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A nossa orquestra: 90 anos de história
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A nossa orquestra: 90 anos de história

513 views Publicado 09/01/2020 HD · 1:40:03

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Nos 90 anos da orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, a TV Câmara Campinas conta toda a trajetória do conjunto, desde sua fundação em 1929 até o reconhecimento como patrimônio imaterial da cidade.

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Música Olá, a TV Câmara Campinas orgulhosamente apresenta um especial dos 90 anos da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. Um organismo vivo e vibrante, a materialização de um sonho de jovens músicos do final da década de 20 em uma sociedade que carecia de cultura e arte em um momento de profunda crise econômica. Algo que se transformou com o tempo na identidade de Campinas Brasil afora. 90 anos depois do surgimento da Sociedade Sinfônica Campineira, A hoje Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas carrega o status de principal equipamento cultural da cidade, mudando a vida de pessoas pela música. Neste especial, nós apresentamos toda a história desse conjunto orquestral, os serviços prestados pela orquestra para a população, a rotina de estudo dos músicos, a influência de Carlos Gomes, um dos maiores compositores de óperas das Américas. A partir de agora, você vai saber como e por que a Orquestra Sinfônica de Campinas se tornou um patrimônio imaterial na nossa cidade. Uma orquestra de todos os campineiros. Uma orquestra de todos nós. Essa é a nossa orquestra. Representa tradição, representa continuidade, mas também representa muitas vidas e muitas histórias. Ao longo de 90 anos, certamente muitas pessoas passaram não só pelas estantes da orquestra, mas também pela administração da orquestra, pela regência própria. E em 90 anos, certamente a Sinfônica Municipal Há tocado muitas vidas A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas É um dos maiores patrimônios culturais da cidade A gente tem que pensar historicamente Campinas foi a primeira cidade, não capital A ter uma orquestra sinfônica profissional assalariada E hoje ainda é uma das poucas cidades que tem uma orquestra profissional assalariada. Se você pensar bem, no patamar em que ela ocupa, no mundo sinfônico brasileiro, a respeitabilidade que ela tem, a importância que ela tem, nenhuma outra orquestra de cidade não capital tem. Então, é um grande patrimônio. Eu acredito que uma orquestra sinfônica, além de ser um equipamento cultural de entretenimento, ela também define um caráter, define uma forma da própria cidade pensar, do próprio cidadão pensar aquilo que lhe é importante. A existência da Orquestra Sinfônica de Campinas marca todo um trabalho feito na música orquestral sinfônica Desde lá do período colonial, passando por Carlos Gomes, até o período moderno Quando nós temos vários compositores importantes na cidade Bom, a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas é uma joia cultural ímpar Eu posso dizer no Brasil, porque é uma das orquestras mais antigas que nós temos aqui no país. Ela é uma referência ainda. Ela é uma orquestra que deu visibilidade a muitos músicos e maestros que depois se tornaram importantes. Então ela foi um trampolim para vários artistas. Além do que, eu costumo dizer que a Orquestra Sinfônica de Campinas é a guardiã da memória de Carlos Gomes. É um nome que não pode ser esquecido. O Brasil é muito carente de exemplos e com certeza Carlos Gomes é um desses. Então ela cumpre um papel importantíssimo na cultura não só de Campinas, como no Brasil. Uma orquestra sinfônica é, na minha opinião, a expressão mais elevada do pensamento do Ocidente. É um monte de instrumentos, ao longo da história, que foram se organizando de uma forma disciplinada, programada, definida, para produzir o som de muitas das criações dos grandes compositores da história. E, em uma sociedade, uma orquestra sinfônica não é simplesmente algo acessório, algo que poderia não estar. É um elemento fundamental, é um indicador da qualidade de uma sociedade. A forma como uma sociedade se relaciona, tem um relacionamento com as artes, com a cultura, com a música, fala muito da qualidade de dita sociedade. E se nestes 90 anos a Sinfônica Municipal de Campinas tem tido um alto nível de qualidade, é porque a cidade de Campinas oferece também esse alto nível de qualidade para seus cidadãos. E é um indicador muito forte, é um indicador de civilidade, de sociedade, de educação e de qualidade de vida, certamente. A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas tem uma trajetória ligada à cidade de Campinas que a faz hoje reconhecer como patrimônio da cidade, ligada aos aspectos da identidade, aos aspectos da história do município e a música. Campinas tem toda essa ambiência, então, acho que essa trajetória da orquestra, desde 1929, de uma sociedade sinfônica, da sociedade civil, há uma representatividade da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, ela conta também a história de Campinas. Quando um olha o início da Sinfônica de Campinas, por exemplo, que foi um momento bastante particular da história do Brasil e da história do mundo, era um momento de profunda crise, era a crise econômica de 1929, era poucos anos antes da Revolução Constitucionalista dos anos 30, no Brasil, tinha muitos motivos pelos quais a sociedade campineira da época poderia ter perfeitamente justificado não fazer a orquestra, porque existiam outras preocupações. E, sem embargo, decidiram que era importante nesse momento, que as questões do espírito, as questões da vida melhor para cada um, eram, francamente, melhores com essa orquestra. Por 90 anos, a orquestra tem sido parte fundamental da história de Campinas e a história dos campineiros, é impossível pensar esta cidade sem a orquestra sinfônica. Para Campinas é uma coisa muito importante a sinfônica, porque é onde a gente pode levar cultura para o povo, e é o que eu falo, é o brinco de ouro do campineiro, a sinfônica de Campinas, sabe? A gente não imagina Campinas sem essa orquestra. Aqui em Campinas, as pessoas me perguntam como está a nossa orquestra. Há um senso de pertenência desta agrupação com as pessoas, um senso de orgulho, um senso de que sim, existem problemas, mas a orquestra representa o que Campinas tem de melhor para mostrar ao Brasil e ao mundo como instituição. Eu acho que toda cidade, dentro do tamanho, tem que ter uma sinfônia, que seja pequena, média ou grande, não importa. Porque isso aí une as pessoas, você começa a ter um certo envolvimento cultural e faz parte do dia a dia. É minha alma, a música e a orquestra. Viva nosso orquestra! A CIDADE NO BRASIL A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, como conhecemos hoje, foi oficialmente municipalizada no dia 19 de março de 1968. Mas essa história começou muito antes. Se até pouco tempo a data precisa da fundação da orquestra não era de conhecimento geral, documentos antigos, recentemente encontrados, acabaram com a dúvida. O primeiro concerto, ainda sob o nome de Sociedade Sinfônica Campineira, foi em 15 de novembro de 1929. São esses documentos que passam por restauração aqui no Centro de Memória da Unicamp que comprovam que a OSMC é a mais antiga orquestra em atividade no Brasil. 90 anos de uma bela história. Atualmente, nós contamos com quatro conjuntos que dizem respeito à Orquestra Sinfônica. Mas um deles tem a ata de fundação, bem como os vários concertos que tiveram lugar na cidade a partir de 1929 e que comprovam a existência e a fundação nessa data remota. contendo o registro das pessoas presentes nesse ato de fundação e as demais reuniões que se sucedem pelo menos até 1944. E também o folheto, o programa, aliás, do primeiro concerto que foi realizado em Campinas em novembro de 1929. Olha, pontinho, documentos referentes à orquestra fundada em 1929 por músicos que eram da banda Ítalo-Brasileira. João de Túlio fazia parte desse grupo, Salvador Bove também, e a família, o Luiz de Túlio, Mário de Túlio, Pompeu de Túlio, também foram sócios fundadores dessa orquestra que se chamou Sociedade Sinfônica Campineira. A contribuição da família de Túlio durante esse período, que teve o pai envolvido, os filhos, sobrinhos, Essa família também é responsável por doar parte desse material Uma outra parte desse material foi encontrada e está sendo higienizada e cuidada pelo centro de memória Em 2013, ainda não se havia certeza dessa data E houve uma coincidência muito interessante Nós estávamos pesquisando, realmente tentando levantar esses documentos E um dia, um senhor procurou a primeira dama, Sandra Ciosi, sabendo que ela é muito ligada à orquestra, gosta muito da orquestra, ajuda no que ela pode, né? E procurou, e falou, olha, eu encontrei essa pasta aqui, num container, num desses descartes de obra, coisa do tipo, né? E aí, ele falou, olha, eu vi que era uma coisa de orquestra, eu trouxe para a senhora e entregou para ela E quando ela foi ver, eram justamente os documentos que tinham Os programas originais da orquestra de 1929, textos sobre a criação Era um pequeno arquivo histórico sobre a orquestra E foram esses documentos que deixaram clara essa data de 1929 Esses registros fundamentam a existência ou comprovam a origem das instituições existentes na cidade e possibilitam ao historiador elaborar uma história crível, Uma história baseada em documentos, não em achismos, em histórias mal fundamentadas A orquestra começou em 1929, isso nós temos agora, foram localizadas há pouco tempo Essa documentação, a ata de fundação E a gente percebe que aquilo era um movimento dentro da cidade de criar um grupo Porque já havia a banda, que era a Italo-Brasileira, depois se tornou a banda Carlos Gomes Mas a ideia de formar uma orquestra Então aquilo não tinha uma intenção das próprias pessoas Não tinha nenhum financiamento público, não tinha nada As pessoas se reuniram para formar uma orquestra Esses documentos, com certeza, você vê a ata claramente contando a história São várias atas, são vários programas dos eventos que tinham Os lugares, o teatro municipal, toda a passagem A própria Secretaria de Cultura quem são os personagens envolvidos. Então acho que esses documentos, além de comprovar, eles também têm muitos recortes de jornal que trazem a importância dessa orquestra não só em Campinas, como fora de Campinas, como ela nos representa em outros lugares. Então ela representa aquele ambiente da cidade desde aquela época. E durante o tempo ela vai se mantendo com alguns percalços Com a vida desses grupos complicados Até que ela vai se tornar municipal Então ela é uma parte integrante da vida da cidade Ela tem raízes na cidade Se você pensar, de 1929 até hoje são os 90 anos Então é uma história bastante longa uma sociedade de músicos que com duras penas vão se instituindo como um grupo. Na primeira ata você vê uma formalidade de querer colocar aquilo como uma instituição mesmo. Eles já não tendo um lugar para ensaiar, mas eles revezavam lugares, recebiam apoio de instituições culturais, como o próprio CCLA e o Conservatório Carlos Gomes. Eles abrigavam os ensaios da orquestra E uma dificuldade de se manter E ela extinta em alguns momentos E retomando Mas sempre esses mesmos músicos Passando essa trajetória Não é que não era profissional Hoje em dia a gente usa essa palavra amadora Como uma amadora que toca mal Não é amadora, é gente que gosta de tocar E eram pessoas que queriam tocar E fazer o melhor possível Então, acho que é um... e aí é admirável esse grupo se manter com alguns momentos, enfim, mas se manter até hoje, né? 90 anos dizem aí que talvez seja a mais antiga do Brasil, né? Em atividade, claro, existem outros que param, mas em atividade talvez seja a mais antiga, né? O que é uma coisa importante, né? É um milagre no Brasil. Primeiro porque é muito difícil você ter uma orquestra sinfônica, Principalmente do tamanho que é a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas Outra coisa rara é ser a primeira orquestra sinfônica do tamanho que é Em uma cidade que não é capital Então isso, vindo há 90 anos, a gente pode considerar um milagre Porque a gente vive num país que não tem essa cultura Nós queremos também construir um acervo da sinfônica e aproveito de convidar a todos os cidadãos que possam ter materiais da orquestra, programas, recortes de jornal, gravações, fotos, de essa história, que queiram nos colaborar com a construção desse acervo, que podem vir para nós para fazer cópias, para deixar isso para as próximas gerações. Eu adoraria que existisse um museu da orquestra sinfônica, um ala que conte essa história para as próximas gerações. Acho que uma instituição que este ano está cumprindo 90 anos, tem muita história para contar e uma história muito interessante que as pessoas têm o direito de conhecer. Campinas sempre teve uma vida cultural muito intensa nessa época. Grandes companhias de teatro, de operetas vinham para Campinas e a orquestra sinfônica era muito frequentada. A gente completar 90 anos, a gente pode pensar que foi um trabalho complicado, difícil Passamos por várias coisas, os nossos antepassados músicos tiveram força, garra E isso aí pra mim é muito lindo Para realizar um concerto de alto nível, a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas depende de muitos fatores, inclusive aqueles invisíveis aos olhos do grande público Tudo começa nos bastidores, na produção da orquestra e que depende do seu acervo grande. Aqui estão catalogadas quase 3 mil obras de diversos compositores, a grande maioria delas já apresentada às mais diversas plateias. Todo esse tesouro musical, incluindo partituras, libretos e até mesmo gravações antigas, fazem parte da história da nossa orquestra. A Orquestra Sinfônica, vamos, entre aspas, separar em dois momentos. O corpo artístico, que são os músicos, o maestro, que estão apresentando o concerto para o público. E a gente tem o corpo administrativo, que trabalha todo o redor, faz acontecer o concerto, faz acontecer um concerto fora da cidade, faz acontecer todos os eventos relacionados à orquestra. Então, sem a equipe de produção e o setor de arquivo musical, ficaria mais difícil. Como foi no começo da história da orquestra, eles eram meio que mais improvisados, eles se reuniam, tocavam, conseguiam lugar, iam atrás de fazer, eles começaram a dar cargos e funções para os próprios músicos executarem. Então, assim, ter uma equipe toda por trás para fazer isso acontecer é extremamente importante. Olha, uma orquestra sinfônica, principalmente como a Sinfônica de Campinas, ela é uma orquestra muito eclética, então ela trabalha no campo erudito, no campo do popular, obras novas, por exemplo, que tem compositores novos aparecendo, a gente toca essas obras, e isso vai muito ao encontro do público, porque o público é muito eclético também, E assim, principalmente aqui em Campinas, que temos universidades, temos variados gostos musicais. Então a gente atende bem a todos esses públicos. O acervo da orquestra possui obras que são cópias. Algumas obras, a maioria delas, são obras originais de editoras. E temos também um bom acervo de manuscritos originais, como, por exemplo, o Damiano Cozella. Tínhamos o do Ciro Pereira, mas a família solicitou, a gente enviou tudo para eles. A gente tem alguns manuscritos do Almeida Prado, então são obras que foram feitas por eles. Tem um documento com reconhecimento em cartório. Então, assim, são coisas históricas, importantes, é um patrimônio, na verdade. Esse livro resulta de um trabalho, uma colaboração com a Sinfônica, desde 2003, que é quando eu comecei a fazer notas de programa para os concertos oficiais. Então, todos os concertos vêm com aqueles comentários, enfim, sobre as peças, os compositores, e aí que eu comecei a trabalhar com orquestra, isso em 2003. Eu fiquei, me surpreendi quando eu fui publicar o livro da quantidade de trabalho que tinha sido feito, porque são cerca de 150 compositores, mais de 400 obras, né, então foi um trabalho ao longo do tempo, não foi um trabalho que eu fiz de repente, mas foi um trabalho ao longo do tempo e isso foi bastante interessante o resultado foi bastante interessante a gente tem por volta de 3 mil obras no acervo esse material, como eu disse tem alguns que são manuscritos originais então ela tem todo um símbolo, representa alguma coisa, tem um símbolo histórico mesmo envolvendo isso obras de editoras muito antigas, primeira edição, às vezes sabe, mesmo que não era um manuscrito original, mas primeiras edições, então é muito importante guardar porque são documentos que contam uma história. O acervo faz sendo construído ao longo dos anos. Quando eu entrei na orquestra, em 2006, nós tínhamos por volta de 1.200 obras. Hoje já atingimos ali na casa dos 3.000. É um repertório muito variado, quer dizer, analisando esse conjunto do livro, tivemos um repertório muito variado, então Então, peças de todos os gêneros, de todas as épocas, muita música brasileira, muita música que foi feita para a Sinfônica. Então, além do fato de fazer o livro e de publicar, foi importante ver também que o livro mostra essa produção da Sinfônica e é bem intensa. Então, cada programa é diferente, todos demandam uma pesquisa, de procurar o compositor, a história, contextualizar as peças. Então, deu para ver que o repertório da sinfônica durante esse período é bastante amplo. São mais de 60 apresentações por ano. Eu gosto de pensar que nós somos um grande restaurante com um cardápio muito amplo, muito abrangente. São quatro pilares que sustentam a programação da orquestra. Primeiro são as peças conhecidas e habituais que todo mundo quer escutar do que a gente faz. Carmen de Bizet, as Quatro Estações de Vivaldi, Carmina Burana, a Nona Sinfonia de Beethoven. As peças tradicionais e habituais do repertório, que obviamente todo o público tem direito de escutar muitas vezes. Outro pilar são as peças desconhecidas dos compositores conhecidos. tem muitas sinfonias de Haydn que nunca foram apresentadas, tem muita música de Beethoven que não é tão conhecida, mas que é importante também apresentar. O terceiro é a música contemporânea, a música que se escreve na atualidade. Muitas pessoas acreditam que já não se escreve música, mas na verdade se escreve muita música e muito boa. E não vamos esquecer que em seu momento, Beethoven, Mozart, Carlos Gomes eram compositores contemporâneos, eram compositores da sua época. Se essas orquestras dessa época não tivessem tocado a música deles como contemporâneos, a gente não conheceria essa música. Então nós temos uma responsabilidade também, como presente e como futuro. Temos que dar espaço às novas gerações de compositores brasileiros, de compositores campineiros, às novas linguagens, aos novos caminhos que a música vai percorrendo. E quarto é a música brasileira, no amplio senso da palavra. Inclui também a música contemporânea, inclui a música popular brasileira, que o Brasil tem um tesouro maravilhoso de música popular. Inclui a música de Carlos Gomes, inclui os repertórios habituais. Com todos esses pratos, a gente faz nossos menus semanais, sempre diferentes. O músico arquivista, basicamente, preza pelo funcionamento do acervo, pelo cuidado, pela produção de todas as partituras que são utilizadas pela orquestra. Então tem toda uma salvaguarda do material num acervo, acondicionados em pastas, tem que ter todo um catálogo disso, então a gente tem todo um controle do que tem. E conforme for sendo solicitado para a temporada, nós pegamos o material que a gente não tem, vai em busca de várias formas e prepara o material e disponibiliza para a orquestra tocar em cada uma daquelas pastas que todo mundo nos concertos vê músico virando papel, foi preparado pelo setor do arquivo musical. Para chegar nas nossas mãos, então passa por eles inclusive a revisão, a organização do material, de modo que a gente possa ter clareza das informações gráficas musicais na estante, para que não haja nenhum erro na hora da execução, porque para o maestro O produto que ele precisa é o produto sonoro Mas isso advém da escrita gráfica que passa pelo arquivo Então a gente está tentando ao máximo Transformar esse acervo num patrimônio de verdade Para a orquestra e para a cidade poder falar Poxa, a gente tem um acervo bom Um acervo bem cuidado Que pertence a essa cidade, que pertence a essa orquestra Ele é um acervo público Então já vieram situações em que estudantes de doutorado Vieram até a gente fazer consulta de material para as suas teses Então para a gente é muito interessante participar desse tipo de situação também Porque a gente deixa mesmo de ser um lugar onde você arquiva papel Para ser um momento de história, para ser um momento de cultura, para ser um momento de arte também Inclusive eu sou do Rio de Janeiro, sou carioca Eu vim de outra sinfônica E quando eu vi, assisti aqui Que meu irmão já tocava aqui, viria assistir a orquestra Eu fiquei fascinada Pelo repertório eclético Da sinfônica Sabe, a gente toca do popular Ao clássico, ao erudito Aquela sinfonia Concertos de piano A um frevo, entendeu? Isso mexeu muito comigo, é o que eu gosto Acho que música tem que englobar Todos os ritmos Todos os tipos e é um orgulho muito grande para mim ser da Sinfônica de Campinas. Não é o mesmo tocar aqui no teatro que tocar ao ar livre, não é o mesmo tocar no centro de Campinas que tocar na periferia, não é o mesmo tocar no Festival de Música Contemporânea que tocar no Mês de Carlos Gomes, não é o mesmo repertório do concerto de Natal, do concerto de abertura da temporada. São muitas linguagens, são muitos idiomas. Uma orquestra tem que ser capaz de falar todos esses idiomas, de falar todas essas linguagens, para chegar a todos esses públicos. Tentamos que o cardápio seja o mais amplo, abrangente e interessante possível. Eu acho que a gente acerta a maior parte das vezes. No próximo bloco, você vai conhecer o trabalho da orquestra a serviço da população, com os concertos populares e distantes dos centros habituais. E ainda com as escolas do município para formar novas plateias. O intervalo é rápido, hein? Nós voltamos já. Levar cultura e arte para a população de Campinas sempre foi uma das premissas da Orquestra Sinfônica Municipal nesses 90 anos de história. A música tem o poder de transformar uma pessoa, que tal então transformar toda uma sociedade? Um concerto a céu aberto como esse tem essa oportunidade de unir desconhecidos de diferentes tribos, diferentes histórias de vida, todos juntos, por um bem maior, apreciando a música. Música palco, de iluminação, de cadeira, de poder chegar a essa população. Então, é um processo que começa dois ou três meses antes da apresentação de fato. A nossa orquestra teve uma marca sempre, desde a sua origem que eu falei com o maestro Benito Juarez, ele tinha muito essa perspectiva de popularizar a orquestra, nos dois sentidos, tanto levando a música sinfônica dessa tradição para o público, Em loco, inclusive, aquele público que não vai ao teatro Vamos ao bairro, vamos tocar na praça pública Ele tinha muito esse espírito E também, em paralelo Levando a tradição musical brasileira Da canção brasileira, que é muito forte Que é a nossa grande tradição musical Para o mundo sinfônico Quando a sinfônica se apresenta em bairros A gente percebe que a população fica encantada Sabe que o tipo de música que a orquestra apresenta Eram concertos populares, ele levava a orquestra a público E uma parte do repertório era constituída dessas peças sinfônicas Da tradição sinfônica E metade do repertório daquele concerto era de peças populares De canções dos nossos grandes compositores Noel Rosa, Chico Buarque, Tom Jobim Adaptadas para uma versão sinfônica E foi isso que fez o grande nome da Orquestra de Campinas. Ah, uma delícia, né? Eu já fui a algumas apresentações da orquestra, gosto bastante, principalmente quando mescla, né? E eles buscam a diversidade, gosto bem, assim. E aí o Alivre, na praça, aqui em Barão, delícia, né? Só uma oportunidade boa, conviver com a comunidade, espaço do coletivo, bem importante, assim. Eu acho que a céu aberto é muito especial, eu estava pensando nisso agora enquanto ouvia, é um privilégio você morar em uma cidade em que uma orquestra se preocupa em levar para os distritos, para a população em várias regiões diferentes, uma qualidade musical tão bonita. Esses conselhos que nós fizemos, foi uma série que nós fizemos em bairros, nossa, a receptividade foi muito boa, nós ficamos muito felizes que o conceito está mudando de música clássica, a gente tocou áreas de Carlos Gomes, sabe, com a cantora e a gente ficou assim perplexo, vê, olha só, pessoas mais de fora, né, não é tanto aqui central, estão gostando do que a gente está fazendo, estão gostando de música erudita, música clássica, então a gente tenta sair levando isso para aquele povo que não pode, não consegue vir ao teatro. E estes concertos são muito importantes porque a pessoa que vai para os concertos de teatro é uma pessoa que está suavemente habituada a ouvir a orquestra. Mas nesses concertos tem pessoas que escutam a orquestra pela primeira vez. Tem crianças que escutam pela primeira vez a sinfônica e talvez despertem nelas o carinho pela orquestra, a vontade de ser músicos, talvez o próximo violinista da orquestra esteja aí, talvez o próximo maestro da sinfônica do futuro, das próximas gerações estejam entre essas crianças. Então é uma responsabilidade muito grande, muito importante para o futuro e para a população de Campinas. Eu conheci a Orquestra de Campinas em uma outra cidade que não era a cidade de Campinas. Então é fantástico você ter essa possibilidade de levar cultura, levar arte, levar música para o maior número de pessoas em todos os lugares. Aqui é um celeiro de músicos, e não é só os que estão na orquestra, a orquestra serve de inspiração, sabe, para uma profissão, sabe, o cara vê, como foi para mim, eu, molequinho, nossa, que coisa maravilhosa, como é que se faz isso, Então eu acho que eu me dei conta que ali eu havia descoberto qual o meu legado, a minha função nessa existência. Eu vou ser músico e acabou, né meu? E assim como eu, tantos outros. Para mim foi um grande sonho entrar na orquestra. Eu entrei na orquestra há 25 anos e era... Quando eu era pequenininha assistindo a Orquestra Sinfônica de Campinas lá em Sorocaba, na minha cidade Eu pensei, eu queria tocar nesse conjunto Então quando eu entrei na orquestra foi uma grande realização Já a gente tinha ido num evento no Teatro Castro Mendes Também um evento ligado aos 90 anos Esse ano a gente foi lá com a Júlia, mas aqui vendo na praça é incrível, muito bom essa proposta de trazer a sinfônica para perto do público. Isso é muito importante tanto para as crianças quanto para todos os adultos, a gente ter essa possibilidade de poder assistir a sinfônica tão de perto. Procuramos realmente, de fato, disseminar a música sinfônica para a população, fazer com que ela chegue realmente ao cidadão e que ele possa usufruir dessa experiência que hoje é um privilégio ter uma orquestra. Então, que bom que nós temos e quanto mais gente nós tivermos assistindo a orquestra, participando da vida dela, melhor será. A orquestra é um serviço que a cidade dá para seus cidadãos. Se não somos a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, Quer dizer que somos a orquestra de todos os campineiros. E, portanto, a nossa missão é tentar chegar ao maior número de campineiros possível, mesmo que eles estejam apartados do centro habitual. Obviamente, isso quer dizer um investimento logístico, de caminhões, ônibus, estrutura, para chegar a esses lugares. Mas isso é um esforço que nós temos que fazer, é uma questão de honra. Não podemos pensar só comodamente que as pessoas vão vir sempre a nós A gente estava passeando, eu passei aqui por trás Eu ouvi a moça cantando a música lírica A gente deu a volta, pediu para entrar, porque geralmente cachorro não pode Ele falou que podia e a gente entrou Muito bom, e está gostando da música? Estou adorando, vou esperar acabar Ela falou que espera Tudo isso nos ajuda, é muito bom para a gente ver esse retorno que a gente quer passar, quer mostrar, quer fazer as pessoas sentirem. Porque nós precisamos do público, mas nós precisamos deles também. Se a gente não tivesse o público, o que valeria para a gente? A gente sente o afeto, a gente sente a alegria, a gente sente o prazer que eles têm em ouvir a gente. É muito bonito. Não pode ficar sem sinfone em Campinas. É a tradição da cidade, né? Na Concha Cusca, faz em vários bairros de Campinas. É tradicional, não pode faltar a orquestra sinfônica, né? Nem que seja pra assistir do lado de fora da grade. Nem se for pra assistir do lado de fora da grade, já é VIP. É que bancada é VIP. Apresentar a música de uma forma lúdica para as crianças é uma das maneiras de renovar a plateia. Essa, aliás, é uma das características marcantes da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas em seus 90 anos, sempre em movimento. Música Todos os anos, duas vezes ao ano, ela se dedica a fazer concertos para as escolas, para que as crianças tenham um primeiro contato. São concertos muito bem pensados para a criança, em que são apresentados os instrumentos, há comentários, olha, compare esse instrumento com aquele, agora vamos ouvir a música inteira, sabe? Enfim, é feito de uma maneira didática mesmo, não é só o nome que é concerto didático, os concertos são realmente didáticos para que as crianças tenham o primeiro contato com a música sinfônica e nós esperamos que elas voltem depois. Me parece fundamental, me parece uma coisa que uma criança, quanto mais jovem ela tem a experiência de ouvir uma orquestra, mais rapidamente vai entrar no DNA dela, não vai ser a experiência distante que muitas pessoas têm. Sempre há uma estadística não formada, que pessoas que quando criança estudaram piano, 30%. Pessoas que pensam que teriam gostado de poder tocar piano, o restante 70% das pessoas. Porque é uma experiência bonita, fazer música. Geralmente, as crianças já têm aula de música nas escolas. E o que acaba acontecendo quando eles vêm para o teatro? Eles vêm fazer mais uma aula de música fora da escola, onde eles vão aprender o conjunto da orquestra, os vários instrumentos tocando juntos, e uma melodia um pouco diferente daquilo que eles veem cotidianamente. É um projeto fantástico em que as crianças estão aprendendo de música clássica num contexto propício para o aprendizado delas, um ambiente muito agradável, muito acolhedor e o trabalho do Valdo Matos, que é o ator que faz o palhaço, é realmente fantástico então tem uma interação muito grande entre as crianças, o palhaço e consequentemente a orquestra E é essa interação que eu acho que é tão importante para dar sequência ao aprendizado musical dessas crianças. Nós temos um personagem que didaticamente e ludicamente mostram a todas as crianças os instrumentos da orquestra. Eles vão ter esse recurso bem perto deles e também ver aquele instrumentista com aquele instrumento, como é que ele se comporta tocando, sentando-se ali naquela cadeira, olhando para o maestro. Então, tudo isso traz para essa criança uma experiência inovadora, porque não é isso que ele vê todo dia. Um projeto como esse, de concertos didáticos da Orquestra Sinfônica de Campinas É incrivelmente lindo, ele é de uma valoração enorme Porque ele foi pensado para isso, para a formação da plateia A ideia partiu do Wellington Nogueira, dos doutores Alegria e do maestro Adail Fernandes com os arranjos E a gente trabalhar num projeto como esse, que pensa na formação da plateia E que está lidando com esse viés da música erudita, de forma humorada e irreverente É muito lindo, é um projeto que tem um carinho profundo por ele Eu acho fundamentais as apresentações didáticas da orquestra A gente não faz só por cumprir tabela, porque achamos que é uma coisa realmente importante Porque é desses concertos que as pessoas lembram pelo restante da vida Quando você pensa, ah, uma vez na escola me levaram a um concerto de uma orquestra Você não pode lembrar que música tocaram Você não pode lembrar que maestro Mas você lembra da experiência E você lembra dela como uma experiência bonita Uma experiência interessante Então, quando você já é adulto e te falam de ir a uma orquestra Ah, eu já tive essa experiência e lembro que gostei, gostei de fazer. Todos os anos a gente atinge um grande número de crianças que ajudam na formação de público, ajudam na cultura, no conhecimento como pessoa, como brasileiro, e dão novas opções também de aprendizado, de conhecimento de outras culturas também, Como a Europa, como a Americana E como a nossa própria cultura que muitas vezes Ela é um pouco negligenciada Mas a Orquestra Sinfônica de Campinas valoriza muito a nossa música popular também Eu penso que o tempo todo a gente está trabalhando com a formação da plateia E formar a plateia com esse caráter A sinfônica formando sua plateia Crianças que se tornam adultos e continuam a apreciar o concerto da sinfônica é mágico O tempo todo a gente está trabalhando com essa formação de plateia Então é uma responsabilidade muito grande do artista, do músico Artista de maneira geral, com esse público que é a criança Porque a gente está formando a plateia Os conselhos didáticos não só informam Não só tem essa importância de informar as crianças e fazer com que eles tenham uma inserção nesse mundo musical, mas também parametriza, dá um parâmetro do que é a vida social, cultural, da importância de todos os fatores que estão relacionados à música para a própria vida dessas crianças. A orquestra, dessa forma, devolve ao município a expectativa e parte do investimento que é feito na instituição. Claro, existe a possibilidade de que muitas dessas crianças que estiveram aqui nos concertos, que estão nos concertos didáticos, talvez despertem o gosto pela música, escutem um instrumento em particular e digam, ah, eu quero tocar esse instrumento. Então, talvez estamos formando os próximos músicos da sinfônica, as seguintes gerações. Talvez dessas crianças saia o próximo primeiro fagote da orquestra, os próximos violinos. Talvez esteja o próximo maestro ou maestrina da orquestra sinfônica entre eles e despertaremos a paixão deles a partir desse concerto. Talvez os próximos compositores ou compositoras, talvez o próximo Carlos Gomes esteja entre essas crianças. É uma responsabilidade muito fundamental para o futuro do país, realmente. Olha, eu sou suspeito, mas eu diria que com certeza é uma influência grande para a vida dessas crianças Porque a primeira vez que você tem essa oportunidade de ver uma orquestra ao vivo E realmente aproveitar esse espetáculo musical que está acontecendo É algo que fica marcado na vida das pessoas E eu acho que algumas dessas crianças com certeza vão continuar buscando a música, buscando o teatro, a arte, e isso é essencial. Existe uma triste distância das pessoas com o que a gente faz, que a gente tenta muito encurtar, de ficar mais perto, de que seja parte do dia a dia das pessoas. E todos os meios que utilizamos sempre são muito engraçados e muito interessantes. A gente teve aqui um encontro com aproximadamente 10 mil crianças. Então se dessas 10 mil crianças a gente for imaginar que pelo menos 5%, 10% deles resolvam se tornar músicos, isso é lindo, já é uma retribuição desse esforço que a gente fez para que esse projeto desse certo. É lindo isso. Eu achei espetacular, um momento único de cultura, onde a população, a maioria da população não tem acesso. Então eu achei que foi um momento único, um momento cultural fantástico, que nós iremos aproveitar muito esse momento em sala de aula, né? Através de discussões, experiências, o que eles acharam, fantástico. Achei legal, inspirativo e eu vou vir mais uns dias para ver. Eu vou para a minha mãe que eu adorei, eu quero ir de novo aqui e também achei muito legal e as músicas tem de desenhos, muito legal. Eu adorei isso daqui, tipo, é a primeira vez que eu vejo uma orquestra, eu pensei que ia ser, sabe, eu pensei que ia ser chato, sim. Ah, amei! No próximo bloco, os personagens principais, a rotina dos músicos, que muitas vezes tem de conciliar os estudos com outros afazeres, e ainda, os instrumentos da orquestra, que tem personalidade própria. Continue conosco! Afinar aqui, dedilhar ali, soprar a colar, passar o som. A prática ininterrupta dos músicos da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas vai muito além dos ensaios no teatro. É preciso dedicação, esforço e também compreensão da família e até dos vizinhos, já que muitas vezes a casa dos músicos se transforma num escritório. Assim, o estudo contínuo de cada um é parte fundamental para o sucesso da orquestra. A nossa profissão de músico, o negócio é o momento. O momento é aquele horário ali, é o concerto, é aquele solo que a gente tem exatamente naquele minuto que vai sair. E ali precisa sair. Não é uma coisa que você vai poder regravar, gravar de novo. Aqui se eu falar qualquer coisa errada Falei, não, corta, corta No momento do conceito, da arte Teatro, música, dança Médico também, eu sempre falo que é isso É ali, é aquele momento Então a pessoa que se acomoda E deixa de praticar Na hora que ela mais precisar vai falhar E a gente não pode falhar A gente tem que estudar sempre Cada dia são peças novas para estudar e requer muita técnica, você tem que estar com a técnica em dia Você dá bastante escalas, estudos de vários autores para poder conseguir tocar uma peça moderna principalmente Eu costumo pensar muitas vezes na figura do ator, então o músico muitas vezes tem que agir como um ator Então ele tem a manutenção da técnica básica, mas hora ou outra ele vai ser surpreendido com uma música ou com uma inserção antes não prevista. Então é um momento que ele vai ter que usar recursos técnicos além do básico que o mantém no decorrer dos trabalhos. A técnica a gente se faz diariamente, sempre um pouquinho, eu sempre falo para os alunos, meus alunos, não adianta você estudar 5 horas num dia e passar o resto da semana sem estudar, é uma coisa diária, sabe, é como qualquer outra coisa do nosso dia a dia, tudo que a gente faz um pouco por dia a gente grava, a gente memoriza, a gente aprofunda. Na percussão, na verdade, hoje eu estou tocando pandeiro, mas a gente toca todos os instrumentos, todos. Desde o tímpano até o prato, triângulo, bumbo, caixa, bateria, prato a dois, prato suspenso. Então eu vim estudando desde criança já, mas a gente concentra em alguns instrumentos chaves, Que são a caixa, que acho que é o mais complicado no começo, que te dá a técnica Os tímpanos e alguns instrumentos de teclado, que a gente não tem hoje aqui nesse programa Mas xilofone, vibrafone, e cada um tem uma técnica diferente O trabalho do músico dentro da orquestra não acontece só no momento que você está no ensaio Ele exige uma preparação para a execução das obras diárias. Então, pelo menos umas três horas por dia, eu preciso estudar para dar conta do meu trabalho dentro da orquestra. Mas vai além disso, não dá para você só estudar as coisas que você vai apresentar na orquestra, que você vai desenvolver na orquestra. Você tem que ter um trabalho de sonoridade, um trabalho de técnica, que exige muita dedicação. Então, não é só estudar, só tocar na hora que está na orquestra, você precisa tocar muitas horas por dia. Chegou num dia de manhã assim, que era feriado, eu acordei disposta, nossa, hoje eu não tenho nada, vou estudar agora de manhã, né? E comecei a estudar, e daí o silêncio ali, que eu moro perto de Santa Convência, ali na Padre Vieira, É quieto o lugar, né? E daí a pessoa que não era do meu prédio gritou, mas de novo essa música! Pra gente o grande problema é estudar a técnica de todos pra poder tocar na orquestra. Então hoje eu tô tocando pandeiro, amanhã eu posso tocar prato, depois triângulo, e eu tenho que estar sempre estudando todos eles. A gente toca por baixo, assim, uma média de 20, 30 instrumentos diferentes, né? que faz parte da família de percussão, na orquestra, porque fora da orquestra tem muito mais instrumentos. Aí você pode pensar, todo trabalhador busca sempre alguma atividade, extra trabalho, para poder organizar os pensamentos. E no caso dos músicos da orquestra, que estudam a música todo o tempo, vivem a música muitas horas do dia. É aí que entram os hobbies e, olha, são os mais variados com os músicos da orquestra. Um exemplo está aqui, o João Leite, trombonista da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e domador de cavalo nas horas vagas. Todos se surpreendem, né? O pessoal do cavalo se surpreende comigo. Quando eu falo que eu sou da Sinfônica de Campinas, né? Sou músico, professor, e o pessoal da música se surpreende quando me veem mexendo com o cavalo. Quando ficam sabendo, existem até, oh, será? É verdade? Então, a gente sempre está naquela, assim, convido todo mundo a me conhecer, sabe? É bacana. Eu ainda estou esperando o estudante de psicologia que faça sua tese de doutorado a respeito do trabalho orquestrado. Porque, claro, as pessoas geralmente veem o produto terminado, veem o concerto, a apresentação. Mas essa é a ponta do iceberg. O restante do trabalho está, obviamente, nos ensaios. E o trabalho de orquestra, para mim, é um tratado de psicologia pura. Cada qual tem a sua maneira de buscar após os ensaios, após o estudo diário das obras, obras, o repertório, o estudo técnico, buscar uma atividade, alguma atividade que relaxe, traga um outro ambiente. É muito comum entre os músicos você encontrar professores que fazem yoga, relaxamento, pesca, ou, curiosamente, praticam música em outra instância, como música popular, ou ouvem. Eu escuto muita música, mesmo fora a orquestra, é muito comum. Eu tenho outra profissão também, sou arquiteto, então eu trabalho muito com projetos, gosto de, enquanto estou trabalhando, estar ouvindo música. Sabe, na minha cabeça funciona da seguinte maneira. Para se preparar uma peça musical, um repertório Existe um trabalho muito extenso Do primeiro ao último compasso de qualquer música Temos que estudar todas as possibilidades de interpretação De atuação, dinâmica, isso, aquilo E essa flexibilidade, essa busca, essa lapidação Sabe? Acontece muito também na doma, ou até melhor dizendo, na educação de um cavalo, né? Porque eu aprendi com o antigo domador, que cada cavalo é um cavalo, e cada lado do cavalo é um cavalo diferente. A música também, cada compositor é um compositor, cada época, sabe? Cada música tem a sua essência, né? E nós devemos sempre nos entregar para a essência daquela música. Não é só que cada um tem uma história diferente. Cada um vem aqui com um momento de vida diferente. Tem pessoas que adoram a peça que vai ser interpretada. Tem pessoas que odeiam, que estão desacosteados de tocar essa peça novamente. Tem pessoas que adoram o maestro que está na frente. Tem pessoas que detestam o maestro que está na frente. Tem pessoas que estão preocupadas porque não pagaram suas contas. tem algum que está agripado, tem algum que tem um filho que está doente, tem algum que tem algum problema com a mulher, tem algum que não dormiu bem, tem algum que está pensando se no almoço vai comer carne ou peixe, tem toda a experiência humana nessa... E meu trabalho como maestro é um pouco uma mistura disso, porque o trabalho de maestro tem a ver com a parte musical, obviamente, fundamental, mas tem a ver com uma parte muito de psicologia também. Quando você é maestro, você é um pouco amigo, pai, irmão, generoso, sacerdote, palhaço. Tem todas as possibilidades, porque os seres humanos reagem de formas diferentes também. Teve um antigo maestro nosso que um dia falou um negócio muito sério. Que se o pedreiro erra a parede, a parede cai. Se o mecânico errar a regulagem do motor, o carro não pega. Se o médico errar numa cirurgia, ele mata o paciente. Mas se o músico erra, se o músico não toca bem, ele mata a alma da pessoa. Então isso é muito mais sério do que a gente imagina. É um compromisso muito sério, você ser músico. Parte imprescindível de uma orquestra, Os instrumentos também têm personalidade própria, desde o material utilizado na construção até mesmo o tipo de uso do equipamento e as consequentes vibrações sonoras provocadas por ele conferem características a um violino ou a uma viola como essa, por exemplo. Como o mínimo detalhe importa, nascer bem faz toda a diferença. Por isso, o trabalho do luthier é fundamental para um conjunto orquestral. O luthier é todo aquele que constrói instrumentos musicais, ele leva esse nome, na verdade é um nome francês. Aqui no Brasil seria mais um artesão, mas não se usa esse termo, é luthier mesmo. Olha, o instrumento é uma coisa muito pessoal, tá? E tem muitos luthiers que fazem o instrumento, já no Brasil já tem bastante, e fora do país também, principalmente na Europa, muitos luthiers famosos. Atualmente eu estou com uma viola que foi construída por um luthier daqui de Campinas, chamado Cláudio Bensal. Inclusive tem vários instrumentos dele na orquestra, nas violas Para mim é um orgulho, uma conquista muito grande Eu comecei bem lá de baixo, como todo mundo começa E eu consegui algo assim, vamos dizer que extraordinário Porque hoje numa orquestra, seja onde for, em qualquer lugar do mundo Um luthier conseguir colocar novos instrumentos dentro de uma orquestra é muito difícil Dificilmente um luthier tem essa quantidade de instrumentos numa orquestra E eu tenho consciência que os instrumentos que eu tenho na orquestra fazem um diferencial para a orquestra São instrumentos muito elogiados, até pelos próprios maestros Então para mim é uma conquista e estou muito feliz por isso, por fazer parte dessa história Os instrumentos por natureza são muito diferentes um do outro Por conta da sua construção, o material, a madeira, tudo mais e você, com o tempo, vai buscando um ideal de som. Qual o tipo de timbre que você quer do instrumento mais aberto, mais aveludado. E você parte, então, em busca, principalmente depois que você já tem uma formação, em busca de um instrumento que tenha essa sonoridade, que na sua construção lhe permita responder, você obter respostas do instrumento àquilo que você se referencia ou imagina. O violino é feito com a madeira de abeto, a parte da frente, e o fundo, as laterais e o braço é feito com maple. O maple é uma madeira europeia também, o abeto também é europeu, e são madeiras assim próprias, tradicionais, convencionais para fazer enchimento musical mesmo. Eu sempre falo que quando Deus criou a madeira para o instrumento, foi essas madeiras que Deus criou. Eu tive a oportunidade de ter instrumentos feitos para mim Já tive dois instrumentos que foram feitos pelo Luthier brasileiro E foi uma experiência muito interessante Participei do processo desse Luthier De desenvolver os seus instrumentos Então é uma troca À medida que você participa do processo E retorna a satisfação de poder desenvolver o instrumento Partindo do zero Porque o instrumento evolui à medida que você vai tocando As cordas vibram, a caixa vibra e com o tempo ele vai ganhando certas características próprias Violino demora uns 10 meses, 11 meses, essa faixa aí Não é um trabalho feito na correria, é feito meio na tranquilidade Até porque você tem toda uma preocupação de você, desse produto chegar na mão do músico E fazer assim, digamos, bastante diferença ter um diferencial para ele poder mostrar o trabalho e ser reconhecido é todo artesanal, é um processo muito artesanal e tem que saber muito estudo para poder construir um instrumento desse muito estudo e conforme o gosto se identificar com o instrumento, a questão do tato, da sonoridade também Adaptação da sonoridade, tudo isso Então hoje a minha preocupação maior com certeza é a parte acústica A parte estética já está bastante definida Já não é uma coisa que me preocupa tanto Preocupa sim, porque a arte de um profissional também é conhecida pela sua beleza Mas a parte acústica é o final de tudo É o que o músico mais quer mesmo, o que ele precisa para fazer o trabalho dele é a parte acústica Então, nós somos, em geral, 30 ou 35 violinos, divididos em dois naipes. Primeiro, são os violinos. Eu faço parte do naipe dos primeiros violinos, que quase sempre trabalham em uníssono, ou seja, todos tocando juntos. Isso é muito interessante, porque você tem que se dedicar a um resultado comum. É um desafio, mas, ao mesmo tempo, dá muito prazer quando o resultado obtido é compartilhado de uma forma única com todos. E cada instrumento, claro, tem suas próprias características muito específicas. Os violinos têm uma forma muito diferente que as flautas, ou que as trompas, ou que a percussão. Mas são todas essas cores que os compositores pegam nas suas pinturas orquestrais que é a responsabilidade da gente organizar. Eu acho que a maior beleza de um grupo orquestral é justamente a individualidade em prol da coletividade. Então isso eu acho fantástico, porque quando o maestro baixa a batuta, todo individualismo pessoal é submetido ao bem comum da coletividade musical. Meu trabalho como maestro é... eu não toco todos os instrumentos de orquestra. São poucos os maestros que conseguem isso. Mas, sim, temos que conhecer as particularidades de cada instrumento, as possibilidades técnicas, os registros, qual é a nota mais grave e mais aguda que eles podem fazer. E, segundo isso, tentar interpretar o que o compositor escreveu. Uma partitura orquestrada é uma espécie de peça teatral. Está o que cada personagem fala dentro de uma peça. E é responsabilidade do diretor organizar isso no palco para que depois possa simplesmente acontecer. A definição, a qualidade, o produto final de um som único nisso, com timbre específico, ele depende muito de que todos os músicos estejam afinados, não só do ponto de vista da sua técnica, mas também do entrosamento pessoal. É uma experiência interessante você conviver com os colegas e juntos buscar um resultado único dentro do conjunto da orquestra. Você vai ver no próximo bloco como a história da sinfônica se confunde com as de seus regentes ao longo desses 90 anos. E ainda, como a presença do maestro Carlos Gomes é fundamental para esse conjunto orquestral. É já já, hein? Não vai sair daí! Em 90 anos, a Batuta da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas esteve em boas mãos. Regentes carinhosos, cuidadosos, comprometidos em levar o melhor da música para a plateia. Estar à frente de uma orquestra como a Sinfônica de Campinas exige talento e também muito esforço, características reconhecidas pelo grande público. Uma tradição iniciada em 1929 com Salvador Bove, o primeiro regente da Sociedade Sinfônica Campineira, e que foi passada de mãos em mãos até hoje ao maestro Vitor Ubutoro. É muito especial, é muito especial reger esta orquestra. Primeiro pela sua história, reger uma orquestra de 90 anos, reger a orquestra mais antiga do Brasil, ou uma das mais antigas, e também uma das mais antigas na América Latina, obviamente Eu sempre tenho um senso de orgulho. Eu falo da sinfônica com orgulho. É a minha orquestra. É a orquestra com a qual meus primeiros pensamentos musicais do dia vão. Como posso fazer minhas coisas melhor, como posso fazer melhor o trabalho com a orquestra. Os regentes certamente contribuem bastante. Todos os regentes que eu conheci que trabalharam na orquestra contribuíram da sua forma pelo período que passou. Teve o maestro Salvatore Bove, que foi o primeiro maestro da orquestra. Teve o maestro Luiz de Tullio e a família de Tullio, que fez um aporte fundamental na história sinfônica. Você não pode contar a história sinfônica sem mencionar a família de Tullio. João de Tullio era meu avô italiano, nascido na Itália, vindo para o Brasil. Eu sou filha do Mário de Túlio, que foi pianista, e sobrinha de Luiz de Túlio, violinista, e Pompeu de Túlio, violoncelista. Portanto, são quatro músicos na família, meu avô e três filhos. Eu acho que a gente tem que respeitar e valorizar muito a família de Túlio, a importância da família de Túlio nessa trajetória, que é quem traz essa orquestra viva até esse momento da década de 70, traz já um ápice para essa orquestra sinfônica, mas ainda nessa formação, até por conta do contexto histórico, numa formação de músicos que estão sobrevivendo por amor à arte e à música. O João de Túlio assumiu a regência até a morte dele em 1946. Quando ele morreu, o filho, Mário de Túlio, assumiu a regência até 1953, quando foi extinta a orquestra. Do último concerto, eu me lembro, foi meu pai que regiou em 1953. Eu assisti e eu e a minha irmã mais velha, que já é falecida, nós entregamos flores para o Mário de Túlio, meu pai. E foi uma coisa emocionante para ele, para nós, porque nós sabíamos que era o último concerto. E assim, pelo que nós estamos vendo nesses programas antigos, eram também repertórios muito densos, a gente fala que era uma orquestra que não era pública, não era, ela tinha uns repertórios bem complexos, não era uma orquestra amadora no sentido de que fazia coisa simples, Não fazia coisa simples, então ela vem durante a história toda dela fazendo um trabalho bem complicado E cinco anos depois, por volta de 1958, o Luiz de Túlio tinha muitos alunos de violino, muito Ainda vivia aquela questão da orquestra sinfônica que havia sido extinta Ele era o espala da orquestra, eu esqueci de falar isso O Luiz de Tula era o espala da Sociedade Sinfônica Campineira Então ele tinha aquilo na veia, sabe? Ele era um sonhador, ele queria uma nova orquestra Ele juntou os alunos dele e formou o conjunto Jovens Violinistas de Campinas Ele era professor no nosso conservatório Ele fazia tudo, na época, ele era dono de todos os violinos que saíam de Campinas Era ele que dava aula e ele fazia uma verdadeira sociedade sob a batuta dele. Então ele começou uma orquestra amadora e dentro do conservatório. Antes ele tinha aulas em outro lugar. Aí quando começaram a criar obstáculos para que ele trabalhasse lá, ele veio pedir para mim se ele podia fazer os ensaios no conservatório. Então a gente abria de propósito, o conservatório não trabalhava à noite, eu abria de propósito para ele fazer os ensaios. E depois você vê ela se formando como um apoio da própria PUC, como uma orquestra universitária, depois ela vem receber o apoio da prefeitura e aí ela se torna uma orquestra municipal e aí ela vem a ser reconhecida nessa municipalidade, mas ainda com músicos que eram quatro horas por um período muito curto de tempo registrado e salários baixos. Então eles tinham que ter um outro trabalho para poder sobreviver E aí eles não podiam se dedicar à música E no final a gente despertou até a atenção da faculdade de música Da Unicamp, da PUC E aí eles me procuraram se eles não poderiam entrar Então, nós ficamos sócios do Mons. Salim na questão de ajudar a orquestra. Então, ficou Mons. Salim dando toda a ajuda que ele pedia também e eu dando o espaço, a possibilidade dos ensaios, ajudando às vezes a comprar corda de violino. Era essa ajuda de infraestrutura. Do prefeito Rui Novaes aceitou, foi criada a Orquestra Sinfônica de Campinas por um decreto dele, Rui Novaes, com toda a assistência da Secretária de Cultura, Jaci Milani, ele criou a orquestra por um decreto de data de 31 de agosto de 1966. A Orquestra Sinfônica de Campinas existe desde essa data e seu primeiro maestro foi o maestro Luiz de Tudio. O real criador daquela orquestra foi o maestro Luiz de Tudio. O que estava sendo feito era uma edificação mais sofisticada, que a orquestra merecia também isso. Até que, finalmente, a orquestra recebe o maestro Benito Juarez, que profissionaliza essa orquestra de trazer músicos de todo o Brasil, com concursos públicos. Essa orquestra passa a ser uma referência também fora de Campinas, a receber prêmios, a ter a participação de músicos, referências nacionais como Hermeto Pascoal, Milton Nascimento, que é um outro momento de glória da orquestra, acho que toda essa trajetória é realmente apaixonante da nossa orquestra aqui. Eu estou aqui há muito tempo, eu comecei na orquestra quando o maestro Benito Juarez era titular da regência, e cada pessoa contribui de uma maneira para o desenvolvimento do trabalho. Então, cada maestro imprime as suas características, dá uma marca para a orquestra. A orquestra toca como é o maestro, a tendência é essa. Teve o Benito Juarez como maestro, teve o Ailton Escobar, que foi um grande maestro que esteve por aqui, teve Cláudio Cruz, que agora é maestro da Orquestra Jovem do Estado, teve Ligia Amadio, que foi uma maestrina que fez um momento muito bonito da história da orquestra, teve Parcival Módulo, teve Roberto Tibirizá, teve a Carlos Fiorini, teve a Carl Martin, que nunca foi maestro titular oficial, foi o principal maestro convidado, mas foi muito importante na história da orquestra, e depois venho eu nessa história. Eu estou há oito anos com a orquestra, após Benito Juarez, nesta história moderna da orquestra, eu sou maestro, que ficou mais tempo. Eu gosto muito de dizer que não é só o fato que eu tenho ficado todo esse tempo, é que após tanto tempo de trabalhar juntos, ainda conseguimos trabalhar juntos, ainda é interessante, ainda conseguimos fazer boas apresentações. O monumento túmulo em homenagem a Carlos Gomes está na Praça Bento Quirino, no marco zero de Campinas, prova da importância de um dos maiores compositores de óperas das Américas para a cidade. Como não poderia deixar de ser, a figura de Carlos Gomes está presente na Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, que tem como um dos propósitos de sua existência manter viva a memória e, principalmente, a obra do grande maestro. Uma questão de honra para todos os músicos. Carlos Gomes é um referente fundamental da cultura brasileira, mas se para outras orquestras é importante tocar música de Carlos Gomes, para nós é uma questão de honra. É o que faz a Orquestra de Parma tocando a música de Verdi, é o que faz a Orquestra do Festival de Bayreuth tocando a música de Wagner, é uma responsabilidade que vai além de só interpretar a música. Tem apresentado sempre obras de Carlos Gomes, obras inéditas ou obras mais tradicionais, óperas, enfim, apesar de a gente não ter as condições técnicas de fazer ópera, não tem falta do poço da orquestra, mas ele tem tentado colocar esse Carlos Gomes no repertório, não só em ópera, mas em todos os sentidos. Então, acho que isso tem sido bastante importante. Você pode só falar de Carlos Gomes, o importante não é falar, o importante é tocar E acho que isso tem sido feito nesse período A orquestra tem que ser a embaixadora do Carlos Gomes E não o Carlos Gomes, o embaixador da orquestra Nós somos a orquestra que mais toca Carlos Gomes no Brasil, no mundo, obviamente E é super importante que nós levemos a obra do Carlos Gomes para as pessoas Para os campineiros, para os brasileiros, não é uma obra muito conhecida de todos Então eu acho super importante Além de ser campineiro é um brasileiro, acho que é o mais tocado, o mais conhecido de ópera né então a gente tem que sempre levar o nome né do Carlos Gomes tocar antes de entrar aqui na orquestra obviamente que já conhecia o Carlos Gomes né mas as outras orquestras do Brasil ele não é tão tocado mas isso é engraçado né é tão tocado e quando eu vim para cá tocou muito não só o Guarani que é o mais famoso né que é o segundo hino de Campinas mas tocando várias coisas, né? Outras óperas, né? Eu acho que essa influência histórica vem lá de trás. Eu eu tenho impressão que nós só temos essa orquestra com a importância que ela tem, fundada em 29 graças à memória memória de Carlos Gomes. Eu acho que ele é responsável por nós termos essa orquestra. Como você falou, é o maior compositor de ópera das Américas, reconhecidamente. Viveu naquilo que era o centro mundial da ópera no período que era o Scala de Milão, convivendo com os maiores compositores de ópera da história, daquele período. Ou aqui, a Mogiña, quem sabe, em Campinas, que nem todo mundo conhece, fora de Campinas. Por que através da música que a gente entende por que Carlos Gomes foi importante? Se não, Carlos Gomes vira só uma referência nos livros, vira um nome, vira algo seco, vazio. E não podemos deixar isso acontecer, especialmente na cidade de Campinas. Nós temos um tesouro importante aqui que nós temos que cuidar e manter. A ópera naquele período ocupava um espaço na sociedade próximo ao que ocupa o cinema hoje Era um entretenimento de larga escala, tanto na sua manifestação mais tradicional Quanto nas suas derivações, a opereta, o vodevilha, as manifestações um pouco mais populares de ópera Mas isso era assim, o público se entretinha, fazia entretenimento na ópera Como hoje você vai ao cinema, né? Então a gente poderia dizer que o Carlos Gomes, se fosse comparado ao que é o nosso período, ele seria algo como um Spielberg em Hollywood, entendeu? Um grande diretor na central maior daquela arte que ele faz. Mas sim, sempre soube da orquestra, principalmente por Carlos Gomes, a cidade de Carlos Gomes Eles tocam o Carlos Gomes mais que qualquer orquestra do Brasil E para uma cantora, Carlos Gomes é muito importante, porque é o compositor que mais fez ópera E, bom, para mim é um privilégio estar aqui Um compositor, um músico campineiro de uma expressão internacional Foi o grande compositor de ópera do Brasil Para nós, nós valorizamos muito isso E nós gostamos de fazer Carlos Gomes Desde que eu me entendo de ter entrado na orquestra A gente sempre executou muito Carlos Gomes Praticamente quase que o ano todo Sempre uma peça de Carlos Gomes Contemplava o programa da Sinfônica E eu achava isso muito importante Tomara que isso aconteça sempre Porque a gente tem que divulgar muito o trabalho de Carlos Gomes lá fora Pela importância que ele teve O que eu disse, se para outra orquestra é importante Para nós é muito mais do que importante Faz parte fundamental das nossas temporadas Porque temos que manter viva o motivo pelo qual esse compositor foi importante Se não, é só uma referência nos livros São um par de palavras que vão ser esquecidas no futuro e não podemos permitir que isso aconteça. O reconhecimento da Orquestra Sinfônica de Campinas como patrimônio imaterial da cidade. Um orgulho para todos os campineiros. É o que você vai ver no próximo bloco. Continue com a gente. Ao longo dos seus 90 anos, a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas participou ativamente da cultura da cidade, mas também do Brasil. Apresentações históricas, como aqui no Teatro de Arena do Centro de Convivência ou no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em campanha pelas diretas já, marcam a importância desse conjunto orquestral para o país. O reconhecimento veio com o tombamento da orquestra como patrimônio imaterial da cidade, um orgulho para todos os campineiros. Nós somos uma das primeiras cidades a ter uma lei de patrimônio material Nós começamos a fazer os primeiros registros Então há dois anos o Condepac vem trabalhando nos registros de patrimônio material E nos foi feito o pedido de que fosse aberto um processo de patrimônio material para a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. Ele foi aberto e foi depois julgado por unanimidade. A gente tem o reconhecimento da sinfônica como uma referência cultural no município, como algo que em duas situações que ela foi ameaçada, a população gritou esse é um patrimônio nosso, a orquestra é nossa. Então, acho que essa é uma característica pulsante mesmo da orquestra, no sentido de compreendê-la como um patrimônio e dentro do conceito do patrimônio material, ela foi registrada no livro das formas de expressão, que é onde a música ocupa esse espaço dentro da ideia de patrimônio. Há um carinho pela orquestra na cidade que foi agora reconhecido. Por que é o registro de patrimônio imaterial? É você dizer que um bem que a cidade tem, que não é um bem imaterial, não é um edifício, não é uma casa, não é uma igreja, não é um imóvel, ele é um patrimônio imaterial. Então, por exemplo, nós temos aqui registro de patrimônio imaterial da folia de reis, da capoeira, de brincadeiras infantis. que são os primeiros registros que a gente tem. E a orquestra foi reconhecida como um desses patrimônios imateriais, apesar dela se materializar naqueles que a compõem, na música que ela executa. Mas ela, enquanto instituição, é um patrimônio imaterial de Campinas. A orquestra é um serviço, no fundo, a orquestra é um serviço que a Prefeitura Municipal de Campinas dá aos seus cidadãos e que é pago pelos impostos que pagam os próprios cidadãos. Assim como dar hospitais, assim como ter praças, assim como arrumar as ruas, assim como ter iluminação. É um serviço que a prefeitura dá aos cidadãos. E isso é fundamental porque isso quer dizer que a orquestra é dos cidadãos, a orquestra é dos campineiros. Eu acho muito bacana de perceberem que para a cultura e educação de um povo, Precisa manter as tradições E não só manter, envolver toda a população nessa tradição Para mim, ser músico é um dom de Deus E eu acho que o privilégio de ser músico É você poder trabalhar com aquilo que ama E tocar na sinfônica, para mim, sempre foi um desejo Um desejo, porque eu vim para Campinas com 18 anos para fazer o Unicamp e no terceiro ano de faculdade eu entrei aqui na orquestra. E era uma coisa muito grandiosa e eu acho que ainda é para mim. Música, principalmente músico de orquestra, é uma coisa que você escolhe quando é criança. A criancinha começa a estudar. Então você vai vivendo isso. E com o tempo, já aconteceu várias vezes eu estar sentado na orquestra tocando um concerto e não conseguir explicar para mim mesmo como eu vim parar aqui. Olha que coisa linda, eu estou na orquestra, o som tremendo, as coisas funcionando e você fala, caramba, eu estou na Sinfônica de Campinas. A sinfônica, cada concerto dela é um momento diferente Mas eu posso enumerar algumas assim Por exemplo, na década de 70, a sinfônica de Campinas se apresentou num circo Naquela época o circo Irmãos Almeida era muito popular na cidade E a sinfônica se apresentou nesse circo Foi também uma coisa tão diferente Então você vê, ela se apresentou até em estacionamento do supermercado Ela se apresentou em colégios aqui em Campinas Então foram muitos locais e apresentações muito diferentes Um momento que me marca muito, na verdade foram vários momentos Foi os concertos do Centro de Convivência Cultural Quando funcionava o Teatro de Arena Realmente era tanta gente que parava todo o trânsito ao redor E não tinha lugar para estacionar carro De tanta gente que participava dos concertos É muito interessante durante a trajetória da orquestra De ver como ela estava sintonizada com os acontecimentos da sociedade Então a orquestra sinfônica foi muito importante na campanha das diretas já, mas não só naquele concerto que acontece no Vale do Anhangabaú, que é um concerto referência, mas essa história começa aqui, no Teatro de Arena. A primeira vez que a orquestra fala dessa campanha da direta já começa aqui no Largo do Rosário, depois no Teatro de Arena e a terceira apresentação que reúne um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú. Então é um momento realmente que os músicos contam com muita emoção, que eles desceram do ônibus e olharam assim, uau, quanta gente, e a população ia abrindo caminho para eles passarem com os instrumentos até chegarem ao lugar do concerto no Anhangabaú, então é um momento de muita emoção da orquestra. Acho que quando nós nos apresentamos no Teatro de Arena, foi na década de 80, na época das diretas, já o pessoal cantando junto, dançando, aquela música, vem, vamos, e todo mundo dançando, e tocamos o bolero de Ravel. Então, acho que esses concertos que reúnem um grande público, como nós fizemos no Taquarau várias vezes, quando a gente vê aquela multidão, isso é maravilhoso. E a gente saber que a gente é só um ali no meio, mas que a gente está fazendo a diferença, é vendo o público falando, é a Sinfônica de Campinas, porque aí não sou eu, é a Sinfônica, isso é maravilhoso. Uma das coisas também que me tocou muito foi quando nós fizemos a ópera completa do Carlos Gomes, o Guarani, que nós apresentamos em Belém do Pará, na época, que foi a terra onde o Carlos Gomes morreu, né? E viveu nos seus últimos tempos. E foi fantástica essa experiência de montar a ópera completa, sabe, com a Nisa de Castro Tanque cantando, que é a solista de Campineira. A gente teve esse privilégio de acompanhá-la lá em São Paulo nas diretas também, nos teatros aqui em Campinas, no Largo do Rosário. Então a sinfônica se apresentou em muitos locais, até lá em Belém do Pará, nós fomos lá no Teatro da Paz, Foi feito dois concertos lá com a Sinfônica. Então foram, sim, muito diferentes, sabe, assim, que a gente pôde estar presente. Nós somos um gosto atuído. Nós somos um gosto que a gente, com o tempo, aprende a desfrutar. Eu gosto de brincar que nós somos que nem academia. Academia é uma coisa que, ao princípio, ninguém gosta de ir porque acha que vai ser cansativo, porque vai ser um esforço, porque talvez nem vai desfrutar tanto. Mesmo que fazer esporte seja uma coisa importante Seja uma coisa que te faz bem para o organismo Que ao longo prazo melhora a tua vida Assim como o trabalho que nós fazemos melhora a vida das pessoas E se você se dá a oportunidade e você vem e faz uma rotina Você descobre uma coisa que até vira uma adicção Eu tento pegar o público, a expressão do público E o conjunto da orquestra também Acho que tem vários ângulos que você pode enfocar E como sendo fotógrafo oficial, você tem a oportunidade de se locomover durante o concerto Você pode ir a vários lugares, atrás do maestro, na frente do maestro Então você tem esse privilégio e acaba dando muitas fotos muito bonitas E a gente conseguiu fazer esse trabalho O clássico, a gente tem que pensar, é uma coisa que dura, sabe? Que atravessa épocas, atravessa governos, desgovernos, não interessa, sabe? Aquilo a humanidade votou, isso é bom, isso permanece, isso vai permanecer. Às vezes você se dá conta de maravilhas que já existiam muito, muito antes de você nascer e que vão permanecer quando você morrer. Vão se escutar bá, daqui mil anos estarão escutando bá. Então isso se torna o ouro, a questão do ouro, a relação com o ouro. Já estava quando nós chegamos, vai continuar quando nós partilhamos. A gente está em uma escola de música, as crianças se interessam por música. Hoje mesmo está tendo um conselho didático da sinfônica, em escola particular também, que é importante. É importante todas as crianças, não só as de periferia, ou as mais pobres terem incentivo para estudar. Todos têm que ter, porque o futuro vão vir dessas crianças todas. Ou elas vão tocar, ou elas vão assistir, ou elas vão patrocinar. Alguma coisa elas vão ter de participação, para que continue andando isso. É um momento de celebração muito significativo para a orquestra e também para a cidade. Se a gente vislumbrar todo esse portfólio que hoje a orquestra acumula, Que também nos traz motivos de celebração, neste momento presente Mas também a responsabilidade de que possa ser objetivado um futuro Asegurando a continuação da existência da orquestra Todo mundo ama a orquestra Todo mundo teve o seu momento feliz ali Teve um momento que viu seus filhos participarem num coral, ou num coral da PUC, ou num coral da Unicamp. Viram os alunos do conservatório tocarem com essa orquestra. Viram que lá a maioria, tem muita gente que foi aluno do conservatório e hoje é músico dessa orquestra. Quer dizer, não teria sido possível nada se não fosse essa união de todas as pessoas. A gente tem que pensar também nas coisas do espírito, não só nas coisas materiais. Nós também precisamos das coisas do espírito para poder sobreviver e para poder ter uma vida melhor. Ela é um dos nossos orgulhos e também um símbolo da cidade em relação à própria música brasileira. Trabalhamos, insisto, com a qualidade de vida das pessoas. Não é que esquecer que a música, como atividade, claro, nunca arrumou emprego para ninguém. Nunca solucionou uma guerra, nunca evitou um grande conflito econômico, nunca definiu uma grande situação. A música não pode mudar a história, mas pode mudar pessoas. Pode fazê-las mais nobres, mais civilizadas, mais cultivadas. Melhores pessoas. E melhores pessoas certamente criarão um mundo melhor. Essa é a nossa igreja e ela é bem-vinda, mesmo que tenha que passar por outros pedaços difíceis. Legenda Adriana Zanotto
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