eu fico naquela expectativa, alguém pode me ligar na madrugada ou pode chegar uma mensagem ou eu não tô dormindo direito, ah, já não tá bom, deixa eu dar uma olhadinha aqui só nesse nesse videozinho rapidinho. E aí a pessoa de novo já perde um momento precioso de sono. Então assim, às vezes para algumas pessoas, para eu falo: "Olha, tenta deixar o telefone num outro cômodo". Uhum. para você realmente dormir, tira ele do quarto, né? Assim como tem instrução, não tenha televisão no quarto ou tente num, né? buscar computador no quarto. Então assim, faça uma uma higiene do sono, prepare para para ir dormir antes só da hora de dormir. E uma das coisas é deixar isso longe. Eh, a saúde mental que você perguntou, eu acho que ela tá ruim, tá prejudicada, a ansiedade tá demais, né? Tá além da conta, inclusive em crianças, né? Nós temos visto crianças muito ansiosas, crianças com eh labilidade de humor, né, com com transtorno de humor, né, que não seja não é o transtorno em si, mas você vê comportamentos ali exacerbados de algumas crianças em termos de humor que você fala: "Poxa, por que que essa criança tá tão irritada? Por que que essa criança tá com uma laabilidade emocional tão evidente?" E aí você vai ver excesso de dopamina, eh, vai gerando uma criança mais ansiosa, vai ficando deprimida. Se você retira o estímulo, né, eh, fala, ó, não vai mais jogar tanto videogame, fica com raiva, fica, né, como se fosse realmente uma dependência ali já, né, uma coisa assim, não, eu preciso daquilo porque eu já tô eh eh viciado naquele comportamento, naquela forma, naquela atividade de lazer e se eu não fizer aquilo, eu não sei fazer outra coisa. E é muito complicado isso, né? Sobretudo para crianças adolescentes, porque tem isso também, quando a gente tá na tela, a gente fica mais parado, né? Eh, não tem aí inventaram até alguns jogos que tem movimento, tal, não é o o que o povo mais adere. Então, fica muito sentado, aí você fica mais parado, você fica sedentário, você deixa de ter oportunidade de se relacionar, de fazer uma atividade física. Então tem toda essa questão também que é essencial aí para criança, adolescente, para idosos também, né? Muito bem. É, para idosos também, como o doutor muito bem trouxe pra gente, né? porque os idosos acabam eh ficando também nessa questão do celular e quando vê tem o isolamento social, eh tem eh eh a perda, né, dessa capacidade que a gente tem de raciocinar da nossa memória. E a gente precisa cuidar disso. É sem julgamentos aqui, gente, porque estamos passando pela mesma situação. A gente não foi ensinado e a tecnologia ela vem avançando com a velocidade da luz. Então, a gente precisa de orientação. Então, o que que a gente faz aqui? Nós estamos conversando com profissionais que podem nos orientar. De repente, você tá assistindo em casa, você se reconhece no programa de hoje, né? Vamos lá, vamos criar a estratégia para poder diminuir essa e eh essa divisão de focos, né? Focar em uma coisa só, tentar tirar o celular, eu sei que é desafiador. É desafiador e gera uma ansiedade. Agora eu pergunto pro nosso doutor, eh, Normando, por que e o que acontece no nosso cérebro? Eu conversando aqui com esse programa, já com os profissionais que vêm no no programa, doutor, já há mais de um ano no ar, eh, a gente vê o cérebro como algo assim que é cheio de fios, né, conectados e uma desconexão ou um fio encostando em um outro que não era para ter encostado, dá um curto circuito, né? Eu eu acho muito lindo essa anatomia e a forma com que vocês trazem paraa gente como nós funcionamos e essa questão da ansiedade que é gerada pelo estímulo, né, do do da do celular, enfim, das telas. O que acontece dentro da nossa cabeça, no nosso cérebro, por gera ansiedade, a gente precisa reconhecer isso. De que forma a gente pode reconhecer? Acho que é uma excelente pergunta. aquele comentário que eu fiz sobre o descompasso entre a tecnologia e o avanço tecnológico e como isso vem paraa nossa vida e é a evolução do nosso cérebro. A gente tá completamente desconectado em termos de tempo. Mas o que é mais interessante sua pergunta é como é que isso se conecta com a saúde mental? E o mais importante é que a gente entenda que existe um circuito, tá? Existem circuitos cerebrais, só que o nosso cérebro, ao contrário de um computador, de uma placa de silício com bits impressos ali, como é um circuito de computador, o nosso cérebro, ele tem a capacidade de reforçar alguns caminhos ou de diminuir a facilidade de passagem de impulso por outros caminhos. Então, a gente precisa buscar formas de fazer estímulos que reforcem caminhos que sejam positivos, tá? Quando a gente entra nesse ciclo, a gente estava falando de atrofia do da atenção e do celular e da dessa hiperconectividade digital que nós vivemos, isso traz inicialmente um problema de desregulação emocional. Puxando um gancho do que a Dra. Karina falou, a gente tem um detalhe importante aí. A tela é uma coisa, a tela, eu tenho 38 anos. Quando a gente, quando eu era criança, a gente tinha que esperar a manhã inteira eh o horário do desenho animado, por exemplo, e aí vinha blocos de quatro blocos de 5 minutos com intervalo no meio e você ficava ali quietinho, sentado esperando ver o desenho. Hoje a criança ela tem um uma a dedinho que passa para cima ali e ela não precisa mais esperar por nada. Isso diminui a percepção de de a resiliência, na verdade, a capacidade de suportar frustrações. E com isso vai se desenvolvendo um circuito patológico que vai levar à ansiedade. E no nosso cérebro, os circuitos de insônia, depressão e ansiedade, eles são hiperconectados. Depressão, insônia e ansiedade são faces da mesma moeda, digamos assim. Uma coisa vai sempre ou quase sempre coexistir com a outra em algum grau. Então, quando a gente se torna esses seres hiperc hiperconectados, com uma baixa tolerância, frustração, recebendo o tempo inteiro dopamina barata, a gente acaba ah dissociando a recompensa de um esforço e isso traz circuito, isso fortalece circuitos que são circuitos relacionados à ansiedade. essa modulação do córtex pré-frontal, ela acaba se tornando menos eficiente e, portanto, essa criança começa se tornar uma criança ansiosa, daqui a pouco ela consegue, ela não consegue dormir direito, isso vai levando em médio prazo a um quadro depressivo. A gente vê isso acontecer assim em maior ou menor grau. Eu tenho o nove sobrinhos abaixo dos 8 anos de idade e eu conheço exatamente o o o dia a dia deles. Eu sei quem quem é mais conectado, quem é que tem uma mãe mais rígida e que não deixa eles se conectarem com telas de uma forma tão intensa. E a gente vê isso de uma forma muito muito clara. É muito importante regular o tempo de tela, do contrário, a gente vai ter prejuízos da saúde mental e a gente não faz ideia do que pode acontecer na vida adulta ou das consequências que eu posso ter para aquela criança no futuro. Poxa vida, né? é algo que nos preocupa, né? E quando a gente fala eh dessa questão da regulação na tela, Karina, não somente as crianças, claro, as crianças, sim, acho que mas eh nós adultos, porque nós somos espelho para essas crianças, não é? Então, o que as crianças estão vendo, elas estão repetindo e de repente se a gente para para analisar como é que tá a convivência aí na sua casa, né, na nossa casa, nas nossas casas em relação à tela, às nossas crianças e a convivência das pessoas que fazem parte eh eh do mesmo ambiente. Será que nós estamos nos dedicando mais à tela e perdendo o foco do aqui e do agora? Eh, isso é muito importante que você tá falando do comportamento dos pais em relação ao celular. Não adianta nada eu chegar pro meu filho e falar: "Não, vai ficar na tela, você não chega, já ficou muito tal com o meu celular na mão, né?" Daí não fica na tela, eu tô aqui. Não, tô trabalhando, mas você tá trabalhando o tempo inteiro, né? Eh, eu acho que eh temos que prestar atenção nisso. Eh, e é isso, tratar eh como será que eu estou viciado? Acho que a pergunta é essa mesmo. Será que eu perdi o controle? Eu perdi o controle do uso disso? Se eu perdi o controle do uso disso, então eu preciso reavaliar minha rotina, meu dia a dia e restabelecer alguns comportamentos que sejam mais saudáveis. Então, por exemplo, vamos proteger alguns horários, começar com alguns horários na rotina, hora da refeição, ninguém pega celular, todo mundo senta, senta ali para comer, né, e tenha essa essa disciplina de não pegar o celular para olhar nada. Hora que você tá conversando com seu filho, prestar atenção, olhar no olho do teu filho, que ele tá falando e não aqui o tempo todo, você no celular e ah, tá bom, filho, tô olhando. E aí, como que você vai querer, né, que a que o filho responda também se você tá ali com a tensão dividida. Então, ó, o exemplo que você tá dando. São algumas situações muito rotineiras e que às vezes a gente não percebe e habitualmente você vai colocando lá o uso do celular porque já tá acostumado e não percebe o impacto que ele tem no dia a dia. Então, tira em algumas situações, como eu falei do exemplo, né, da de sentar para comer numa hora da refeição ou conversando com o seu filho, tira o telefone, põe no outro lugar, põe na outra sala igual o experimento lá, guarda numa caixinha. né? E tenta eh estabelecer a conversa. A mesma coisa com amigos, né, no almoço. Quantas vezes a gente marca aí com colegas, ah, vou almoçar com fulano, vou almoçar com E aí todo mundo, ah, tô almoçando. Só minutinho. Aí a pessoa começa, pera aí, não, só vou responder isso. Pera aí. E aí, você tá com a pessoa, você tá almoçando, você tá ali, você não tá, você tá no encontro e tá ali, né, olhando outra coisa. Então isso tem um impacto no até no social, no que a gente eh eh na forma que a gente se apresenta para o outro e é muito complicado. Eh, precisa fazer essa autoavaliação, uma autoavaliação e de repente a gente aprender de novo, né, doutor, porque o nosso cérebro ele tem uma capacidade enorme de aprendizado e se a gente quiser a gente faz uma modulação. É possível a gente reaprender, de repente a a viver com menos tela? Eh, tem essa questão do vício, infelizmente, porque tem muita gente já e viciado mesmo na tela, mas a gente pode reaprender, a gente pode ajustar isso, o nosso cérebro permite? Sim, absolutamente. O vício em telas, ele é real, mas ele é um vício comportamental. Embora ele ative algumas áreas do cérebro que são parecidas, alguns circuitos cerebrais parecidos com o vício em substâncias, por exemplo, o mecanismo é outro. E como a Dra. Karina falou, isso começa com algumas pequenas mudanças comportamentais e que são perfeitamente factíveis. associado a essas mudanças de distanciamento da tela, por exemplo, como tirar o celular na hora do almoço, não colocar na minha casa, a gente não pode usar o celular na hora do almoço. Então isso é um é uma regra que nós estabelecemos e você pode estabelecer regras na sua casa também, não usar o celular pelo menos 2 horas antes de dormir, porque a gente sabe que isso pode impactar negativamente o sono. são regras que acabam te afastando de algum de alguns comportamentos patológicos e estabelecer outros hábitos angulares que te afastem disso. Um exemplo deles é a atividade física. Eh, quanto mais atividade física ah tem numa família, por exemplo, seja na pessoa ou seja naquela no reflexo daquela criança, menor é a propensão a a esse tipo de comportamento de transtornos de controle de impulso, seja com no vício em tela, seja com uso de substância, alguma coisa do tipo. Então, quando a gente estabelece alguns limites comportamentais associado a alguns hábitos angulares, sendo o exercício físico e o sono, a preservação do sono, os principais desses hábitos, a gente consegue ter uma melhor regulação emocional e com isso a gente consegue afastar esses vícios comportamentais, como o vício em telas e o problema de atenção, que é o nosso foco aqui. Excelente. Olha só, né? Tem tanto para para conversar, tem tanto para se falar quando a gente fala da nossa atenção, do nosso foco que nós estamos perdendo. Nós trouxemos aqui a questão do motorista, trouxemos a questão do pedestre, as crianças, né, que já nascem hiperconectadas, a família que é o espelho, né, para para a criança e a possibilidade de mudança também, porque isso é importante a gente entender que ela pode acontecer, é só a gente fazer um planejamento e estabelecer regras. E as regras dentro de casa também é uma questão de alinhamento e convivência, não é, Karina? Sim. Eh, se eu tivesse que dar uma dica para os pais, seria de o máximo possível a entrega de um celular para as crianças. Uhum. Verdade. Eh, o quanto puder adiar, né? E tem algumas até alguns estudos que falam qual seria a idade, né? Mínimo 13 anos, se for possível. E algumas pessoas falam: "Nossa, não dá, né? 13 anos para entregar um celular. Por quê? Porque é justamente isso, porque você vai incentivar a prática e e de outros hábitos mais saudáveis antes disso, né? E aí, quem sabe ele tem um pouquinho mais de maturidade para conseguir se controlar, né? E redes sociais só a partir dos 16 anos, né? Que também seria o mundo ideal, que é maravilhoso. A gente deu um grande passo nas escolas recentemente, que é a proibição do uso do celular. Uhum. Brasil, um dos poucos países, né, que que conseguiu isso. Então, que que tomara que a gente consiga manter isso por mais tempo já é uma grande coisa. Mas eh é isso. Eh, existem telas diferentes também que a gente falou aqui, né? Uma coisa é assistir lá um programa maior, um filme, um seriado, alguma coisa por um tempo. A outra coisa é esse tempo de tela, esses vídeos curtos que não trazem muita informação, não dá ali nenhum tipo de aprendizado interessante e é só para ficar prendendo a atenção da pessoa. Eh, para adultos, a mesma coisa. Idoso tem uma questão importante. Como os algoritmos sabem que o idoso gostou também, ele fica mandando a mesma coisa, né? E aí a gente vai chegar no período aí do ano, hoje é agora é ano eleitoral, vem a política. Então ali clicou numa coisa, eles ficam também naquele assunto. E aí tem uma questão do social nisso, né? Eu fico só focada em um assunto também, porque eu só tô recebendo sobre aquilo e não percebo, né? E não percebo que tem outras coisas acontecendo. Então é muito fácil também idoso ser vítima desse desse dessa bolha, né? Porque o sabe o que ele gosta, o que ele tá vendo. Então, prestar atenção, fazer essa análise, essa autoanálise e tentar mudar hábitos, hábitos mais saudáveis. E será que eu preciso toda hora tá ligado em alguma notificação? O que que eu vou receber de tão importante a todo momento? Será que é tão importante essa notificação assim que eu vou receber ou posso ver ela daqui umas duas, tr horas? Exatamente. Estar mais presente, né? A presença ela tem sido escassa ultimamente. As pessoas, é o exemplo que você deu lá, vamos jantar com os amigos, mas eu eu estou aqui o meu corpo, mas eu não tô presente, tô lá. Pera aí, só um pouquinho que eu vou responder uma mensagem e tal. Quando você vê a hora passou, os amigos estão indo embora, você fala: "Oxe, pera aí, vocês já jantaram, né?" Então, mais presença. Bom, tá na hora da gente encerrar o programa. Eu quero agradecer demais a presença, né, do nosso neurocirurgião, da nossa eh neuropsicóloga. Eu acho muito importante a gente abordar esse tipo de assunto que faz parte do nosso dia a dia, que está dentro da nossa casa e é tudo sem julgamento, porque nós não tivemos tempo de aprender. A gente tá aprendendo a andar com a esteira ligada, né? Então, ó, entrar no caminho e seguir. Mas aí que bom que nós temos pessoas que podem nos orientar e que essa orientação faça sentido para você, assim como faz sentido para mim também. A gente agradece demais você que tá aí do outro lado, né, disponibilizando de um tempo e claro os nossos convidados, porque sem vocês o programa não teria sentido. Quero começar agradecendo o nosso neurocirurgião. Doutor, muito obrigada, viu, pela sua participação, pela explicação, orientação e o seu tempo no programa de hoje. Considerações finais, por gentileza. Agradeço muito a oportunidade de participar junto com vocês, com a Dra. Carina, foi uma uma conversa bem bem enriquecedora. Espero que a gente tenha conseguido ajudar as pessoas a entender um pouco mais sobre como essas coisas funcionam e que elas podem sim fazer com que o cérebro reaprenda caminhos de uma atenção mais saudável do que essa atenção patológica que a gente dispensa hoje com as redes sociais. E isso é fundamental, especialmente nesses grupos que eu considero grupos mais sensíveis como crianças e idosos, mas a gente, né, como como adultos, como adultos jovens, sofremos eh igualmente aí os efeitos deletéreos dessa vida hiper conectada. O caminho paraa gente se livrar disso é se conectar mais com o presente, se conectar com a realidade, se conectar com a natureza, praticar mais esporte, ser mais fisicamente ativo, viver mais o que é tangível, o que é real do que o que tá no mundo virtual. Muito obrigado a todos. Obrigado, Dra. Carina, obrigado Rúbio pelo pelo pelo convite, pela oportunidade. Obrigado também à AFIA de Goiânia, Brasília, que me oportunizou esse momento junto com vocês. Maravilha, doutor. Muito obrigada mais uma vez aí eh pela sua presença com a gente e pelos seus ensinamentos. A gente agradece a nossa eh neuropsicóloga, né, a Karina, mais uma vez com a gente aqui no estúdio Câmara, sempre compartilhando os conhecimentos, nos orientando para que de repente a gente possa ter a oportunidade de viver uma vida com mais leveza. Muito obrigada pela sua participação. Considerações finais. Obrigada, Rú, pelo convite. Obrigado, Dr. Norberto, pela participação, pela conversa que foi muito boa. Eh, eu acho que se avalie, né? Se avalie, veja se não está excedendo, volte a buscar hábitos eh analógicos, né? Tem uma busca hoje em dia de pessoas indo fazer trabalhos manuais, né? ao interessante além da da questão da atividade física que o Dr. Norberto falou, mas eh bordar cerâmica, eh pintura, eh tocar um instrumento, são todas coisas que antes as pessoas buscavam como hobby, né? Mas até para isso hoje falar: "Ai, não tenho tempo, será que não tem tempo, né?" e são e habilidades ali que ajuda você a se conectar, a ter foco atencional sem o digital intermediando, né? Então também buscar eh algo assim, né? Um trabalho manual além da atividade física e se avaliar. Eh, e para os pros pais é isso, o quanto puder adiar a entrega de um celular, de um aparelho, faça, faça, porque isso vai ser benefício pro seu filho, eh, pra aprendizagem dele, pra saúde mental. Muito bem. Olha só, né? Dois grandes profissionais nos orientando porque nós estamos perdendo o foco. É, gente, a tecnologia ela veio para para facilitar a nossa vida, né? Não para dominar a nossa atenção. E talvez o grande desafio deste século não seja ter acesso à informação, mas conseguir escolher onde a gente coloca o nosso foco, porque no fim das contas aquilo que recebe a nossa atenção acaba moldando a nossa memória, as nossas decisões, os nossos relacionamentos e até quem nós nos tornamos. Então, preste muita atenção onde você está deixando o seu tempo, onde você está focando, né? E o que que faz sentido para você. Quero agradecer você que nos acompanhou, desejar você um ótimo dia, um ótimo final de semana e na próxima semana nós temos Estúdio Câmara, segunda-feira, a partir das 8 da manhã ao vivo. Vamos falar sobre um tema que tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental. A gente já falou do burnout e agora nós vamos conversar sobre o pós burnout. Muitas pessoas conseguem superar uma fase de esgotamento extremo no trabalho ou na vida pessoal. OK? Mas o que acontece depois? Será que é possível voltar à rotina normalmente? Quais são as marcas emocionais que permanecem após um episódio de burnout? e como reconstruir o equilíbrio físico e psicológico depois de um período de exaustão intensa? E aí, será que vale a pena voltar eh no lugar que te adoeceu? Essas e outras questões a gente vai conversar no programa de segunda-feira, a partir das 8 da manhã ao vivo em mais uma edição do nosso estúdio Câmara. A gente fica por aqui, te desejamos um ótimo final de semana. Lembrando que a programação da TV Câmara Campinas segue. Sábado e domingo, você sabe, tem programação diferente, tem entretenimento para você, tem meu bairro na TV, a nossa equipe nas ruas conversando com você, levando informação e também eh trocando aquela palavra, aquela conversa e até receitas na nossa programação. Então, não perca a programação da TV Câmara Campinas de final de semana, que é feita sempre com muito carinho de toda a nossa equipe, especialmente para você que tá aí do outro lado. Até segunda-feira. Bom final de semana. Se cuide e não perca o foco. Valeu, gente. Ciao ciao