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Antes dos prédios, das avenidas, dos shoppings, aqui existia gente negra plantando, colhendo e sonhando liberdade. Escravizados por séculos por um alicerce invisível de Campinas. Um detalhe histórico que escancara a dor e que a abolição foi uma das últimas a acontecer no Brasil. Dentro da cidade de Campinas, a gente tem diversas referências que nos rememoram a presença negra nessa cidade. Podemos começar com Carlos Gomes, que foi uma referência musical, Avenida Francisco Glicério, que foi um grande político republicano. Podemos falar daquela região ali da igreja de São Benedito, que foi o primeiro cemitério dos cativos. Podemos falar do cemitério da saudade, aonde tem o escravizado Toninho, que é que deu origem à lenda do boi falou. E podemos falar também da contemporaneidade da casa de cultura fazenda Roseira, sindicato das Trabalhadoras Domésticas com Laudelina de Campos e a própria Casa de Cultura Fazenda Rozeira. A cidade de Campinas, ela é pgente com a presença negra e ela se move a partir dessas referências culturais, que aqui a gente tinha uma grande concentração de poder, fazendeiros que inclusive construíram uma companhia mogiana para tirar o café. Então, quando a gente tem um poder centralizado, a gente sabe que as hierarquias de ordem podem ser diferenciadas. A escravidão em 1888, né, teve abolição no país inteiro. Mas mesmo Campinas seja uma sendo uma cidade central dentro do estado de São Paulo, muitos fazendeiros praticaram a escravidão até 1920 em suas fazendas. Muitos descendentes dessas pessoas escravizadas ainda estão aqui. Famílias negras tradicionais guardam memórias, objetos, tambores, histórias e resistências que não cabem nos livros. Cada sobrenome carrega uma luta, cada rosto uma memória viva da cidade. Comunicação com a nossa ancestralidade, né? Entendendo que o tambor foi o primeiro meio de comunicação nesse momento de tecnologia, eu acho que a gente poder voltar pros toques dos tambores e se conectar com esse pulsar do tambor é uma forma da gente pisar na tradição, salvaguardar a nossa ancestralidade e com certeza eh consecutivamente a gente conseguir dar continuidade nessa tradição tradição através da percussão, através do canto, através da dança. E isso nos ajuda a pensar a intergeracionalidade, né, com os nossos mais velhos e com as nossas crianças. Aqui entre rituais, reencontros e oficinas, a cultura negra é semeada como um direito. Com raízes profundas, a comunidade João Godito Ribeiro é muito mais do que dança. É grito de liberdade e memória. O casarão, que um dia abrigou a exploração, hoje abraça cultura na fazenda Rosezeira. A comunidade negra organiza rodas de jongo, aulas de capoeira, plantios sagrados, história da África. é um lugar de encontro, ensino e esperança conduzida pela comunidade Jongo dito Ribeiro. Então, a salvaguarda do Jongo, a transmissão dos saberes do Jongo, ela é central em tudo o que a gente faz aqui. Mas a gente também atua na área de educação com formação de professores, empresas, escolas na luta antiracista. Temos um olhar para as questões climáticas a partir do nosso projeto de cosmovisão ambiental e o cuidado com a nossa PP frente a essa grande especulação imobiliária que a gente sofre, né? A gente tem o único coração verde dessa região agora e as atividades culturais tendo como te e foco a matriz africana, seja ela praticada no Brasil, seja ela praticada na na América Latina ou continentes africanos. é um espaço aonde todas as atividades culturais estão voltadas para o fortalecimento, identidade e conhecimento dessa presença negra no nosso município. Além da cultura, há uma luta diária por políticas públicas e respeito. A Coordenadoria Departamental de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial foi criada em 2001 para fortalecer essa identidade e enfrentar o racismo de forma estrutural. mexe com algo que é ancestral. Então eu fico pensando no Tito, mestre Tito, que em 18 eh 18 ele nasce em África, chega em 1829 no nosso território, vem para Campinas e e quando você olha a história desse escravizado, mas que tinha um dom muito eh eh eh divino, que era de curar pessoas e E aí, num momento aonde havia uma mortalidade muito grande no município de Campinas, ele ele faz um trato e ele diz o seguinte ah pro eterno, né, pras forças ancestrais, se ele fosse protegido daquela doença, daquela morte, ele eh criaria no município algumas coisas. E entre elas a Igreja de São Benedito. Ele começa todo um projeto para e emancipação religiosa eh do povo negro. Eh, ele faz um movimento interessante porque ele vai para dentro da Câmara Municipal. Em 1867 ele enfrenta os vereadores e e ele faz essa proposta. Depois ele enfrenta a cúria da Igreja Católica Apostólica Romana e e ele transforma a a pequena capela de Bequior numa igreja, a igreja aonde nós, né, os meus bisas, a minha ancestralidade eh eh frequentavam. Eu penso também na primeira mulher negra que se torna vereadora no município de Campinas. em 2002, a Maria José da Cunha, ela ela quebra esse paradigma estrutural, institucional e e ela se torna uma vereadora nesse nesse município tão preconceituoso. Na educação superior, a universidade também avança. O Centro de Estudos Africanos e Afrobrasileiros, Dr. Iia Quintino da PUC Campinas reúne docentes, alunos e o movimento negro para desenvolver pesquisas, ações afirmativas e projetos de educação étnico-racial. Inaugurado em 2023, o centro surgiu do esforço de grupos que desde 2018 constróem um protocolo permanente de igualdade racial na cidade. Então, quando nós trouxemos intelectuais negros para falarem sobre nós, que eu sempre digo nada sobre nós sem nós, porque nós é que sabemos contar a nossa história. Tom Teófilo Reis que fez doutorado em Harvard, Lucy Crispin, Ângela Soligo e assim o time é composto de negros e brancos e todo mundo com um compromisso nessa pauta. Campinas caminha para o futuro, mas não pode esquecer quem abriu a estrada com os pés descalços. O povo negro construiu essa cidade com mãos, achés e histórias. Que os próximos 251 anos sejam de reparação, memória e respeito. Qual que é a nossa missão? eh é carregar essa história, mas a cada dia fazer com que eh um pedacinho eh daquilo que foi plantado ou lançado por pelos nossos ancestrais como mestre Tito, né, eh se torne uma realidade para quem está vivendo hoje. Então, numa sociedade repleta de discriminações e preconceitos, a nossa própria materialidade, a nossa própria presença e a nossa forma de atuação fortalece cada criança e cada jovem que chega aqui, porque eles se reconhecem em nossos corpos, se reconhecem em nossas cores e se reconhecem também em nossas práticas quanto protagonistas de nossa história, de nosso trabalho, de nosso desejo, de podermos sermos o que quisermos. Então, além do do espaço formativo de entender que o racismo foi construído numa sociedade escravocrata e que é um compromisso de brancos, negros, indígenas e de toda a população ser antiracista, entender as esferas do racismo, a gente tem a plena certeza e convicção que a representação, o estar, o falar por nós, os termos oportunidade em todos os espaços contribui pro fortalecimento dessa identidade negra. Deus comen de Deus vem com Deus. Vem com Deus. Deus.