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Começa hoje no jornal Câmara Notícia uma série de reportagens especiais até sexta-feira chamada Feiras Livres, entre barracas e prosas. E para começar, nós fomos até a feira do Jardim Auréliia, que acontece às quartas-feiras aqui em Campinas, para conhecer a rotina de quem trabalha nas barracas e as histórias de quem passa por lá. Antes de a rua ganhar movimento e de os primeiros clientes chegarem, o trabalho já começa para quem vive da feira. O dia começa cedo. É preciso separar as mercadorias, carregar os produtos e preparar tudo para que algumas horas depois a barraca esteja pronta para receber o consumidor. Para Fernando, esse trabalho faz parte da vida. Cada caixa tem seu lugar. Cada produto precisa ser organizado. A montagem faz parte de uma rotina que se repete semana após semana e que exige esforço e planejamento. Bom, eu trabalho todos os dias, mas na feira eu trabalho terça, quarta, eh, sexta, sábado e domingo. É, depende dos horários. Tem dia que eu levanto 2 horas, tem depende a feira, sabe? Tem feira que eu levanto 4:30, tem feira que eu levanto três, entendeu? Depende do dia. E no Ceasa eu vou de segunda e quinta. Não tem horário também, eu vou e fic demora mais do que aqui na feira até. Aí eu levanto cedo, levanto uma hora mais cedo, 1 hora, 1 hora e meia mais cedo. Aí eu carrego as coisas da geladeira, carrego as mercadorias e depois eu saio pr pra feira. Depois da preparação, vem uma das partes mais importantes, o contato com o público. Entre uma venda e outra, surgem as conversas, os cumprimentos e as relações que vão muito além da compra de o produto. É também nesse contato que o Feirante constrói uma relação de confiança com os clientes. Geralmente os fregueses confiam na gente o que a gente fala, né? Então é uma confiança, né? Eles têm uma confiança na gente, porque hoje você vê tem mercado em todo lugar, tem cada esquina tem um mercado, tem um varejão, né? Mas a é confiança, né? Venho toda toda quarta-feira. Toda quarta-feira. E o que a senhora mais gosta de comprar aqui? Banana, laranja, abacate. Aqui as frutas são muito boas. E o dono da da banca também é uma pessoa muito agradável, trata muito bem toda todas as pessoas que vêm aqui comprar, né? Então ficamos amigos até. Olha, eu venho sempre porque eh basicamente é fruta a minha alimentação. Assim aqui a fruta do irmão aqui que é especial, a banca ali da dos vegetais ali que é muito boa também. Que a f é pequena, mas é ótima. Conta pra gente o que que o senhor mais gosta de comprar aqui. Ah, eu pego pro meu irmão mamão, lima, a uva, morango e agora hoje tá pensando em pegar um caquinho. Hoje não veio caquinho, irmão. Não, aqui hoje não veio. Hoje fto foi o caquinho. E é quando a feira começa a ganhar movimento que todo o trabalho realizado durante a madrugada aparece para o consumidor. Mas para quem está atrás da barraca, a rotina também é marcada por desafios. Desafios assim são bastante, né? É no tempo de chuva, tempo assim, sabe, enxurrado, essas coisas, é complicado, viu? Tem lugar que a enchurrada passa 1 m, entendeu? Não é fácil, não. É complicado. E os desafios é o dia a dia, né, do as mercadorias, tem que ser mercadoria boa. Então, a gente tem sempre pensando nas mercadorias melhor para ter é aquele um desafio. Se eu escolher a mercadoria, sabe? É um desafio. Mesmo com as dificuldades, a rotina continua. Em Campinas, as feiras livres fazem parte da história da cidade há décadas. A regulamentação foi publicada em 1962, quando havia 15 feiras distribuídas pelos bairros. Aí eu comecei na feira em 85, junho de 85, com a Kombi. Eu nós fazia duas, três viagens, descarregava aqui, ia volvar outra carga e voltava, descarregava três vezes mais ou menos. Aí a minha mãe me ajudava, as minhas irmãs me ajudava na época, né? E assim, mais do que um lugar de compra e venda, a feira também é espaço de encontro, memória e afeto. Tem quem vá atrás de frutas e verduras, tem quem procure o pastel, o caldo de cana e outras comidas e tem quem apareça simplesmente para conversar. Tenho inclusive minha mãe, né, já falecida, infelizmente. Eh, eu amo minha mãe até hoje, né? E ela ela me ensinou muitas coisas assim em relação à compra na feira, como escolher uma fruta, um legume, entendeu? E hoje eu dou graças a ela porque, graças a Deus por ter a minha mãe, né? E a e por que ela me ensinou esse aprendizado de como escolher uma fruta, como escolher uma um legume, tomate, sabe? Eh, qual que é o tomate ideal para se comprar, como que é, né? quando que não deve comprar tal fruta, tal legume. E eu aprendi muito, sabe? A mãe vinha, né, quase sempre pegar batata, cebola, eh, a gente vinha comer pastel e a gente lembra de muitas senhoras também, né, que foram passando pela nossa vida, né? Hoje eu tô com 58 anos, naquela época eu tava com 10 anos. Então, e foi crescendo vendo a feira, né, toda quarta-feira. Eles não não falha, né, de jeito nenhum. Nem nem no Natal, né, irmão? Quando era Natal, eu vou fazer a feira à tarde na véspera do Natal. Nunca nunca falha. Nossa, muitos anos. Feira é uma delícia. Feira é uma coisa que devia voltar sempre, porque eh tem lugar que é pequenininho, né? Eu eu era de São Caetano do Sul, São Paulo. A feira era gigante. Acho que tinha umas cinco, seis quadras. Eu tenho saudade de lá. O que que o senhor mais gosta de comprar na feira? É pastel, né? Porque velho, velho. Gosto de pastel. Tem o costume de vir toda semana? Toda semana. Pastel é tradição. Então, a tradição é o pastel. Desde criança, desde pequenininho, o senhor tem costume de participar, de ir na feira? Tenho. Desde quando morar em São Caetano no Rute Ramos na feira, né? No fim da manhã, enquanto o movimento diminui, começa outra etapa. Desmontar as barracas, guardar o que sobrou e preparar tudo para a próxima feira. A rotina termina, mas para quem vive dela, logo chega a hora de começar tudo outra vez. Acabar a feira eu chego em casa, descarrego e carrego pro outro dia, as coisas que que não é perecível e as outras descarregam para pôr na geladeira pro outro dia. Feira para mim, eu já tô 40 anos, foi tudo na minha vida, né? Foi o começo, agora tá quase no finalzinho, n? Mas tá indo ainda. Amanhã nós vamos mostrar a feira livre do Cambuí que acontece na rua Maria Monteiro.