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Uma das lendas de Campinas é a do boi que falou, atribuída ao milagreiro Toninho do cemitério, diz a lenda que numa sexta-feira santa, ao tocar a boiada, um boi teria falado com Toninho que neste dia não se deveria trabalhar. A história de Toninho e a lenda são temas do curta hoje não, dirigido por Daniel Almeida, que além de professor atuou como porteiro Marlon em Ainda estou aqui, o único filme brasileiro a ganhar um Oscar. Em primeiro lugar de ser um trabalho a partir de um projeto de uma ex-aluna minha, né, de de cinema. É professora da rede aqui de Campinas. Isso me orgulha bastante por essa questão do cinema pedagógico, educativo. Eu acho que segundo essa história eh que me pega tanto, perpassa tanto, que é do Toninho Milagreiro. Gosto de falar milagreiro porque quando a gente contém nas histórias sempre Toninho escravizado, exravizado. Não, para mim Toninho milagreiro. Gosto pontuar dessa maneira, né? e tá nesse lugar na onde o jazigo dele tá aqui, onde ele recebe homenagem até hoje, pessoas agradecendo as suas graças e tudo. Fazer essa homenagem através do cinema para essa pessoa tão importante para a cidade de Campinas é gigante, né? Além de Daniel, da atriz e roteirista Cláudia Garcia e do ator J Morais, grande parte da equipe de produção, de filmmakers e sonoplastas é composta por pessoas pretas, marcando a mudança de um tempo. E aí você tem essa produção também que por trás das câmeras, né, você tem uma uma quantidade de trabalhadores pretos da cidade também é muito importante, né? Porque a obra em si, a gente fala, OK, depois ela vai pro mundo, vai atingir cada pessoa de uma forma, mas enquanto a gente tá fazendo, é tudo isso aqui, né, que vocês estão vendo, é essas pessoas trabalhando, construindo, trabalhadores, trabalhadores da cultura construindo a história da cidade, porque a gente de uma certa maneira vai passar, a gente tá no cemitério da saudade, vai passar, mas essa mensagem que é a imagem fixa, né, ela fica. Cláudia é professora da rede e frequentou as oficinas de cinema do Daniel para aplicá-las aos alunos. Mas hoje não, seu primeiro roteiro foi classificado pelo ProAC junto de outros 11 concorrentes, de um total de 500 inscritos. Quando a gente pensa na história do Toninho, né, a gente vê uma a construção dessa lenda muito ligada ao Barão. E o Toninho meio que some da história, né? E isso daí me incomodava na história, né? Cadê o Toninho? E aí nas minhas pesquisas, além do Toninho, eu ainda encontrei a felicidade que é a esposa dele. Esses personagens são reais. o Toninho, claro, vão ter outros personagens do no filme que não, mas o o o Toninho, o Barão e a felicidade são personagens que existiram. E aí eu trouxe essa mulher também pra história, né? Eh, da força da mulher negra também dentro dessa história e contar a perspectiva a partir do escravizado, né, que era uma perspectiva que a gente não percebia nas outras histórias. O único registro da história foi feito pela neta do Barão, Geraldo de Rezende. Ambos, Barão e escravizado, estão enterrados lado a lado no cemitério da cidade. Hoje, Toninho é considerado um milagreiro e seu jazigo tem inúmeras placas de agradecimento por graças alcançadas, dando uma meio de Tarantino do que você gostaria que fosse, como você gostaria que essa história tivesse acontecido, entendeu? Foi um pouco pensando nisso. Os registros contam que Toninho já era um rezador reconhecido inclusive pela baronesa. Hoje um milagreiro. Talvez só alguém que tenha sentido na pele e na alma o sofrimento da escravização pode sentir a dor do próximo e auxiliar os que buscam por socorro. E a realidade de representar esse personagem é desafiadora. Tem sido um prazer, um aprendizado enorme, né? Eh, não só contar a história de Campinas, mas trazer também a história de um de um ancestral, vamos dizer assim, de um ancestral, né? Que também é uma alegoria de uma classe lutadora, né? De uma classe que resolveu dizer hoje não, né? E isso é maravilhoso. Tem sido um processo de aprendizado, né? Eh, trazer esse personagem eh tem me ensinado muita coisa, né? A gente tem que se despir de muita coisa para eh eu não gosto de dizer incorporar, né? Mas de representar, né? O Toninho, que é uma história de liberdade e de luta de classe, né? Vamos dizer assim. Além de resgatar a lenda do boi que falou, hoje não é um convite, a reflexão de uma luta que é ancestral, mas também muito atual, porque o filme, para além de de falar dessa questão eh eh da história do Toninho e a história preta da cidade, mas fala sobre direitos de trabalhadores. Então, uma pessoa também que não seja negra, preta, ela também se identifica, porque a gente tá falando de direitos dos trabalhadores nesse filme. Então, qualquer pessoa, de repente, até no outro país que não tem essa história de escravização como a gente teve aqui, vai entender o que que a gente quer debater. E tem um ditado africano que diz que o leão vai ser sempre mal se você só ouvir a história do caçador. Então, né, bem no meio dessa concha de retalhos, nós estamos seguindo por uma visão eh dos próprios escravizados, né? uma visão eh trazida com a a etnia negra, né? Então, é uma visão como se fosse um negro falando de um negro, né? Não essa coisa eurocêntrica, né, que tem na nossa cultura. Hoje não é um convite para um mergulho na história contada, recontada e ocultada da cidade e de nossos ancestrais. Quando eu converso com meus alunos sobre eh essa história e eu percebo que poucas pessoas conhecem, né? E é é assim, Campinas é uma das poucas cidades que tem uma lenda própria. E aí eu fico, né, tipo eh assim abismada, como assim as crianças não conhecem, né? Só que o que eu tenho também de referências, eu não me animava a a contar a história, entendeu? Então, eh, para uma base de uma educação antirracista, eu acho que é uma história perfeita, assim, né? E é o que eu pretendo trabalhar com eles, né? Com essa história na escola.Á, esse filme, eh, apesar de ser um curta, ele tá contando uma história que é muito longa e que ainda tem muitos passos aí pela frente, né? E aí uma eh o nome que se dá a isso, né, que é o hoje não. Eh, esse hoje não ele é atual, né, para várias coisas, né, que a gente tem que continuar dizendo, né? O preto da periferia, ele tem que sempre tá dizendo: "Não, hoje não, cara, não vai fazer isso comigo, sabe? Eu não vou mais um preconceito, eu tenho que fugir de, sabe, hoje não pra fome, sabe? Hoje não, eu preciso dos meus direitos". Então esse nome para além do que o Boi fala, que é o dia sagrado que não pode trabalhar, para que que a gente tá dizendo esse não atual e que liberdades que a gente quer, né? Então, para mim tá nessa, tá nesse ponto filme.