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+ ESPORTES - SAÚDE MENTAL DOS ATLETAS DE ALTO RENDIMENTO
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+ ESPORTES - SAÚDE MENTAL DOS ATLETAS DE ALTO RENDIMENTO

466 views Publicado 02/08/2021 HD · 45:06

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Simone Biles, Naomi Osaka, Tom Dumoulin, Liz Cambage, Sha'carri Richardson e tantos outros atletas desistiram de competições importantes. Qual a importância da saúde mental para atletas de alto rendimento? Como lidar com a pressão interna e externa? Pandemia teve influência? Há preconceito com o trabalho de um coach esportivo? Confira o programa + Esportes com a Larissa Zink, que possui especialização em Neurociência pela Neuroleadership Institute de Nova York.

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Olá, começa agora o Mais Esportes e certamente você acompanhou que durante os Jogos Olímpicos a ginasta Simone Biles, maior nome do esporte, desistiu de disputar a final para cuidar da saúde mental. Isso aos 24 anos. Este ano, a tenista Naomi Osaka, do Japão, desistiu de competir em Roland Garros e o Wimbledon, dois grandes lãs que são torneios importantes da modalidade por conta de ansiedade e depressão. O holandês Tom Dumoulin, um dos melhores do mundo no ciclismo, ficou quatro meses afastado para, abre aspas, esfriar a cabeça, fecho aspas, e depois retornou às atividades. Ao longo do programa, nós vamos levantar mais casos com a Larissa Zink, que foi campeã, recordista paulista, vice-campeã brasileira, infanto-juvenil de natação, fundadora e treinadora mental da Neuro Esporte. Então, muito obrigado, Larissa, por ter aceito o convite para participar aqui do Mais Esportes. E essas desistências têm levantado muito debate sobre saúde mental, como que você tenha analisado? Eu quem agradeço, Gabriel, o convite. Realmente, são questões inesperadas nesse cenário de Jogos Olímpicos. A minha análise é que essas manifestações públicas da Naomi Osaka, da Simone Biles, vêm para mostrar para a gente, primeiramente, que o atleta é um ser humano. A gente tende a olhar os atletas e verem neles heróis insuperáveis, imbatíveis, fortes em todos os sentidos, até usam uniforme, como os heróis em quadrinhos. Então, trouxe essa questão de humanização dos atletas e também, Gabriel, uma das coisas que eu tenho observado com esse movimento dessas atletas é que essa geração, de certa forma, está mostrando para a gente que não é tudo a qualquer preço, que antes de uma medalha olímpica, antes da fama, antes de se consagrar aí na história do esporte, vem a saúde mental. Então eu vi esse movimento com muitos bons olhos, porque nunca antes essa bandeira ficou de uma maneira tão explícita para a gente nesse contexto esportivo. Larissa, o tenista Novak Djokovic foi perguntado sobre como é que ele enxerga a pressão sobre os atletas de alto rendimento e ele disse essa frase, abre o aspas, A pressão é um privilégio, sem pressão não há esporte profissional. Se você quer estar no topo do jogo, é melhor começar a aprender a lidar com a pressão e como lidar com aqueles momentos dentro de quadra, mas também fora dela, todas as expectativas, fecha aspas. Quero te ouvir porque questão de pressão é algo presente, um atleta lida melhor do que o outro, você acha, como que você encarou essa frase também do Novak Djokovic? Gabriel, é o seguinte, a pressão, ela existe no cenário esportivo e existe no mundo todo. Eu sou pressionada por resultados e eu tenho certeza que você também é. O ponto aqui que a gente tem que falar a respeito de pressão no cenário esportivo, são duas coisas. A primeira é que existe uma relação entre performance e pressão. Pouca pressão é ruim para a performance Porque a gente entra displicente, desconcentrado Mais tolerante em relação aos erros E aí é aquele jogo fácil que acaba se tornando em um jogo difícil Assim como muita pressão também é ruim para a performance Por quê? Porque gera estresse, gera dúvidas a respeito de si mesmo gera muito desconforto, uma intolerância em relação aos erros, uma impaciência. Então, a verdade é que todos nós operamos em um nível bom de pressão, em um nível ótimo de pressão. A curva é um U invertido. Qual que é esse nível ótimo de pressão? Não sabe, é a pergunta de 2 milhões de dólares aí, né? Agora, o que a gente consegue é regular a pressão, então se está muito pouca, se está entrando descontraído, desplicente, desconcentrado, existem mecanismos mentais e emocionais para você, opa, ficar um pouco mais ligado. Assim como se a pressão está muito alta, também existem mecanismos mentais para minimizar um pouco. E quando a gente fala a respeito de pressão, existe a pressão interna, que é aquela que a gente coloca sobre nós mesmos, o atleta coloca sobre si mesmo, e existe a pressão externa, que é a pressão sofrida por pais, patrocinadores, torcida, adversário, Pelo próprio contexto, pelo próprio cenário olímpico. Da pressão externa, qual é o controle que a gente tem? A gente consegue ressignificar alguns aspectos. Então, interpretar de uma maneira diferente. Já a respeito da pressão interna, a gente pode melhorar o diálogo interno que a gente trava com nós mesmos. Então, eu acredito que quando o Joko fala que a pressão é um privilégio, ele provavelmente está mencionando quando ela está nesse nível ótimo, quando está equilibrado, quando está ajudando o atleta a ter performance. Até mesmo o Joko, né, Gabriel, a gente consegue observar uma transição na carreira dele, de um começo no qual ele era bastante descontraído, fazia brincadeira dentro de quadra, depois ele entrou em um cenário aí um pouco mais nebuloso, até contratou um guru para orientá-lo e agora ele está numa boa fase de novo. Então é importante a gente observar que na própria carreira dele tiveram transições de momentos e que provavelmente ele se fortaleceu mentalmente para lidar melhor com as adversidades, os desafios que ele se deparou aí ao longo da carreira. E é bastante curioso mesmo que se a gente pegar esse começo de carreira do tenista, do Novak Djokovic, ele imitava o Guga, ele colocava a peruca, ele imitava a Maria Sharapova. Então realmente tinha essa descontração e hoje a figura dele, a imagem é completamente diferente. E Larissa, você estava falando dessa pressão interna e externa, a interna é mais difícil de lidar para profissionais como você ou não necessariamente? Não necessariamente. Eu tenho trabalhado com esporte amador e profissional há 11 anos E cada atleta opera de uma maneira, Gabriel. Existem atletas cujo maior desafio é gerenciar essa autocobrança, essa pressão interna, esse excesso de perfeccionismo, essa intolerância em relação a erros. Já existem atletas cujo principal desafio é gerenciar essas vozes externas, principalmente as vozes dos pais, que muitas vezes acabam atrapalhando um atleta, principalmente nessa fase de infanto juvenil. Então, Gabriel, o trabalho aqui de treinamento mental, de gestão das emoções é extremamente individualizado. A gente precisa entender qual é o estilo do atleta, quais são os seus principais desafios, suas principais forças, as maiores áreas que ele precisa aprender a gerenciar para a gente conseguir fazer com que ele ganhe performance através de um fortalecimento da mente. Já já nós vamos voltar para os exemplos de atletas. Quero saber também as modalidades que você já trabalhou. Mas para você que está nos acompanhando, a Larissa Zinke, ela possui MBA em Gestão. Ela tem uma carreira de Gestão de Pessoas pela FGV, fez curso de formação em coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching em 2010, possui especialização em Neurociência por um instituto de Nova York, é aluna matriculada na pós-graduação em Neurociência do Comportamento. Quando que você passou a se interessar por este assunto, Larissa? Gabriel, sendo formada pelo esporte, desde os seis meses eu faço natação e comecei a competir com nove anos de idade, sempre eu tive uma paixão pela alta performance. Quando eu fui fazer educação física, quando eu me formei, eu entendi que o que me motivava não era a prática da educação física, da treino, da aula. Eu queria entender o que gerava alta performance, quais eram os processos internos que determinavam que a gente tivesse bons ou maus resultados. E aí, em 2015, eu fiz a minha primeira pós em neurociência e me apaixonei. Então, eu tenho me amparado muito na neurociência comportamental para entender e ajudar os atletas a terem aí a alta performance mental. Na sua formação de coach em 2010 para hoje, você viu muita evolução na abordagem e nas demandas dos clientes também? Sim, com certeza. Quando a gente olha para essa profissão, ser coach, É um termo que, de certa forma, aqui no contexto brasileiro, está extremamente banalizado. Até tem a brincadeira da Tata Werneck, o que deu errado na sua vida para você ser coach? Então, eu vejo assim que tem um movimento meu próprio, Gabriel, no sentido de, eu fiz a formação em 2010, só que eu busquei formações internacionais, inclusive uma formação do Sports Coaching World, que é específica para coaching esportivo. E também tem uma questão de amadurecimento perante a profissão. No começo da carreira, eu tinha menos recursos, poucas vivências para trabalhar com os atletas. Agora, depois de 11 anos, é claro que você acaba se desenvolvendo como profissional. Agora, em termos de mudança de demanda dos atletas, aí eu creio que tiveram poucas. O que eu observo é que sempre quando começa a aproximar o contexto olímpico, o ciclo olímpico, a demanda muda, porque está chegando perto da competição, acabam tendo alterações emocionais, outras preocupações nesse sentido. Agora, as dores dos atletas, elas tendem a ser bem próximas. Fator rede social, você entende que é um diferencial essa exposição que praticamente todo mundo tem, alguma rede social, nem que for WhatsApp, Twitter, Facebook, enfim. Como é que o atleta tem lidado com isso? Questão dos haters também, que é algo bastante importante que infelizmente acontece. Sim, eu vejo a rede social com um ponto muito positivo e um ponto também bem negativo. O ponto positivo da rede social é que o atleta acaba se tornando uma marca, então ele consegue mais patrocínio, maior visibilidade e até mesmo o atleta tem essa função social de inspirar, de servir como bons exemplos, que, através da rede social, ele consegue fazer isso diariamente. Já o ponto negativo é esse aumento de comentários positivos ou negativos em relação à performance ao vivo e a cores. A gente vê o Bruno Fratos, para mim, é um exemplo muito icônico em relação a isso. Em 2016, depois da performance dele no Rio de Janeiro, que ele ficou extremamente insatisfeito, no meu ponto de vista foi ótimo, porque ele estava entre os melhores do mundo, agora ele queria mais, e no auge da emoção, no calor da emoção, ele dá uma resposta um pouco atravessada por uma pergunta infeliz de uma repórter, e ele usou o termo estou felizão, e esse termo está acompanhando ele até hoje, tanto que quando ele recebe o bronze, já tem comentários nas redes sociais que agora sim ele está felizão. E ele pediu desculpas na época, né, Larissa? Depois ele retornou, ele pediu desculpa para a repórter, ou seja, poderia ter finalizado ali aquela história. Sim, agora as redes sociais, elas estão, de certa forma, imperdoáveis em relação a isso, né, Gabriel? Então, o atleta precisa tomar muito cuidado com o quanto ele vai querer estar em contato com a rede social no auge da competição. Então, o Léo de Deus, um atleta que a Neuro Esporte preparou para estar nas Olimpíadas, a gente fez o seguinte combinado. Olha, a partir de determinado momento, diminui ou cessa a exposição nas redes sociais para você conseguir se concentrar para fazer a sua prova. Então, eu acredito que isso é importante, os técnicos, quem trabalha com os atletas, ajudarem os atletas a se desconectar para ter toda a energia mental, física, emocional canalizada para o momento da competição. O Douglas do vôlei masculino, que tem sido um fenômeno nas redes sociais, ele até postou recentemente, estamos chegando nas quartas e final, então é um período que eu vou ficar distante agora, principalmente do Instagram, justamente para poder se concentrar. E acho que é uma atitude acertada dele, porque em caso de uma derrota, que pode acontecer, o Brasil vai enfrentar o Japão, eu tenho certeza que a rede social dele iria se encher de mensagens negativas, que ele se concentrou mais em rede social do que nas partidas. Então, às vezes, esse afastamento é mais prudente, né, Larissa? Sim, com certeza. É importante o atleta se blindar em relação a qualquer comentário negativo que possa impactar na sua performance. Outro ponto aqui em relação à rede social, Gabriel, que é uma das coisas que eu gosto bastante de trabalhar com os meninos da base, é que ninguém posta no Instagram que está triste, ninguém posta no Instagram que fez um péssimo treino, Ninguém posta no Instagram que está descontente com a performance, né? No Instagram só tem coisas boas, só tem coisas bonitas. E isso faz com que os atletas, principalmente os mais novos, tenham muita dificuldade de lidar com as situações de adversidade que encontram no dia a dia. Porque eles olham nas redes sociais e está todo mundo sempre bem, está todo mundo sempre feliz. E aí, isso é uma das coisas que eu gosto bastante de ensinar para eles, que as redes sociais, elas são utópicas nesse sentido, que a vida do atleta, assim como a vida de qualquer pessoa, é feita por altos e baixos. E tudo bem você não estar num dia bom, tudo bem você não estar feliz o tempo todo, tudo bem você não estar satisfeito com alguma coisa que está acontecendo na tua vida. E aí a gente trabalha recursos mentais e emocionais para eles saberem sair dessas situações de adversidade e não deixar esse positivismo em excesso das redes sociais contaminá-los. Larissa, ao longo destes anos, eu não sei se você pode citar alguns atletas que você trabalhou e de que maneira o relato deles, das diferenças de antes e depois do processo realizado. E o seu trabalho, ele é durante um tempo determinado ou se o atleta quiser, ele pode ser do início da carreira, da categoria de base que você já citou, até a aposentadoria. Existem trabalhos diferentes em curto, médio e longo prazo? Sim, Gabriel. Então, começando a tua primeira pergunta, sinceramente eu perdi as contas de quantos atletas eu já trabalhei. São mais de 10 modalidades diferentes, desde modalidades aquáticas até modalidades terrestres. Então, seria injusto da minha parte mencionar um ou outro atleta e deixar outro de lado. Todos foram extremamente importantes para eu me tornar a profissional que eu sou. Já em relação à sua segunda pergunta, o processo de coaching é bem diferente do processo de terapia. Enquanto a psicologia esportiva pode ser um processo de longo prazo, o coaching é um processo de alta performance. Ou seja, é de curto ou de médio prazo, porque o atleta ele traz a demanda e aí o coach ajuda o atleta a atingir o seu objetivo. E aí o processo de coaching, ele quer que o atleta tenha autonomia, ou seja, quanto antes o atleta conseguir andar com as suas próprias pernas, por assim dizer, melhor. Agora, o que tem acontecido? A partir do momento que o atleta atinge o objetivo comigo, ele traz um novo, ele traz mais um ponto que gostaria de trabalhar. Então, existem atletas que eu trabalhei e trabalho há mais de dois, três anos e existem atletas que me contrataram para preparar para um evento específico e depois desse evento já acabou. Então, foi um trabalho aí, um intensivão de seis semanas. Já na base, por exemplo, do Volei Renata, a relação é um pouco diferente. Não é tanto uma relação de coaching, e sim uma relação na qual eles trazem a dor deles e eu ensino algo para eles, para eles conseguirem gerenciar essa dor. Então, é mais uma relação aí de professor aluno, de mentoria, de tutoria, do que um processo de coaching propriamente dito. Ao longo destes anos, o seu trabalho é mais parecido com a de um bombeiro que é para apagar o fogo, aquela urgência? Ou você fala, não, já tive exemplo de que a pessoa ganhou, estava bem e mesmo assim quis fazer esse trabalho? Geralmente é algo urgente quando a pessoa não atinge esse objetivo, não atinge o resultado? Ou tem exemplo de que fala, não, estava conquistando e mesmo assim contratou o trabalho? Gabriel, as duas vias. Existem atletas que estão chegando perto da competição e falam meu Deus do céu, Larissa, me ajuda agora. E aí a gente vai lá e apaga o incêndio. E já existem aqueles atletas que têm um planejamento ou uma visão maior de longo prazo. E aí a gente tem mais tempo, mais fôlego para trabalhar esses aspectos mentais e emocionais. Agora, Larissa, você falou que já trabalhou mais de 10 modalidades. Se você fizer um trabalho, por exemplo, com um nadador e um outro com um tenista, você precisa estudar a modalidade para conversar com ele, dar dicas para melhorar rendimento ou fica na parte mental trabalhando só este psicológico? Gabriel, olha só, como eu tenho atuado bastante com a neurociência, eu sempre penso assim, nessas condições de treinamento e de competição, o que acontece com o cérebro do atleta. Então, é muito diferente você trabalhar com um nadador e trabalhar com um tenista. O nadador de piscina, a partir do momento que ele cai dentro da água, as vias sensoriais dele são diferentes. Ele olha para o fundo da piscina, ele olha para o T, tem uma visão periférica aqui dos adversários. O barulho da água inibe o barulho da torcida. Então, o nadador de piscina, ele está em um ambiente um pouco mais controlado do que o tenista. O tenista escuta a torcida, o tenista escuta provocações do adversário. Então, são ambientes diferentes. E se são ambientes diferentes, a gente precisa trabalhar de uma maneira muito especializada, muito personalizada. Então, qualquer atleta que me procura, eu busco entender a modalidade dele. E aí é um desafio para mim, né? Porque existem modalidades que são mais próximas, que eu mesma pratiquei ou pratico por hobby. Agora, existem modalidades que eu nunca fiz. Como, por exemplo, eu estou preparando a moara para o rali dos sertões. Eu não faço ideia do que é estar num rali em alta velocidade, eu sou super medrosa, eu ando a 60 km por hora aqui na São Pedro. Então eu tenho esse desafio de entrar na modalidade e entender as demandas emocionais, neurais que o atleta tem. Ótimo. Os atletas ainda são muito fechados, eles ainda têm um preconceito, fica com o pé atrás, se geralmente um clube contrata o seu trabalho para realizar com ele, como é que você vê essa aproximação e se tem melhorado ao longo do tempo? Gabriel, eu vejo uma transição ao longo do tempo, no sentido que há 11 anos atrás eram raros os times que tinham essa equipe multidisciplinar. Então, era difícil você encontrar um time que tinha um psicólogo esportivo ou um coach esportivo. Agora, essas equipes multidisciplinares estão cada vez mais presentes. O que eu vejo também é, junto com o psicólogo esportivo, o coach esportivo, é esse trabalho cognitivo, esse trabalho mental, treinar o cérebro dos atletas, que é uma onda que está muito forte nos Estados Unidos e na Europa, com o Stephen Curry, e agora está começando a ganhar força e espaço no cenário brasileiro. Então, eu vejo assim, um processo de, a multidisciplinaridade está sendo cada vez mais importante, e novas funções estão sendo incorporadas dentro dessa equipe multidisciplinar. Agora, sem dúvida, até pouco tempo atrás, tinha um preconceito muito grande. Ai, ir num psicólogo, ter um coach mental, é sinal de que eu sou fraco mentalmente falando. E aí, de novo, a importância da bandeira que a Naomi Osaka e a Simone Biles levantaram. Elas falaram assim, olha, você precisar de um amparo mental não é sinal de fraqueza, ao contrário, o contexto esportivo, e até mesmo esse século XXI, demanda que você seja mentalmente forte. Então, assim como você precisa ter forças técnicas, táticas, físicas, você precisa ter força mental. E aí, nada mais do que um profissional especializado nisso para te ajudar. Então, eu também vejo uma transição nessa questão de um preconceito inicial, sim, uma resistência inicial, sim, porém, com essa nova movimentação desses atletas, teve uma abertura e uma maior aceitação por parte dos atletas em relação a isso. No trabalho que você realiza com os atletas, a tecnologia está presente? Você utiliza algum aparelho ou é mais na base da conversa? Gabriel, aí são os três pilares da Neuro Esporte. O primeiro pilar da Neuro Esporte é o coaching esportivo, que daí sim é através da conversa. E aí o segundo pilar é avaliações cognitivas, então a gente tem basicamente um raio-x do cérebro dos atletas e aí a gente faz com tecnologia. E o terceiro pilar são esses treinamentos cognitivos. E aí nós importamos tecnologia dos Estados Unidos e da Europa para conseguir fazer esse treinamento cognitivo. Então a gente trabalha com luzes de LED, óculos que inibem a visão do atleta, a gente tem aparelhos de encefalograma que faz com que os atletas joguem videogame com as ondas neurais, tem bolas que quando pingam acendem de cores diferentes. Então a gente trouxe aí o melhor do mercado internacional para conseguir ter esses ganhos cognitivos com os nossos atletas. Desde quando que você conhece o André Heller? Como é que é este trabalho com ele? Aprendizados com um campeão olímpico? Ensinamentos também? Como é que é essa troca no dia a dia? O André Heller e eu nos conhecemos em 2010, quando ele ainda atuava como atleta na Medley, era a Medley naquela época. E nós, a Sabine e eu, que trabalhava comigo, a Sabine é minha irmã, fizemos um trabalho com o time em 2010, e desde então o André Heller nos tornamos primeiro amigos, a gente tem uma relação de respeito muito forte um com o outro, e aí em 2019 nós decidimos abrir a Neuro Esporte como sócios. É uma troca extremamente rica, porque o André tem toda essa bagagem de duas medalhas olímpicas, de anos atuando com a alta performance, então ele sabe muito bem o que é que está na quadra, com o mundo todo literalmente te assistindo, e ele me ajuda bastante a ter essa perspectiva dos olhos de um atleta profissional, e ele também, Gabriel, tem se desenvolvido como profissional, então ele fez o curso de neurocoaching, ele está fazendo faculdade, Nós vamos fazer uma formação juntos agora em agosto sobre inteligência emocional. Então, juntos nós estamos nos desenvolvendo para que a gente consiga fazer com que a NeuroSport se torne uma empresa referente em neurociência aplicada ao esporte. A idade do atleta muda a sua forma de trabalhar? Se você for fazer um trabalho com alguém que está com 17 anos e um outro com 35, são de gerações diferentes, se eles possuem escolaridade distintas, condições financeiras com disparidade, tudo influencia ou é o foco neste psicológico e é o esporte que conta, Larissa? Gabriel, ótima pergunta, tudo influencia. A gente tem que levar em consideração que o cérebro se desenvolve de trás para frente, Então, ele chega no seu auge de maturidade com 24 anos nós mulheres e 26 anos vocês homens. Então, a mulher, ela realmente fica madura mais cedo. E aí, uma coisa é você trabalhar com o cérebro maduro, que tem aí as suas crenças limitantes, os seus modos operantes, que são atletas com 30 anos. anos e outra coisa você trabalhar com cérebros adolescentes que se apropriam de tudo que você fala, que são esponjas que tem uma receptividade muito grande outra coisa também que a gente tem que levar em consideração é que quando a gente trabalha com menores de idade o papel dos pais é extremamente importante então aqui na Neuro Esporte nós temos uma regra, se o atleta é menor, o pai faz parte do processo, então a gente trabalha com a criança, a gente trabalha com os pais e a gente trabalha com os pais junto com as crianças, porque a gente pode fazer um trabalho junto com um atleta, né, infanto juvenil e ele sofrer uma influência enorme pelos pais, então quanto mais junto esse trabalho com a família tiver, melhor, não tem como o atleta ser de alta performance se o ambiente, se a família não for de alta performance. Então, tem a questão do cérebro e tem a questão do ambiente. E tudo isso, além de somado à personalidade do atleta, a gente leva em consideração na hora de atuar. Voltando para a sua trajetória no esporte, você começou na natação, passou por outras modalidades, tinha o incentivo dos pais, que você citou agora, surgiu através da educação física na escola? Isso mesmo. Então, eu comecei a competir como atleta de piscina, eu fui nadadora, a natação me formou como pessoa, e os meus pais sempre incentivaram, acordavam cedo para ir nas competições aos finais de semana. Depois, com 14 anos, eu fiquei muito cansada do ambiente da piscina e fui jogar tênis. E aí, Gabriel, foi um choque de realidade, porque na piscina você treina incansavelmente para não cometer erros. Qualquer erro dentro da natação de piscina custa muito caro. Uma saída errada, uma virada errada, já foi. Então, eu treinava para minimizar os erros. E aí eu me deparei com o tênis, que é o esporte cujos erros fazem parte do processo. E eu não tive nenhum profissional para me ajudar nessa questão mental e emocional a lidar bem com os erros. Então eu não fui feliz, não fui feliz jogando tênis e eu falo isso sem vergonha nenhuma. Depois de fazer tênis durante um ano, um ano e meio, de uma forma competitiva, eu migrei para o triatlon. E aí eu amei. Amei nadar no mar, amei pedalar, correr, sabe? Eu gosto bastante de provas de longa duração, minha cabeça é boa para isso. Quando eu entrei na faculdade, era período integral, e era muito difícil treinar três modalidades com período integral e ainda trabalhando. Então eu voltei a competir, só que ao invés de nadar em piscina, eu nadei em águas abertas, então eu fiz provas aí de 10 quilômetros, 21 quilômetros, 24 quilômetros, competi durante muito tempo nas águas abertas, fui muito feliz, até tem uma foto num pódio do lado da Poliana, a grande referência em águas abertas aqui no Brasil, junto com a Ana Marcela, que vai competir amanhã, boa sorte para ela. E parei de competir apenas quando o meu filho nasceu, o Benício, mais velho. E aí, desde então, eu estou me dedicando completamente a ele. Já, já, eu volto a competir, Gabriel. Morro de saudades da adrenalina. Ah, eu tenho certeza disso, que depois, quando aquele mosquitinho do esporte pica, é difícil de sair. E você estava dizendo, Larissa, é muito interessante isso, né? Para quem está nos acompanhando, até em relação aos Jogos Olímpicos, né? Tem esporte que o erro ele faz parte, então você citou o tênis, você pode fazer um set muito ruim, errar 20, 30 vezes, acabou este set, você perdeu, você tem a possibilidade de virar no segundo e no terceiro set. No vôlei você pode perder o primeiro e o segundo set cometendo muitos erros, jogando mal, você pode virar terceiro, quarto e depois vai ter o quinto set. Atletismo numa distância curta, uma passada errada que você tem, perdeu a prova, tá eliminado Seja na classificação, seja na fase final, ficou fora de pódio Então é muito interessante que dependendo da modalidade, um erro faz toda a diferença Atletismo, natação, aquele individual E no esporte coletivo, muitas vezes, se não acontecer no final de um jogo de futebol, de vôlei, enfim Mas você convive muito melhor com estes erros, né? É, exatamente. E aí, Gabriel, uma das coisas que o André e eu defendemos bastante é que não basta a gente acompanhar os atletas na conversa, a gente gosta muito de vê-los treinando, vê-los competindo. E aí tem uma distinção muito grande entre, por exemplo, o treinamento do Léo de Deus, nadador, que foi sexto agora nos Jogos Olímpicos, e um treinamento de vôlei. O Léo de Deus, nos treinamentos que eu acompanhava, ele não se permitia errar, ele gerenciava micro detalhes em relação à quantidade de braçadas, ao ritmo das braçadas, a ondulação, até onde foi a ondulação, até onde tem que ser a ondulação. Então, nos treinos de sábado, tinham cinco profissionais acompanhando o Léo de Deus para ir ajustando esses detalhes. Já no vôlei, se você se prende ao erro, você acaba perdendo performance. Então no vôlei você ter recursos emocionais e mentais para conseguir interpretar o erro de uma maneira diferente, conseguir se concentrar no próximo ponto, que é o mais importante de todos, é também algo a ser colocado no dia a dia do treinamento. Então, é super importante para quem trabalha com esses aspectos mentais e emocionais, acompanhar o dia a dia do atleta, para você ver como que está sendo a aplicabilidade desses recursos mentais e emocionais no próprio treinamento. Larissa, eu falei na minha abertura que você foi campeã, recordista paulista, vice-campeã brasileira, infanto, juvenil de natação. em algum momento você pensou, falou, bom, é isso que eu vou fazer pro resto da minha vida quero competir em Panamericana, em grandes competições como é que você lidou com isso e a tomada de decisão, de falar, não, agora eu vou fazer tênis, agora eu vou fazer triatlon, agora eu vou fazer outro esporte Gabriel, eu sempre tinha, assim, o sonho de competir, de ser profissional, a partir do momento que você começa a amadurecer com 14, 15 anos você já tem uma visão totalmente diferente o meu foco não era tanto no futuro de longo prazo e sim no presente, nos campeonatos que eu tinha naquele semestre ou naquele ano então eu imagino que foi um processo de amadurecimento lá com 10, 11 anos eu tinha aquele sonho de medalha olímpica de ir para as Olimpíadas, e depois com 14, 15 anos eu já tinha o pé um pouco no chão. A questão da transição para o tênis aconteceu, porque a Sabine, minha irmã mais velha, sempre foi uma referência para mim, a minha inspiração até hoje, ela quis parar de nadar. E quando ela quis parar de nadar, eu sofri demais, porque eu perdi o meu amparo, eu perdi o meu porto seguro e não teve nenhuma movimentação por parte dos meus técnicos ou de novo nenhum profissional especializado na parte mental e emocional que fizessem eu repensar, então a Sabine parou, eu competi mais seis meses e quis parar também e aí que foi a minha transição para o tênis, então eu vejo assim que aqui no Brasil você tem que de certa forma em um determinado momento tomar uma decisão ou se você vai querer seguir carreira, ou se você vai querer estudar. Lamentavelmente, o país ainda não está preparado para os dois, você ser atleta profissional e você conseguir fazer faculdade com isso. Então, naquela época, eu também tomei a decisão sabendo que eu queria sim trabalhar com o esporte, por outro lado, eu não queria ser atleta profissional, Eu queria ajudar os atletas profissionais e amadores a atingirem seus sonhos. Então, foram fases, sabe, Gabriel? Primeiro eu queria, eu queria ser atleta profissional, depois eu vivia mais um momento, o semestre, depois eu tive um processo de transição aí para ser uma profissional que atua com o esporte. É, realmente é muito interessante este processo, né? Porque em determinado momento você precisa ter uma maturidade ou encarar a falta de maturidade, depois pensar, né, se eu tivesse insistido, onde eu estaria hoje e tal. Então, realmente, essa fase da adolescência, dessa transição de vou continuar no esporte, vou estudar, vou para uma outra carreira, é sempre bastante interessante. Larissa, sobre a natação, para quem acompanhou os Jogos Olímpicos, O rendimento do Brasil, além do Bruno Fratos com esta medalha de bronze, nós tivemos eliminações no revezamento, com a Etienne Medeiros nos 50 metros livre, com o Guilherme Costa nos 1.500 metros nado livre. Enfim, como é que você acompanha a natação no nosso país? Você entende que faltam investimentos, melhorar a qualificação de treinadores, dos clubes, questão de estrutura. Por que o país está bem atrás dos Estados Unidos, Rússia, Japão, Grã-Bretanha? Gabriel, eu vejo que os nossos nadadores representaram muito bem o Brasil. Dado o investimento que existe neles, eles superaram as expectativas. Então, eu acho, de certa forma, injusto demandar tanto dos atletas, sendo que o investimento feito deles é praticamente muito baixo, o que é totalmente diferente dos Estados Unidos, totalmente diferente da Grã-Bretanha e da Austrália, então a gente pega aqui, para mim foi uma das melhores Olimpíadas, em termos de medalhas e também em termos de colocações, A gente teve o Léo de Deus, sexto lugar, sendo o brasileiro mais bem colocado em toda a história do país, tem a medalha do Fratos, teve a medalha do Schaefer, então embora a delegação da natação brasileira não seja tão grande, os atletas estão fazendo o que eles conseguem fazer por conta da falta de investimento neles. Larissa, a gente teve mais algumas desistências de atletas nos Jogos Olímpicos, como a Chakari Richardson, do atletismo norte-americana, teve no basquete também a Liz Camby, de uma das principais do mundo, australiana. Você entende que a pandemia trouxe esta nova situação, então a saúde mental ficou mais evidente, ou ela sempre aconteceu e muitas vezes ela era negligenciada ou tratada como fraqueza, como uma desculpa? Como é que você encara esse contexto de pandemia, de saúde mental e o que acontecia antes? Eu vejo que a pandemia, ela levantou sim essa bandeira de saúde mental, não só no contexto esportivo, como também no contexto mundial, nunca antes teve tanta procura para amparos emocionais e mentais de psicólogos, psiquiatras, eu tenho bastante contato com psicólogos e psiquiatras e eles me falam assim, nossa, eu estou trabalhando das 6 da manhã até as 10 da noite por conta da demanda. Agora também, Gabriel, eu vejo um pouco o movimento de uma geração. A Naomi Osaka, a Simone, elas têm exatamente a mesma idade. E na minha perspectiva, é uma geração que está trazendo assim que, olha, os fins não justificam os meios. se não estiver fazendo sentido para mim viver o que eu estou vivendo, nenhuma medalha olímpica vai justificar, então eu estou curiosa para ver o que vai acontecer daqui para frente, se nós vamos ter um olhar de maior cuidado em relação à saúde mental, uma maior atenção no dia a dia para sentir sinais de que o atleta não está bem emocionalmente, mentalmente, Então, eu acredito assim que vem sim uma nova era, a pandemia trouxe isso à tona e também essa voz de coragem da Naomi, da Simone e dos demais atletas. E nós iremos acompanhar esta onda de coragem e sempre abrindo espaço para este assunto aqui na TV Câmara Campinas, seja aqui no Mais Esportes ou no Câmara Total. Larissa Zin, que infelizmente o nosso tempo se esgotou agradeço muito a disponibilidade do seu tempo todo o conhecimento que você passou para quem está nos acompanhando já faço o convite aqui para uma próxima oportunidade para a gente poder voltar a conversar já que esse assunto é bastante extenso tem muitas variáveis para a gente poder abordar então agradeço, já fico convite para uma próxima oportunidade e as suas considerações finais Gabriel, eu que agradeço é super importante você ter esse olhar da importância da gente falar a respeito da saúde mental enquanto os Jogos Olímpicos ainda estão decorrendo então parabéns aí pela sua iniciativa e me coloco à disposição para sempre que você precisar, que esse é um assunto no qual eu sou extremamente apaixonada Muito obrigado então a Larissa Zink que participou do Mais Esportes Quero agradecer também a sua companhia, a sua audiência, espero que você tenha mais empatia, mais respeito por estes profissionais, pelos atletas que estão competindo, que estão treinando, é do esporte, às vezes acontece de não vir uma medalha, de não vir um resultado que você espera, mas tem um conjunto em torno de um atleta da sua comissão, Então, é um assunto bastante importante que nós vamos abordar mais vezes aqui no Mais Esportes. Já fica o convite aqui para uma próxima oportunidade ou Mais Esportes. Continue na TV Câmara Campinas e até a próxima. Tchau, tchau. Transcrição e Legendas Pedro Negri Legenda Adriana Zanotto
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